Manaus (AM) – Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos, já havia sobrevivido uma vez. Em 2018, depois de uma discussão com um fazendeiro invasor da Gleba Recreio de Santo Antônio, no estado do Amazonas, ele e outros trabalhadores foram à delegacia prestar depoimento. Na volta, pistoleiros esperavam. Josias foi baleado e ficou sete meses internado. Mesmo assim, não desistiu da terra. No último sábado (25), pistoleiros voltaram a esperá-lo, desta vez numa ponte de madeira. Desta vez, três pessoas foram assassinadas, inclusive ele.
Com Josias, morreram seu sobrinho Arthur Henrique Ferreira Said, de apenas 14 anos, e o trabalhador rural Antônio Renato, de 32 anos. Os três se dirigiam do Projeto de Assentamento (PA) Monte, na zona rural entre os municípios de Lábrea e Boca do Acre, no sul do Amazonas, quando dois pistoleiros abriram fogo com fuzil e pistolas contra a caminhonete em que viajavam. Com os tiros, o motorista perdeu o controle do veículo e despencou num igarapé. Um outro passageiro conseguiu sobreviver ao atentado e correu até uma casa próxima para pedir socorro. Os corpos e o veículo foram encontrados submersos.
Esta é uma história que se repete desde 2018, com diferentes vítimas, na mesma estrada, pelos mesmos motivos. Localizadada nas proximidades da BR-317 (uma extensa rodovia que passa por Rondônia, sul do Amazonas e atravessa o Acre até a fronteira), a Gleba Recreio de Santo Antônio é marcada há anos por conflitos agrários, sem solução apresentada pelo poder público.
“Essa BR-317 cheira a sangue que é derramado nas encostas da estrada”, denunciou Manuel do Carmo da Silva Campos, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Amazonas. Para ele, o que opera na região não é um violência desorganizada, difusa: “Em Boca do Acre tem uma quadrilha de bandidos comandada e formada por grileiros de terra”.
A emboscada

Munições de fuzis e pistolas de alta potência foram encontrados no local. Massacre ocorreu na região conhecida como Amacro, que concentra muita tensão e crimes ligados à disputa por terra (Foto1) e Igarapé onde os corpos foram encontrados (Foto2) (Reproduções de vídeo).
Um familiar das vítimas concedeu entrevista à Amazônia Real, sob a condição de anonimato, em razão das ameaças e perseguições que pode sofrer. Segundo ele, as vítimas deixavam a propriedade de Josias na linha 15 do PA Monte por volta do meio-dia quando foram atacadas. Antônio Renato e outro trabalhador, cuja identidade também não será revelada por medida de segurança, seguiam de carona no mesmo veículo, com destino ao município de Boca do Acre, divisa com o estado do Acre. Cerca de 20 quilômetros depois, caíram na emboscada armada na cabeceira da ponte da Gleba Pauene.
Dois suspeitos foram localizados e presos nas proximidades da BR-317, no ramal do quilômetro 26, em menos de duas horas. Com eles, foram apreendidos um fuzil, duas pistolas, munições, celulares e uma motocicleta. Os suspeitos estão presos na Delegacia Geral de Boca do Acre à disposição da Justiça. Seus nomes não foram divulgados pelas autoridades.
Ainda de acordo com a fonte, os executores teriam confessado o crime e indicado a existência de mandantes: fazendeiros e empresários ligados à política, oriundos de Minas Gerais, que atuam pressionando e ameaçando pequenos produtores da região.
“É uma família de políticos e empresários que vieram para Boca do Acre invadir as terras. Eles expulsam os moradores, agem com grande violência. E, como são poderosos, eles se aproveitam para prejudicar os pequenos agricultores. Eles mandam matar, torturar, várias barbaridades aqui na região e a polícia não faz nada”, disse a fonte. Os trabalhadores rurais querem que a Polícia Federal passe a investigar o caso para responsabilizar também os mandantes. “Os assassinos foram presos e confessaram os nomes dos mandantes. Por que os mandantes não estão presos?”, questiona o familiar.
Falta de titulação

A Gleba Recreio do Santo Antônio é uma área de terras públicas da União que sofre com grilagem e ocupação por grandes fazendas de gado há décadas. Nos anos 1980, o Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra) arrecadou uma parcela da terra e a destinou como assentamento, nascendo assim o PA Monte. As outras parcelas ainda aguardam destinação, e é nelas que se concentra a violência.
“Dentro dessa gleba tem grandes produtores pleiteando tomar uma fatia maior. Não tem cadastro no Incra desde a década de 1980 e até hoje não foi criado outro assentamento a não ser o PA Monte. Então, eles [fazendeiros que grilaram a área] entram. Os ‘grandes’ entram do jeito que querem. Eles têm condições de botar máquina, de fazer pista de avião, de fazer tudo. Eles tem tudo isso e chegam primeiro. Os extrativistas tradicionais, os seringueiros, são expulsos por eles”, disse Cosme Capistrano, agente pastoral da CPT no Acre.
À Amazônia Real, João Pedro Gonçalves, diretor de Governança da Terra do Incra, explicou que a gleba é composta por duas porções: uma com aproximadamente 18 mil hectares, quase totalmente ocupada por parcelas registradas no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef); e outra com cerca de 98 mil hectares, que apresenta ocupações, mas tem sobreposição de unidades de conservação e está sobreposta a áreas de interesse do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e da Funai, com estudos em andamento para a possível criação de novas unidades de conservação. No total, o sul do Amazonas concentra cerca de 12,7 milhões de hectares de terras públicas.
Gonçalves reconheceu que a situação fundiária é complexa, marcada por disputas e grilagem (prática considerada crime), e afirmou que a estratégia do órgão para reduzir conflitos passa pela regularização, com concessão de títulos definitivos. “Nós não abrimos mão de combater a grilagem de terras. E aquilo ali é terra pública, invadir terra pública é crime. Ninguém pode estar em terra pública sem abrir um procedimento no Incra”, declarou. O Incra já dialoga com 12 prefeituras para tentar regularizar essas terras públicas.
Procurada, a assessoria de comunicação do Incra informou que não existem títulos emitidos pelo órgão na área da Gleba Recreio de Santo Antônio, mas que “trabalha no processo de regularização das glebas federais na região”. Na semana passada, segundo o Incra, houve um encontro no município de Humaitá, também no sul do Amazonas, para tratar do tema junto a organizações sociais, órgãos governamentais e produtores rurais.
“Os ocupantes da Gleba pleiteiam a criação de um assentamento da reforma agrária, na modalidade PA. A Divisão de Obtenção de Terras do Incra no Amazonas enviou a demanda à Câmara de Destinação de Terras e mantém conversa prévia com o MMA. Após o período chuvoso na Amazônia, o Incra projeta a entrada na área, sempre reforçando a sua disposição em mediar o diálogo saudável entre os órgãos e a sociedade para soluções em que a coletividade seja contemplada da maneira mais adequada”, afirma em nota.
O Incra firmou ainda uma parceria com o MMA por meio do programa União com Municípios, com recursos do Fundo Amazônia, para promover a regularização fundiária e a entrega de títulos em glebas públicas.
Conflitos fundiários


Em Canutama, policiais fizeram buscas aos desaparecidos, em 2017 (Foto 1: PC do Amazonas) e Marinalva Silva de Souza, na foto com o marido (Foto 2: Arquivo de Família).
Os registros de conflitos de campo envolvem casos de ameaças, violência e assassinatos. Estão associados à intensificação da grilagem, expansão de fronteiras agrícolas e desmatamento. Em meio a estes conflitos está uma estrutura econômica criminosa, que conta com apoio ou facilitação de estruturas de poder. Em geral, as maiores vítimas são pequenos agricultores que lutam por direito à terra. Os casos de assassinatos são frequentes e muitos deles sequer vêm a público.
Em 2017, três agricultores foram emboscados e desapareceram na região do município de Canutama. Flávio Lima de Souza, Marinalva Silva de Souza e Jairo Feitoza Pereira desapareceram em dezembro daquele ano sem deixar vestígios. O caso teve repercussão e foi citado no relatório da Global Witness.
Em 2019, quatro agricultores foram assassinados na região do município de Lábrea, também em circunstância de conflito agrário.
Os conflitos fundiários na Gleba Recreio do Santo Antônio são registrados pela CPT no relatório Conflitos no Campo desde 2018. A região faz parte da região conhecida como Amacro, formada por 32 municípios entre o sul do Amazonas, leste do Acre e noroeste de Rondônia. É ali o epicentro da expansão violenta do agronegócio sobre terras públicas e comunitárias.
O triplo homicídio ocorreu às vésperas do lançamento do novo relatório Conflitos no Campo Brasil, com dados de 2025. A CPT registrou 1.593 conflitos no campo no Brasil no ano passado, sendo 116 deles registrados em 19 municípios da Amacro. Das 26 mortes violentas registradas no País, 16 aconteceram na Amazônia, sendo 6 delas na Amacro, entre as quais as 3 pessoas sem-terra e 3 posseiros. Os fazendeiros aparecem como os principais agentes envolvidos nos assassinatos registrados em 2025, associados a 20 dos 26 casos, seja como mandantes ou executores. Na Amacro, foram responsáveis por cinco das seis execuções.
Entre as vítimas desses assassinatos na região estava José Jacó Cosotle, de 55 anos, encontrado morto em janeiro de 2025 nos limites da comunidade Marielle Franco e da Fazenda Palotina, em Lábrea (AM), com marcas de tiro no queixo e no abdômen. O local do crime é palco de um violento e intenso conflito agrário no sul do Amazonas.
Também em janeiro de 2025, Francisco do Nascimento de Melo, o Cafu, foi assassinado na área do ramal 37, em Boca do Acre. Em setembro, trabalhadores rurais da Gleba Recreio do Santo Antônio chegaram a bloquear a BR-317 para cobrar respostas do poder público sobre a violência e a falta de regularização fundiária.
Para Manuel do Carmo, as ações dos grileiros não são isoladas, mas planejadas com o aval da omissão do poder público. “A Polícia Federal, o Ministério Público Federal e Estadual estão acompanhando, só que eles são lentos. O massacre foi um dos últimos casos, mas eles vêm fazendo isso desde 2018. Tem latifúndio, madeireiras, produção da soja e criação de boi que esses fazendeiros fazem. Eles matam e perseguem trabalhadores rurais e indígenas sucessivamente”, denunciou.
O que dizem as autoridades

Em nota, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) informou que investiga o caso para esclarecer a motivação do crime, identificar a possível participação de outros envolvidos e verificar eventual existência de mandante. As forças de segurança ressaltaram que, neste momento, não é possível divulgar detalhes adicionais, como identificação dos suspeitos, eventuais vínculos ou confirmação de autoria, a fim de não comprometer o trabalho investigativo.
De acordo com apurações preliminares, o crime teve características de emboscada direcionada a um dos ocupantes do veículo, sem indícios de que as demais vítimas tivessem envolvimento com a motivação do crime. A PC-AM declarou que as instituições mantêm articulação permanente com órgãos competentes e avaliam a adoção de medidas conjuntas, conforme a evolução das investigações.
Procurada, a Polícia Federal no Acre não respondeu se está investigando ou acompanhando o caso.
A CPT Regional Acre publicou nesta quarta-feira (29) uma nota de denúncia pública diante do avanço da violência no sul do Amazonas. Segundo a CPT, o aumento dos crimes no campo está aliado à omissão dos poderes públicos e resulta em mortes, ameaças e violações sistemáticas dos direitos humanos. “A realidade enfrentada pelas populações tradicionais, lideranças comunitárias, trabalhadores e trabalhadoras da terra e defensores do meio ambiente revela um cenário alarmante de insegurança e impunidade. Conflitos por terra, disputas territoriais e interesses econômicos têm sido resolvidos por meio da força, colocando vidas em risco e fragilizando ainda mais comunidades já vulneráveis”, diz a nota.
Abaixo veja o cortejo dos funerais de Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos; Arthur Henrique Ferreira Said, de apenas 14 anos; e do trabalhador rural Antônio Renato, de 32 anos. (Imagens: Reprodução das redes sociais).
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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