Sem políticas públicas efetivas de proteção e sob o abandono institucional, comunicadores e jornalistas que investigam crimes ambientais e conflitos agrários na Amazônia enfrentam uma escalada da violência que vai da ameaça física ao assédio judicial. O jornalismo independente na região mais perigosa para a imprensa no Brasil vê a busca pela informação se transformar em um risco de morte. E o profissional da imprensa se tornou um alvo a ser silenciado.
Rio Branco (AC) – Filha de jornalista, criada entre as margens do Rio Madeira, em Rondônia, e pautas sobre ocupação da Amazônia no fim da ditadura militar, a fotógrafa e pesquisadora Ana Mendes moldou seu caminho documentando povos indígenas, conflitos territoriais e violências no campo. A infância em Porto Velho (RO), acompanhando a mãe em reportagens e convivendo com famílias ribeirinhas e indígenas, virou um compromisso afetivo, técnico e político ao lado de comunidades ameaçadas por grilagem, disputas fundiárias e ataques armados.
Ainda estudante de Ciências Sociais, trabalhou como assistente do fotógrafo João Roberto Ripper. Percorreu comunidades tradicionais, aprendeu metodologias de fotografia compartilhada e transformou a câmera em ferramenta de escuta e denúncia. Ripper ensinou à jovem comunicadora que era preciso saber contar a história dos lugares para fugir dos estereótipos sobre as populações periféricas e tradicionais, uma lição que carrega até hoje.
A violência física e psicológica cruzou a trajetória de Ana Mendes em 2017, no Maranhão, durante as retomadas territoriais do povo indígena Akroá-Gamella. Em meio a um severo conflito agrário, indígenas sofreram um ataque de funcionários de fazendas locais. Dois deles tiveram as mãos dilaceradas a golpes de facão. A jovem fotógrafa fazia registros de imagem no território. “Eu estava vivendo aquilo também como testemunha ocular daquela violência enorme”, lembra.
Ana Mendes fotografou e relatou a violência no Maranhão, estado que lidera ameaças e assassinatos de mulheres defensoras da floresta. Foto da pesquisa “Quem é pra ser já nasce”, contemplado pela Funarte, no 17 Premio Marc Ferrez de Fotografia.
Era impossível que seu trabalho documental não expusesse a violência sofrida pelos Akroá-Gamella e por outros povos indígenas em disputa por suas terras originárias a partir de então. Em 2019, após receber um prêmio de fotografia por um ensaio sobre os Akroá-Gamella e o povo Guarani Kaiowá, Ana participou de uma entrevista ao vivo em uma afiliada da Rede Globo no Maranhão. Ela cobrou as autoridades sobre a conclusão do inquérito policial que investigava o ataque sofrido pelos indígenas. A reação do poder local foi imediata.
“No dia seguinte tinha um carro parado na frente da minha casa”, relembra. “Na hora eu entendi: ‘é pra mim’.” A vigilância ostensiva durou semanas. Os veículos estacionados mudaram constantemente e as placas eram alternadas, mas a sensação de monitoramento permanecia. Um amigo jornalista rastreou e constatou que se tratavam de placas frias, inexistentes nos órgãos oficiais de trânsito.
Atuando como freelancer, sem vínculo empregatício com veículos de comunicação e trabalhando de forma voluntária junto ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Ana Mendes enfrentou o cerco sozinha, sem suporte econômico ou amparo institucional. Ela relata que, naquele período de perseguição, sequer conseguia nomear a violência que sofria. “Eu não sabia se era intimidação, ameaça, perseguição. Eu não sabia nem como explicar aquilo.”
Essa vulnerabilidade é vivida na pele por profissionais da imprensa. A precarização do trabalho e a desregulamentação da profissão têm ampliado os riscos enfrentados por freelancers e jornalistas autônomos. Embora existam garantias legais para a liberdade de imprensa na Constituição, elas falham de forma sistemática em assegurar proteção a quem atua em áreas isoladas ou de conflito. Na Amazônia, o problema é ainda mais grave.
Da ameaça ao silêncio
Homenagem ao comunicador Leandro Cocalinho, que faleceu em 2025, em Parnarama, Maranhão. Ao lado do túmulo, a fotógrafa Ana Mendes segura uma faixa com os dizeres: “Homenagem póstuma dos amigos comunicadores”. (Foto: Ana Mendes – autorretrato).
A fotógrafa Ana Mendes, na sua vez de buscar amparo nas estruturas do Estado, se deparou com um vácuo institucional. Ela afirma que só compreendeu o funcionamento do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, o PPDDH, anos após ter sofrido perseguições. O modelo federal, instituído em outubro de 2004 sob o primeiro mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e atualizado após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Philips, em junho de 2022, não foi estruturado para atender às especificidades da rotina jornalística. “Eu não entendia nem como funcionava o programa de defensores. Hoje já sei como funciona e ele funciona mal”, critica Ana.
Embora continue pesquisando a violência e registrando imagens, Ana decidiu alterar sua forma de atuação. O doutorado em Artes na Universidade Federal do Pará tornou-se um espaço de refúgio acadêmico e de elaboração do trauma vivido. Sua pesquisa investiga os impactos psíquicos das ameaças que incidem sobre mulheres comunicadoras e defensoras de território na Amazônia — e ela própria é uma delas.
A invisibilidade do risco
Fonte: RSF/Abraji
Quem informa a Amazônia
Raça e gênero dos comunicadores e jornalistas da região
Homens cisgênero são maioria, mas mulheres cisgênero representam proporção expressiva. Identidades trans, não-binárias e outras têm participação reduzida.
Negro/Pardo(a)41,1%
Branco(a)33,9%
Negro/Preto(a)12,5%
Indígena10,7%
Amarelo(a)0,9%
Multiétnico0,9%
Homem Cisgênero50,9%
Mulher Cisgênera43,9%
Mulher Trans1,8%
Travesti1,8%
Homem Trans0,9%
Não-binário / Outro0,7%
Dados coletados por questionário com comunicadores da Amazônia (autodeclaração). Amostra: 60 respostas — 56 válidas para raça/cor e 57 para gênero. Fonte: Abraji/RSF
O perigo na Amazônia muitas vezes opera de forma sutil, enraizado nas estruturas sociais e na conivência de agentes locais. É o que relata Irene, nome fictício adotado para preservar a segurança de uma jornalista com mais de 30 anos de experiência profissional na Amazônia, sendo duas décadas dedicadas à cobertura de direitos humanos, conflitos territoriais, ameaças a povos indígenas e crise climática na região. No início dos anos 2000, ela já direcionava seu trabalho para as periferias e os aldeamentos indígenas urbanosem crescimento nas cidades amazônicas.
No início de sua trajetória em redações tradicionais, as pautas sobre o avanço da soja, o desmatamento ilegal e os crimes no campo eram destinadas exclusivamente aos repórteres homens, sob o pretexto de que a floresta era perigosa demais para as mulheres. Irene enfrentou essa barreira e passou a ocupar o espaço das coberturas de campo, onde aprendeu que o risco na região é uma percepção tardia.
“Teve um político que a gente ia fazer coletiva com ele, e quando ele não gostava de uma pergunta, sobretudo de uma mulher, ele pegava assim no nosso queixo. Tipo: ‘Por que você tá fazendo essa pergunta?’. Mas com ironia. Ele não faria isso com um homem. É uma tentativa de nos desestabilizar emocionalmente, de minar sua confiança. Existem várias formas de intimidação”, relembra.
O medo mais concreto veio em São Gabriel da Cachoeira, no extremo norte do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, onde ela e um colega investigavam um esquema complexo de aliciamento, abuso e exploração sexual de meninas indígenas por parte de ricos comerciantes brancos locais. Numa cidade onde os principais hotéis pertenciam aos próprios investigados, a equipe optou por se alojar em uma base do Exército e adotou a versão de que eram pesquisadores universitários. Não adiantou.
“Durante a apuração, um carro ficou seguindo a gente o tempo todo. Mesmo com todo o cuidado em adotarmos uma circulação mais discreta, fomos identificados de alguma forma… A cidade é pequena, imagino que estavam nos observando, que havia olheiro. Mas o episódio mais assustador ocorreu quando a gente estava almoçando e, na nossa frente, sentou um dos acusados, que já era réu. Ele ficou me olhando fixamente, me intimidando, acho que me reconheceu por alguma imagem minha no Google. Eu fiquei com medo real naquele dia”, lembra Irene.
O protocolo foi fazer um comunicado sobre o episódio de intimidação em uma representação da Polícia Federal localizada em São Gabriel da Cachoeira. “Era apenas um escritório da PF, não era uma delegacia. Possivelmente não iria dar em nada, ou alguma investigação, mas vimos a necessidade de fazer um registro para o caso de acontecer algo conosco. Pensei: ‘Se me matarem, a polícia pelo menos já sabe quem são os suspeitos’. Foi a maneira emergencial que eu e meu colega pensamos em nos defender naquele momento.”
A violência não ficou só no campo. Há dois anos, a casa de Irene foi invadida durante sua ausência: levaram equipamentos eletrônicos, impressora, notebook, entre outros objetivos de valor. Reviraram gavetas e papéis. Ela não sabe até hoje se foi um assalto comum ou alguma retaliação às suas investigações sobre projetos econômicos que ameaçam a floresta e os povos amazônicos. Isso porque uma investigação pessoal revelou que a logística do crime foi sofisticada e bem executada; isto lhe deixou intrigada.
Irene decidiu se mudar, de maneira emergencial, usando seus próprios recursos pessoais. Ela relatou sobre o episódio apenas a pessoas próximas e alguns amigos. Posteriormente, recebeu apoio de instituições de proteção a jornalistas, entre elas a Rede de Proteção Vladimir Herzog e a Repórteres sem Fronteiras, incluindo suporte financeiro. Ela também conseguiu apoio de um fundo de proteção a defendores ambientais na Amazônia para equipar a nova residência com sistema de vigilância. “Tenho consciência que vivo e trabalho em um contexto de permanente risco. Mas neste ambiente de risco, não podemos dar chance às ameaças se concretizarem.”
A jornalista conta que nunca tomou conhecimento sobre um pretenso programa de proteção a jornalistas na esfera pública federal. E, se existir, realmente, ela diz que é um programa incompatível com a realidade dos profissionais, sobretudo os que atuam em um ambiente de ameaça. “Ameaças não são apenas físicas, como alguém que quer te agredir ou até matar durante o processo investigativo. As ameaças são de inúmeras naturezas. Assédios judiciais são ameaças extremamente graves, por exemplo, sobretudo quando a intenção é não apenas nos censurar, mas nos impactar mentalmente e minar nossa capacidade de sustentabilidade”.
A proteção estatal e a realidade
A violência crescente contra jornalistas (2017-26)
Número de casos registrados por ano
Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), 2026. Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania
A desconexão entre as ferramentas de proteção estatal e a realidade do jornalismo de campo é reiterada por Beatriz Barbosa, coordenadora de incidência no escritório para a América Latina da organização Repórteres sem Fronteiras. “Hoje, o programa [PPDDH] apresenta uma contradição grave: até mesmo quem está sob proteção continua em situação de risco”, afirma. Segundo ela, muitos profissionais ameaçados sequer entram no programa, porque parte deles não conhece a política de proteção, enquanto outras não confiam que o programa seja capaz de garantir medidas efetivas de segurança. “Em muitos casos, a própria dinâmica do programa não se adapta à rotina de vida e trabalho de jornalistas e comunicadores ameaçados.”
O problema é que o programa cria um descompasso entre a urgência das ameaças e a lentidão das respostas institucionais. A execução financeira é descentralizada para os Estados, cujas estruturas de segurança e direitos humanos são precarizadas e desprovidas de recursos para perícias digitais ou escoltas eficazes. A eficácia do Programa de Proteção a Defensores Ambientais e Comunicadores depende do reconhecimento desses profissionais para além de vínculos formais. Em territórios isolados ou sob vigilância, exigir provas documentais das ameaças cria uma barreira desigual, que pode excluir os perfis mais vulneráveis e sem meios de registrar o risco que enfrentam.
Essa carência de uma legislação federal consolidada e específica para a proteção da imprensa contrasta com o histórico de litígios internacionais do Estado brasileiro. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil no caso Vladimir Herzog, apontando a omissão estatal na investigação e punição dos responsáveis pela tortura e morte do jornalista pelo regime militar. A sentença determinou que crimes contra profissionais da imprensa geram um efeito inibidor coletivo sobre toda a sociedade e exigiu a adoção de medidas estruturais de não repetição, diretriz que permanece sem tradução em leis federais eficazes.
Nos últimos anos, o repertório de hostilidade contra a imprensa na Amazônia expandiu-se significativamente, inclusive por parte das estruturas de poder de governos da região, cuja postura política reflete ideologia de direita, com defesa de grandes projetos econômicos na região e de ameaça à floresta, como garimpo, mineração e expansão da flonteira do agronegócio.
Às ameaças físicas, somou-se o uso estratégico do aparato do Poder Judiciário como instrumento de censura e desgaste econômico, prática conhecida internacionalmente pelo acrônimo SLAPP (ações judiciais estratégicas contra a participação pública). O assédio judicial consiste no acionamento em massa de processos cíveis e criminais por parte de agentes públicos e grandes empresários com o objetivo de estrangular financeiramente jornalistas independentes e veículos de pequeno porte.
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em nota, afirma que acompanha a tramitação do Projeto de Lei 5020/2019, que busca impedir o uso abusivo do sistema judicial como mecanismo de censura indireta (SLAPP). Os relatórios anuais da entidade registraram cerca de 1,4 mil casos de violência contra jornalistas entre 2019 e 2022, período de maior radicalização política no País. A federação alerta ainda para uma subnotificação expressiva no interior da Amazônia, onde o medo, o isolamento e a ausência de mecanismos de proteção dificultam denúncias, o que significa que os números conhecidos são, provavelmente, a parte visível de um problema maior.
“Em muitas regiões amazônicas, o jornalismo investigativo passou a confrontar diretamente redes criminosas envolvidas em mineração ilegal, grilagem, exploração madeireira, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes ambientais. Em diversos casos, essas atividades possuem conexões políticas, econômicas e institucionais que ampliam os riscos para profissionais locais”, adiciona a nota.
A condição de fragilidade dos jornalistas amazônicos
Jornalista investigativo Adriano Wilkson (Fotos: Arquivo Pessoal e Reprodução do Instagram).
O jornalista Adriano Wilkson experimentou o impacto desse tipo de perseguição na Amazônia após iniciar uma trajetória profissional autônoma em seu Estado natal, o Pará. Com trajetória em redações de veículos tradicionais por mais de uma década, Wilkson passou a atuar de forma independente, recebendo denúncias socioambientais e contra políticas locais. Publicava os resultados das investigações em uma página no Instagram,onde acumula um público de aproximadamente 97,8 mil pessoas. Em janeiro deste ano, ele recebeu sua primeira notificação judicial, movida pelo prefeito de Belém, após publicar uma reportagem sobre a aprovação a toque de caixa de um pacote de mais de 15 leis pela Câmara Municipal na última sessão legislativa de 2025.
Em decorrência da liminar obtida no processo, a empresa de tecnologia Meta suspendeu o perfil profissional do jornalista no Instagram, sem considerar o contexto de assédio judicial e cerceamento de imprensa. A derrubada da página eliminou o canal diário de trabalho e o histórico de publicações do repórter. Ele relata que a prática é comum no interior do Pará, onde profissionais abandonam a cobertura investigativa por temor de sanções judiciais e financeiras.
No Brasil, o monitor de assédio judicial registrou que só em 2025, já foram registradas 784 ações na intenção de intimidar e silenciar jornalistas. “Você faz uma matéria que incomoda o político, o empresário, e ele tem o poder de fechar suas portas. De fazer você nunca mais trabalhar em nenhum veículo”, desabafa Wilkson.
Hoje residindo na região Sudeste, o jornalista paraense aponta que seria impossível enfrentar a disputa jurídica de forma isolada. Sua defesa técnica é custeada por uma articulação de organizações da sociedade civil que monitoram violações à liberdade de expressão, incluindo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e o Instituto Vladimir Herzog. O suporte jurídico assegura a continuidade do trabalho, mas Wilkson ainda precisa arcar com taxas e custas processuais para interpor recursos. O financiamento de sua atividade depende de contribuições voluntárias e pontuais do público via transferências bancárias, um modelo instável que está longe de cobrir as despesas de manutenção de longo prazo.
A interiorização da violência
As principais fontes de ameaças à imprensa na Amazônia
Por quem e como comunicadores e jornalistas da região são ameaçados
Conflitos fundiários, exploração ilegal e pressão econômica sobre territórios e comunidades.
Abuso de autoridade, intimidações e retaliações a denúncias e investigações.
Conflitos envolvendo exploração mineral ilegal e impactos socioambientais.
Organizações criminosas
Grupos ligados ao tráfico, garimpo ilegal, desmatamento e crimes ambientais.
Pressões judiciais e intimidações relacionadas a reportagens e denúncias.
Pressões, ameaças e perseguições ligadas à fiscalização de ações políticas.
Ameaças diversas
Ameaças digitais, morais ou pessoais — difamações, assédio, perseguições e violência psicológica.
Dados com base em questionário aplicado a comunicadores da Amazônia. Fonte: Abraji / RSF / Instituto Vladimir Herzog
Dados consolidados pelo Programa de Proteção Legal para Jornalistas e Comunicadores do Instituto Vladimir Herzog evidenciam uma mudança metodológica na repressão à imprensa na Amazônia Legal. Entre 2017 e 2025, a instituição registrou 54 casos de violações graves na região. Desse total, 30 episódios correspondem a ações de assédio na esfera judicial, superando as ocorrências de violência física, agressões verbais ou ataques cibernéticos.O documento do Instituto Vladimir Herzog identifica o caso do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, assassinados em junho de 2022 no Vale do Javari enquanto apuravam redes de pesca e caça ilegal ligadas ao narcotráfico transfronteiriço, como um ponto de virada para expor como o crime organizado e a omissão estatal degradaram a liberdade de imprensa. Entre 2013 e 2023, foram registrados 230 casos de violência, motivados por investigações sobre garimpo ilegal, desmatamento e narcotráfico. A expansão do crime organizado, fato denunciado pela Amazônia Real pelo menos desde 2021, aprofunda esse risco à medida que redes criminosas ampliam o controle sobre territórios amazônicos. Assim, investigar seus vínculos com o poder econômico e político se torna mais perigoso para quem faz jornalismo na floresta.
E a impunidade histórica que impulsiona a violência na região dificulta que a Amazônia dê um passo adiante. Quatro anos após o duplo homicídio de Bruno Pereira e Dom Phillips, o caso permanece sem uma conclusão judicial. Redes da sociedade civil e comissões internacionais ligadas à Organização dos Estados Americanos mantêm grupos de trabalho permanentes para pressionar o Estado brasileiro pela responsabilização integral dos mandantes e executores.
Giuliano Galli, responsável pelo acompanhamento de comunicadores ameaçados no Instituto Vladimir Herzog, aponta que a maioria das vítimas atua em municípios de pequeno e médio porte, onde o mercado de comunicação é dependente de verbas publicitárias governamentais ou controlado por conglomerados ligados a oligarquias políticas. A vulnerabilidade financeira do repórter autônomo opera, nesse cenário, como um elemento de silenciamento. Diante da falta de garantias, novos profissionais abandonam ou nem tentam o jornalismo investigativo. “Grande parte dos jornalistas ameaçados no Brasil trabalha de forma autônoma, sem vínculo empregatício e sem acesso a estruturas básicas de proteção”, afirma.
A sociedade civil supre emergencialmente o que o Estado não cobre. “Hoje, muitas vezes, a resposta só aparece depois que a violência já aconteceu”, diz Galli. Para ele, a segurança da imprensa na Amazônia depende de mecanismos estatais de financiamento público para veículos independentes, garantindo que o exercício da profissão não resulte na exclusão econômica do trabalhador. Ao contrário da magistratura, que opera com garantias e esquemas de segurança regulados por lei, os jornalistas enfrentam territórios de conflito sem qualquer salvaguarda institucional equivalente.
O Estado que não conta
Homenagem a Dom e Bruno no local onde foram assassinados no rio Itacoaí, nas proximidades da TI Vale do Javari , no Amazonas (Foto: Univaja).
A fragilidade do monitoramento público é confirmada pela ausência de estatísticas oficiais consolidadas. Por meio de pedidos com base na Lei de Acesso à Informação, o Ministério da Justiça e Segurança Pública declarou à reportagem a inexistência de dados consolidados sobre o orçamento específico destinado a políticas públicas, ações institucionais ou programas de proteção voltados para jornalistas e comunicadores na Amazônia entre 2015 e 2025. O órgão classificou a demanda como informação inexistente após consultar suas secretarias internas.
Em outra requisição de dados administrativos sobre o perfil dos atendidos pelo PPDDH, a pasta informou que o programa oficial não utiliza o critério de área de atuação profissional ou militância para categorizar os casos ativos. O ministério informou que, em dez anos, apenas 15 pessoas assistidas pela política pública declararam exercer a atividade de jornalista ou comunicador. O governo justifica o baixo índice de adesão formal pela natureza transversal da atividade na região, argumentando que muitos profissionais atuam também como lideranças comunitárias, defensores de direitos humanos ou ativistas socioambientais, sendo inscritos no programa sob essas categorias genéricas.
O Ministério da Justiça argumenta ainda que, após a repercussão dos crimes no Vale do Javari, estruturou uma agenda própria voltada para a categoria. A pasta cita a criação do Observatório da Violência contra Jornalistas, instituído pela Portaria número 306 de 2023, voltado para o monitoramento de ocorrências e recepção de denúncias pela plataforma oficial Fala.Br. Também aponta o lançamento do Protocolo Nacional de Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores, editado em 7 de abril de 2026 por meio da Portaria número 1.202.
O normativo de 2026 estabelece parâmetros para que as polícias civis e federais considerem a linha de investigação ligada à atividade profissional desde o registro inicial da ocorrência. Contudo, organizações de direitos humanos apontam que o protocolo possui caráter recomendatório e não vinculante. Isso significa que Estados podem não adotar ou adotar as diretrizes.
A disputa geopolítica pela informação
Sobrevoo em região amazônica mostram focos de incêndios em fazendas de gado, e novas áreas de desmatamento (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace/setembro 2025).
Para a advogada Maria Teresa Tranjan, coordenadora do programa de proteção e participação democrática da Artigo 19 para o Brasil e a América do Sul, o episódio de 2022 na região próxima à Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, representou o ápice de um processo sistemático de desmonte orçamentário e desestruturação das agências federais de fiscalização ambiental e proteção indígena. O isolamento geográfico dos territórios e a proximidade de setores econômicos vinculados à agropecuária, à extração madeireira e ao garimpo ilegal com agentes públicos municipais e estaduais impedem a circulação que denúncias de interesse público sejam publicadas.
“O próprio presidente da República (Jair Bolsonaro) da época chegou a fazer falas que criminalizavam e estigmatizavam Dom e Bruno”, lembra Maria Tranjan.
Em 2020, o Brasil ocupou a 8ª posição no Índice Global de Impunidade do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), entrando pelo décimo ano consecutivo na lista de países onde assassinatos de jornalistas permanecem sem punição. No ano seguinte, aRepórteres sem Fronteiras contabilizou 331 ataques verbais e institucionais contra a imprensa promovidos pelo chamado “sistema Bolsonaro” apenas em um semestre. No mesmo período, o Brasil caía quatro posições no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da organização, passando da 107ª para a 111ª colocação entre 180 países analisados e entrando pela primeira vez na chamada “zona vermelha”, considerada uma situação “difícil” para o exercício do jornalismo.
“Quando a gente olha para a crise climática e para os conflitos socioambientais, a gente está falando de batalhas pelo acesso à informação”, afirma Maria Tranjan. Ela explica que muitos jornalistas, comunicadores populares e defensores de direitos humanos atuam em áreas onde informações de interesse público não conseguem alcançar repercussão nacional, seja pela distância geográfica, seja pelas estruturas locais de poder que dificultam o acesso à informação.
A violência na Amazônia opera de maneira sistêmica e coletiva, incidindo não apenas sobre indivíduos isolados. “São territórios atravessados por ameaças contínuas e coletivas, muitas vezes são comunidades inteiras, coletivos de comunicação e redes locais de informação”, finaliza Maria Tranjan. O diagnóstico das organizações indica que medidas emergenciais do Estado estão defasadas em relação à complexidade das organizações criminosas e das milícias rurais que disputam o controle da terra e dos recursos naturais.
Para a fotógrafa Ana Mendes, a pergunta já não é sobre proteção institucional. É sobre se ainda faz sentido voltar. Depois de duas décadas documentando povos indígenas, conflitos e violências na Amazônia, ela pesquisa hoje os traumas de outras mulheres comunicadoras, e carrega o seu próprio. “Talvez eu nunca volte a trabalhar da maneira como trabalhava”, disse. Enquanto o Estado debate protocolos e portarias, a frase dita por quem sobreviveu resume o custo real do silêncio imposto à imprensa na floresta.
Registro da seca no ano de 2024 que afetou o Lago do Puraquequara um dos principais acessos das populações ribeirinhas próximo a Manaus (Foto: Juliana Pesqueira / Amazônia Real/ 2024)
* Esta reportagem foi produzida com o apoio da Repórteres Sem Fronteiras(RSF), no âmbito do projeto “Defending Voices Brazil”, financiado pelo programa de Desenvolvimento do Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha (BMZ).
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