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ToggleSede definitiva do Luso Sporting Club, em 1938. Foto: Silvino Santos (cedida)
Por Abrahim Baze – [email protected]
A vontade pela prática do futebol foi o motivo que levou, no dia 1º de maio de 1912, os portugueses: Francisco Gomes Rodrigues, Antonio Lameirão, Francisco Ferreira de Carvalho, José Aguiar Sobral, Avelino Nunes Batista, Antonio Leitão Melita, Augusto Ornellas, Salvador de Castro Amorim, João Rodrigues, Joaquim José Pereira e Joaquim A. Lima Crispim, na rua Monsenhor Coutinho (residência do sócio Francisco Gomes Rodrigues), a fundarem o clube, que no ato de sua fundação foi batizado com o nome de Luso Football Club.
O primeiro nome dado ao clube (Luso Football Club), tinha relação com seu principal objetivo que era a prática do futebol. Apesar de serem homens de pouca renda, carregavam consigo ideias trazidas de Portugal e passaram a pôr em prática os exemplos de respeito mútuo e amor à tradição que foi o principal alicerce da construção da agremiação que naquele momento havia acabado de nascer.
O clube passou a servir naquela época de ponto de encontro nos fins de semana. Nele propagavam a cultura física, a educação moral e cívica. Nascia então uma sociedade que ostentava as lembranças das tradições e as lembranças que deixaram para traz na terra de origem.
Segundo consta na Ata do Clube, o líder do grupo e primeiro presidente, Francisco Gomes Rodrigues, transferiu a sede para sua residência na rua Jorge de Moraes, n.º 14, (hoje rua Rui Barbosa).
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O clube foi consolidando sua participação no cenário esportivo do Amazonas e havia necessidade de mais espaço físico. A partir daí, os fundadores tomam a iniciativa de alugar um espaço maior para promover suas reuniões. Nessa ocasião, transferiam sua sede para a rua São Vicente, nº 7, e depois, novamente a sede mudou para a mesma rua, nº 16.
O maior problema enfrentado pelos fundadores e sócios do clube, era a falta de recursos financeiros que pudessem lhes oferecer uma sede, ou até mesmo uma sede própria para as reuniões dos sócios. Assim outra vez, seus fundadores estavam em busca de melhores acomodações para a sua sede social e novamente a diretoria a transferiu para a rua da Instalação, nº 17.
Segundo Zamith:
“Embora timidamente, Manaus já respirava o processo organizacional da partida do futebol. O primeiro campeonato oficial disputado em Manaus foi em 1914. Praticamente nesse primeiro momento, na pri-meira divisão, os times do Atlético Rio Negro Clube, Nacional, Vasco da Gama, Manáos Sporting Club e Manáos Atlétic Club, cuja compe-tição foi iniciada no dia 8 de fevereiro com o jogo Nacional X Manáos Sporting Club, sob a organização da Liga Amazonense de Foot-Ball. Na segunda divisão, participaram as agremiações Manáos Sporting Club, Onze Português, Satélite Foot-Ball Club, Vasco da Gama, Atlético, Luso Foot-Ball Club, Naval Foot-Ball Club e Nacional Foot-Ball Club, que era formado por atletas de nacionalidade inglesa.
A organização do primeiro campeonato de futebol foi uma das primeiras, e mais importantes conquistas do Luso Sporting Club, assim como sua fundação. Pois parte da população de classe baixa passou a ter acesso ao esporte, e principalmente, ao futebol, que ainda era um jogo voltado para as classes sociais mais elevadas.

Segundo consta na ata do clube, transcorria o mês de março do ano de 1917, e nessa oportunidade, assumia a presidência do clube o empresário Virgílio M. Goulart, cuja administração prosseguiu até 1922. No período em que tal presidente esteve na direção do clube, o Luso vivenciou a fase mais importante de sua trajetória social e cultural, pois, durante aquele período o Luso Sporting Club se tornou o mais importante clube português do Amazonas.
Sua primeira apresentação oficial ocorreu no campo do Parque Municipal, realizando na oportunidade seu embate futebolístico contra o Manáos Sporting Club, tendo sido um dos primeiros clubes a fazer parte da “Liga Amazonense de Desporto Atlético”. Durante o período de 1912 a 1914, suas atividades limitaram-se à prática do futebol, conforme dito anteriormente, essa foi a inicial razão de sua fundação. Esse primeiro momento foi como se abrissem a cortina que ocultava o anseio por lazer dos jovens fundadores.
Outro fato importante, é que naquele momento, o clube já alcançava as culminâncias dos desportos no Amazonas, e era ao lado de outros, uma completa organização existente no gênero. Será que os fundadores criaram uma sociedade cujo pensamento era realmente da prática desportiva, muito embora já tivessem ideias avançadas sobre as grandes competições? Ou teriam outros interesses, pois alicerçam-se naquela época, os encontros dos fins de semana para a prática do futebol e a cultura da educação física, promovendo sociabilidades e outras relações que poderiam trazer-lhes bons negócios?

A iniciativa da fundação teve como motivo principal a prática do futebol de campo, vivendo a apogeu dessa prática de esporte, que nessa época dava seus primeiros passos em Manaus. Os fundadores não fizeram, no período de dois anos, nenhum registro escrito em livro.
A ideia de fundação de um clube de futebol era o suficiente para os fundadores, e era isso que os unia. O grande mérito era a união, que se desenvolvia juntamente com a prática do esporte bretão, cujas reuniões eram apenas para decidir a escalação do time, (quem participava como titular, quem se fazia necessário). Apesar do não registro em livro de atas, a tentativa de fundação não fracassou, e acredito, provocou mais entusiasmo com a espera do domingo – dia marcado para os grandes embates.

O primeiro campeonato oficial disputado em Manaus foi em 1914. Participaram nesse primeiro momento do Atlético Rio Negro Clube, Nacional Futebol Clube, Vasco da Gama, Manáos Sporting Club e Manáos Atlético Club, cuja competição ficou sob a organização da liga Amazonense de Foot Ball. Na segunda divisão participaram as agremiações: Manáos Sporting Club, Auze português, Satélite Foot Ball Club, Vasco da Gama, Atlético Rio Negro Club, Luso Foot Ball Club, naval Foot Ball Club e Nacional Foot Ball Club. O primeiro campeão do Amazonas foi o Manáos Atlético Club, que era formado por atletas de nacionalidade inglesa. Esse mesmo time repetiu o feito no ano seguinte, o que o tornou Bicampeão.
Zamith descreve que: “a prática desse esporte teve início no campo do bosque Municipal, na Avenida Constantino Nery, próximo hoje ao Bosque Club, mais tarde surgiu o campo do Floriano Peixoto, na Cachoeirinha”, posteriormente, o Parque Amazonense.

Em busca de conforto aos associados, a diretoria resolveu transferir outra vez a sede social do clube, dessa vez para a rua Marechal Deodoro, nº 6. Este local foi um marco muito importante na história da agremiação. Foi naquela época que surgiram os momentos principais da atividade social e cultural, como os importantes bailes de Carnaval, que marcaram uma época de ouro.
A sede do clube, em espaço maior, primava por uma ornamentação belíssima, produzida por grandes artistas que militavam no clube. Nasceu assim um marco no Carnaval do Luso, o baile “Viva o Zé Pereira”, (o qual tratava-se de um boneco enorme vestido de traje lusitanos, de enorme bigode), que puxava os grandes bailes carnavalescos, conduzindo na rua, ou na sede, sócios e simpatizantes.
Naquela época, o Carnaval de rua já se fazia presente, cuja principal artéria era a avenida Eduardo Ribeiro – entre as ruas Municipal, hoje Sete de Setembro, e a Dez de Julho – mais tarde prosseguindo até a frente do Ideal Clube. Dois coretos armados, um deles defronte da sede do centenário Jornal do Commercio e o outro quase chegando na rua Henrique Martins, defronte do antigo Café da Paz, mantinham os foliões eletrizados ao som de marchinhas populares.
O presidente Virgílio M. Goulart transformou a nova sede em algo mais atraente para a sociedade lusitana. Nos finais de tardes, era ponto de encontro regado a chás e biscoitos, e quase sempre embalado ao som de orquestra de pau e corda que executava músicas para o deleite de todos, entremeados por valsas. Esse ambiente promovia assim um novo momento na história do clube, nascendo a escola de dança para sócios e simpatizantes.
Embora seus fundadores promovessem a prática do futebol, falava mais forte o sentimento de cultura trazida da Europa. O que aderiram ao viés de promover uma sociedade não somente para a prática do esporte, mas que atendesse toda a camada social lusitana residente em Manaus, e com isso abria-se a conquista de novos sócios. Conforme consta na Ata do Clube, “no dia 30 de abril de 1917, em solenidade de gala para a colônia portuguesa no Amazonas, inaugura-se a Escola de Dança”.
Esse acontecimento social fez eco na cidade de Manaus, uma vez que pela primeira vez o clube abria suas portas para receber grande número de sócios, simpatizantes e convidados, para dança de salão. A escola de dança marcou época, de tal sorte que inúmeros casais buscavam esses momentos para encontros com belas jovens portuguesas; e muitos casaram-se nesse ambiente social que tinha a arte de ensinar, e também de aproximar pessoas.
O Luso Foot Ball Club, com suas múltiplas atividades administrativas, esportivas, sociais e cívicas, caminhou até 1917, como os outros clubes que já haviam sido constituídos naquele período, com nomes que personalizavam a escrita em inglês, (talvez pela forte presença da colônia inglesa, ou talvez pela razão do futebol ter sido criado na Inglaterra).
Mesmo depois de haver transcorrido cinco anos de sua fundação, os administradores dessa agremiação – aqueles pioneiros da fundação, agora também acompanhados de outros sócios que abraçaram a administração do Club – tomaram em reunião da diretoria, e mais tarde, da assembleia geral, a decisão de mudar o nome.
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Rodrigues (senhores). Fonte: Jornal O Luso, ano 4, edição especial.
O Luso Foot Ball Club, passou a se chamar Luso Sporting Club, por vontade de seus dirigentes e também pela prática variada de esportes (não somente mais o futebol), bem como as festas promovidas por este clube, e o corpo cênico que mais tarde surgiria na associação.
Naquele mesmo ano, segundo o que consta também na Ata, o corpo cênico do Luso Sporting Club nasceu em 1917, como resultado da produção coletiva, alimentada pela vontade de fazer teatro; dando vida a inúmeros personagens que levaram a efeito, no palco, ao som de voz e de luzes, em preto-e-branco, ou em cores, sob o olhar das plateias.
Todo aquele cenário alimentava a época da juventude dos imigrantes lusos, todos possuidores de uma história individual, trazida com eles de Portugal. Após a criação da escola de dança, o clube começou a inserir, no seu contexto cultural, outras atividades, e o teatro tomou forma como uma montagem que produzia cenários, iluminação e figurinos.
Destaca Vale e Azancoth:
Entre tantos nomes que deram vida ao teatro do Luso destacamos: Arminda Dias, Rossiclé Gomes Brasil, Lola Rodrigues, Ida da Silva Rollo, Augusto Reis, Antônio Aurélio de Figueiredo, Lídia Pontes, Nice Oliveira Solano, Graziela Pontes, Tereza Matos, Miriam, Tarcila Coutinho, Rosália Castanheira, Maria de Lourdes Lima, Manuelina Carvalho, Antonio Nogueira de Sá, José Campos, Fernando Maravilhas.
Era a edificação da arte dramática, pois, vivenciaram o mesmo tom da emoção da arte de representar, e pisar no solo, onde eram representadas as grandes peças: o Teatro Amazonas. Foi nele onde germinaram tantas óperas, e peças trazidas dos países estrangeiros, como consta na Ata do Clube:
Foi assim no dia 1º de dezembro de 1917, com a presença do cônsul de Portugal, autoridade do Governo do Estado e a presença da colônia portuguesa, o corpo Cênico do Luso Sporting Club se apresenta no Teatro Amazonas, cuja renda foi destinada à Cruz Vermelha Brasileira em benefício dos flagelados da guerra.





Segundo os autores, em meio a toda essa trajetória teatral produzida pelo Luso, também ainda havia espaço para a caridade, onde o dinheiro arrecadado em algumas apresentações, eram direcionados às vítimas da guerra. Para o Luso, o futebol, o carnaval, e o teatro foram fundamentais pois, dentro dessa diversidade, os lusos mostravam, e ao mesmo tempo estabeleciam um pouco da cultura Lusitana em Manaus; fortalecendo seus laços, o que resultava do próprio processo de vivência coletiva trazida de seu país de origem.
Para Barth, um grupo étnico não se define por seu estofo cultural (que se modifica no tempo e varia de acordo com ajustamentos ecológicos), mas através de critérios pelos quais ele mesmo estabelece as suas fronteiras (critério de pertencimento e exclusão), e pela tentativa de normatização da interação entre os membros do grupo e as pessoas de fora. Nesta concepção, a homogeneidade cultural é uma resultante de um processo de criação coletiva e a constituição de um sujeito coletivo, fator determinante no estabelecimento de um grupo étnico.
Em Grupos Étnicos e suas Fronteiras, Barth objetiva entender a constituição dos grupos étnicos e os mecanismos de manutenção de suas fronteiras, chamando atenção para as características empíricas que as constituem. Segundo ele, o isolamento geográfico não pode ser representado como um fator decisivo para a existência da diversidade cultural, posto que as fronteiras – definidas nas situações de interação – persistem, apesar do fluxo de pessoas que as cruzam constantemente e que, portanto, segundo Barth: as distinções de categorias étnicas não dependem da ausência de mobilidade para existirem.
O estudo sobre etnicidade passa da pesquisa de grupos fechados às propriedades de um processo social. A etnicidade relaciona-se, então, com os processos sociais de exclusão ou incorporação de elementos propiciadores de significados simbólicos (uma identidade), tanto a nível coletivo como individual. Em sua definição: os grupos étnicos são categorias de atribuição e identificação realizados pelos próprios atores sociais, e assim, têm a característica de organizar a interação entre as pessoas.

Assim, para se concentrar no que o autor considera relevante, os grupos étnicos devem ser vistos como uma forma de organização social, cujo aspecto fundamental seria a já clássica característica da atribuição étnica, identidade étnica categorizada por si mesmo e pelos outros, um tipo de organização baseada na autoatribuição dos indivíduos à categorias étnicas. Embora Barth destaque que as categorias étnicas tomam em consideração as diferenças culturais, acentua que as características que são levadas em consideração não são a soma das diferenças “objetivas”, mas somente aquelas que os atores consideram significantes. Daí a importância de se trabalhar com os dados empíricos, as representações coletivas.
A etnicidade consegue, então, assegurar uma unidade grupal, visto que possui caráter organizacional. A organização social, por sua vez, encontra-se ligada aos processos de identificação étnica, e estes (processos de identificação) não derivam da psicologia dos indivíduos (não são por si só conscientes ou inconscientes), mas da constituição de espaços de visibilidade e das formas de interação com o “mundo externo”.

Nos espaços de interação, os atributos culturais adquirem expressividade (podendo ser altamente seletivos ou estereotipados), não meramente como revelador de uma realidade subjetiva ou inefável, mas como uma seleção, reivindicação pública que necessita ser validada neste contato. A análise de Barth nos ajuda a pensar os membros dos grupos étnicos não como meros estrategistas motivados unicamente pela realização de seus interesses, ou como atores criando e recriando ao sabor das situações de interação manipuláveis. Pois, o autor busca mostrar como a etnicidade pode ser acionada para a compreensão do processo de interação social, extremamente importante na construção de atribuições e autoatribuições. A explicitação de pressupostos teóricos mostra-se como um caminho viável para quem trabalha em contextos que envolvem emigrantes estrangeiros.
Deste modo, seguindo a trilha de Barth, penso que baseados na identidade coletiva, os emigrantes portugueses que aqui viviam, buscaram na construção do Luso Sporting Club, não apenas um meio para seu lazer ou diversão, tão pouco este clube serviria apenas como um meio para embelezamento de seus corpos. É claro, que nesse bojo estavam introduzidos seus valores étnicos, fazendo da prática desportiva trazida de Portugal, um meio de manter aqui sua cultura, e reforçar, provavelmente, os laços comunitários.
Pois o grande passo para a consolidação de um clube português em Manaus naquele período, não estava baseado apenas em proporcionar uma atividade esportiva que trouxesse benefícios físicos para o corpo, objetivados na ideia da beleza, que estava ligada à cultura do corpo; muito embora ela fizesse parte do contexto social. Porém, havia também uma vontade de reforçar os laços comunitários lusitanos em Manaus.
Percebemos essa busca por uma maior aproximação entre a comu-nidade de portugueses e descendentes que aqui viviam, devido o Luso Sporting Club diversificar suas atividades esportivas e culturais, pois além da criação de um teatro no interior do próprio clube, exibia peças trazidas de Portugal, ou escritas por seus descendentes, aqui mesmo em Manaus.
Essas peças, como a “Pátria”, que expressava o amor de um português pela sua nação e que, mesmo longe de sua amada terra, ainda a mantinha dentro de seu coração. É notório devido tal fator, que tais dramas apresentados eram direcionados especialmente ao público luso-descendente.
Segundo Selda Vale:
Em 1917, o teatro do Luso apresentava autos de Natal e as famosas pastorinhas, além de realizar, no Teatro Amazonas e no Teatro Alcazar, festas de arte pelas vítimas da guerra. Em 1918, é fundada uma escola primária, “João de Deus” fonte de onde provinham quase todos os atores.

Segundo a autora, o teatro formado pelo luso também tinha como compromisso, a caridade aos necessitados que sofriam naquele momento, como vítimas da guerra. “As pastorinhas” foi uma peça teatral que expressava também uma forte religiosidade dos imigrantes luso-descendentes. Ainda, segundo a autora, “As Pastorinhas”, antes apresentadas nos bairros, em tablados armados nas ruas, subiam ao palco do clube português Luso Sporting Club com uma montagem que envolvia cenários, iluminação, figurinos mais bem cuidados e cenas devidamente ensaiadas.
Observando a Ata do clube, da rua para o palco foi apenas uma figura de retórica, pois as pastorinhas de rua (Cachoeirinha, São Raimundo e Aparecida) continuaram até aproximadamente a década de 70. Entretanto, é essa brincadeira das pastorinhas de rua que serve de inspiração para a criação, no palco, do espetáculo de “A Grande Pastoral”.
Afirma Selda Vale que:
Ao subir à Ribalda, as pastorinhas perderam muito daquela espontaneidade de criação coletiva, quase religiosa, que envolvia famílias, donas da brincadeira que envolvia e aproximava toda a comunidade portuguesa em Manaus.

“As Pastorinhas”, ou “Autos de Natal”, do Luso, naquele período, segundo o que expõe a autora, tomava conta do sentimento da cidade. Não havia quase uma só família que não levasse suas crianças para assistirem. O anúncio das pastorinhas era feito pelas próprias personagens que desfilavam pela cidade de Manaus em cima de um velho caminhão, todo enfeitado, como se fosse um palco. Assim se anunciava à comunidade luso-descendente em Manaus, o Teatro do Luso, que além desse espetáculo natalino, marcou sua presença no teatro amazonense com um extenso respeito que incluía dramas, comédias e até mesmo a montagem de Deus lhe pague.
Outras peças também foram apresentadas no Teatro do Luso como, “O Ciúme do Mascarado”, que além de entreter o público, tinha ainda o objetivo de divulgar os bailes de Carnaval promovidos, não só pelo Luso. A peça cômica, contava a história de uma família, onde a esposa saía de casa escondida do marido para um baile de Carnaval no próprio clube. Porém, o marido já estava escondido dela naquele mesmo baile, e foi necessário ele colocar uma máscara para observar o que fazia sua esposa, e ele nunca deixava que outro homem se aproximasse dela. Por isso o nome “O Ciúme do Mascarado”.
Mas naquele período não foi apenas o teatro que servia para informar e aproximar a comunidade portuguesa em Manaus. Em 1924, logo após o Luso construir seu teatro – trazendo tanto as encenações de Portugal, quanto as produzidas em nossa própria cidade para seu palco – a comissão organizada dos festejos de Mi-Carême lança o Jornal do Luso, que também se propôs a divulgar todas as atividades sociais do clube.
Segundo a Ata, o pequeno jornal tinha o compromisso de cumprir o papel de divulgador, e era um órgão da mocidade lusitana que se traduzia em informações voltadas para todos aqueles que viviam em Manaus, mas que tinham seus corações voltados para Portugal. Fazia parte de suas informações, notícias alegres, e ainda as que mostravam a aventura dos portugueses e seus empreendimentos no estado do Amazonas, bem como, política, músicas, poesias, enfim, tudo que acontecia em Portugal terra e que estava ligado às suas origens.
A diretoria do Clube buscava transmitir as informações dos fatos da época destacando o Carnaval, (de colombinas, pierrôs, que sabiam festejar galhardamente a estadia do Rei Momo). Assim, o pequeno jornal “O Luso”, circulou por muito tempo na busca e publicação das mais variadas notícias da vida do Luso Sporting Club.
Segundo a Ata do clube:
Na décima primeira sessão ordinária do Luso Sporting Club, realizada aos dezoito dias do mês de junho, ainda sob a presidência de Virgílio
M. Goulart, o diretor João Maria Adrião, primeiro secretário, propõe à mesa diretora a criação de uma escola de instrução primária, sendo sua proposta aceita por unanimidade e aprovada na mesma ocasião.

Dessa forma, surgiu a Escola João de Deus, onde a princípio era mantida financeiramente por alguns fundadores e sócios do Luso, dentre eles: João Maria Adrião, Madeira Diniz, Alberto R. de Andrade, João Mendes, Manoel da Costa Santos, José da Costa Novo e Cezar Augusto de Magalhães, como consta na ata de reuniões.

Aqueles lusitanos que se aglutinaram para fundar o Luso Sporting Club, também tinham a preocupação de criar um movimento que ficasse de forma duradoura na memória dos que perdurassem para testemunhar. Na verdade, esses portugueses patriotas além da preocupação com o esporte, também cuidaram da formação intelectual de seus descendentes. Pois, aquela escola atendia somente os filhos dos diretores e sócios da comunidade Luso em Manaus.
Embora todos esses eventos culturais, como o teatro e o carnaval, tenham dado um pouco de sua contribuição para destacar a sociedade portuguesa no Amazonas, através do Luso Sporting Club, a prática dos esportes não ficou relegada ao segundo plano. Pelo contrário, o esporte continuava sendo o principal destaque no Clube.


Segundo destaca Anjos:
O Luso Sporting Club com sua riqueza cultural, social e esportiva marcava também sua história com uma das mais importantes modalidades de esporte na época praticado em Manaus. Uma das maiores emoções dos amazonenses, até o final dos anos trinta, eram as chegadas de navios do Lloyd Brasileiro e da Booth Line, com os seus Linrs, Boniface, Hilary, Anselm, Hildebrand, Policarp e os da Amazon River, confortáveis vaticanos, além de gaiolas e chatinhas, cuja chegada normalmente no amanhecer ou final de tarde eram recepcionados pelos remadores ao largo.
A importância do Luso Sporting Club

Assim, o Luso escreveu sua história no remo, construída num mural de conquistas às margens do Rio Negro. Tempos depois, o Luso desfaz essa modalidade esportiva e os homens que promoviam o esporte resolveram criar outro clube exclusivamente para o remo: O grêmio Náutico Portugal, criado em 1939.
Assim, na Manaus de outrora, os portugueses e descendentes que assim viveram, conseguiram manter suas culturas através da fundação de um clube. Escreveram sua história através de seus ideais culturais, trazidos de sua pátria. São alguns ângulos de um passado memorável, panorama que se altera nas fases de expansão da sociedade luso-brasileira no Amazonas. Imigrantes que em fases distintas de nosso passado, não muito remoto, pisaram as nossas terras e banharam o rosto nas águas negras do nosso rio. O Carnaval do Luso hoje é mais que uma pálida lembrança de cultura nas gerações atuais. São marcas indestrutíveis de um Carnaval de uma geração, de um tempo marcado na história dos imigrantes portugueses no Amazonas.
Dentro do que pudemos perceber, a comunidade portuguesa instalada em Manaus, teve, sem dúvida, seus laços reforçados, através das atividades promovidas pelo clube que trazia como bandeira sua cultura. Pois, ainda nos dias de hoje, os remanescentes dessa sociedade fundadora do Luso Sporting Club se reúnem para rememorar suas lembranças.

Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
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