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A corrida maluca do financiamento climático

A corrida maluca do financiamento climático

Desenhos animados sempre foram uma das formas de manifestação afetiva de muitas gerações. Muita gente deve lembrar do desenho animado Corrida Maluca, criada pelo estúdio Hanna-Barbera em 1968, mas muito popular até, pelo menos, a década de 1980.

Com personagens excêntricos e peculiares, como Penélope Charmosa e Dick Vigarista, a série colocava competidores numa disputa sem regras, repleta de sabotagens, desvios e estratégias contraditórias, satirizando a competição extrema, a sociedade individualista, a cultura do consumo e a busca incessante pelo sucesso. O fato é que, após 34 episódios, nunca houve um vencedor.

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Um dos grandes desafios do mundo hoje é o financiamento às iniciativas de mitigação, adaptação e resiliência frente aos desafios das mudanças climáticas que, segundo António Guterres, secretário-geral da ONU, “estão levando nosso planeta à beira do abismo” – e, como na antiga série, a corrida segue sem rumo e sem vencedor à vista.

Segundo o relatório Estado das Finanças para a Natureza 2026, do Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (PNUMA), para cada dólar investido na natureza, outros 30 financiam sua destruição. No total, US$ 7,3 trilhões, o equivalente a 7% do PIB global, em fluxos financeiros dos setores público e privado têm impacto negativo direto na natureza. No Brasil, segundo o Instituto de Estudos Socioeconômicos, em 2024, os incentivos à indústria de combustíveis fósseis somaram R$ 47,06 bilhões para petróleo, gás e carvão, enquanto R$ 18,65 bilhões beneficiaram fontes renováveis.

São dados que assombram, especialmente quando o mundo dialoga e se desdobra para fortalecer o multilateralismo, o fluxo de investimentos privados e da filantropia para soluções baseadas na natureza. Estamos em plena corrida maluca. Afinal, enquanto um lado busca soluções que refletirão no futuro e no bem-estar da humanidade, do outro há recursos e incentivos de sobra à sua destruição.

Para dimensionar o desafio, basta somar as principais metas globais de financiamento: US$ 1,3 trilhão anuais para o financiamento climático, discutidos na COP 30; US$ 200 bilhões para a biodiversidade, definidos na COP 15; e US$ 4 trilhões anuais para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, no âmbito do Compromisso de Sevilha. O total fica em US$ 5,5 trilhões – ainda abaixo dos US$ 7,3 trilhões que financiam a destruição do planeta. Adicionalmente, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais atingiram US$ 2,718 trilhões em 2024, o maior nível já registrado pelo instituto e o maior aumento anual desde o fim da Guerra Fria, impulsionados pelas guerras na Ucrânia e em Gaza.

No Brasil, especialmente na Mata Atlântica, não é diferente. O bioma mais devastado do país, lar de 145 milhões de brasileiros, segue com seu paradoxo particular. É o que aponta estudo realizado em 2025 pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD). Entre 1993 e 2022, 4,9 milhões de hectares entraram em processo de regeneração – área maior que a do estado do Rio de Janeiro e equivalente a 16% da cobertura florestal atual do bioma. Desse total, em 3,8 milhões de hectares, ou 78%, as florestas permanecem de pé, na chamada recuperação persistente. Por outro lado, 1,1 milhão de hectares, ou 22%, voltaram a ser desmatados, caracterizando a recuperação efêmera. Um lado corre para recuperar e outro segue a desmatar.

Consequentemente, nos últimos anos, temos testemunhado no Brasil um aumento exponencial dos eventos extremos. Desde 1990, como aponta levantamento da Brazilian Ocean Literacy Alliance, houve aumento de 460% no número de desastres relacionados às mudanças climáticas, como enchentes e secas severas.

Nesta corrida maluca contra o tempo, estamos acelerando na direção contrária. Precisamos escalar o investimento na natureza e, sobretudo, realocar o fluxo negativo para que não fiquemos dando voltas e voltas. A verdade é que, até o momento, ninguém está ganhando.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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