Porto Velho (RO) – O retorno da educadora indígena Márcia Mura à Escola Estadual Professor Francisco Desmorest Passos, no distrito de Nazaré, em Porto Velho, representa o desfecho de uma luta marcada por denúncias de racismo institucional, perseguição política e apagamento da memória indígena dentro da educação pública de Rondônia.
Após três anos e seis meses de embates administrativos e resistência, Márcia voltou à escola em 07 de fevereiro de 2025, retomando as atividades com turmas do ensino fundamental e do primeiro ano do ensino médio em mediação tecnológica (formato frequentemente utilizado em regiões remotas como nas comunidades rurais e ribeirinhas de Rondônia, exige adaptação e garante a continuidade do processo de ensino e aprendizagem).
O reencontro com a comunidade foi registrado em vídeo publicado pela educadora nas redes sociais onde na legenda ela descreveu como foi o processo para conseguir retornar.
Conhecida também pelo nome indígena Tanamak, recebido no território Mura Itaparanã por meio do Pandé (pajé), Márcia define sua trajetória como uma caminhada de defesa dos territórios, da memória e da afirmação indígena na Amazônia. Tanamak significa “grande guerreira”.
Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), ela atua em comunidades ribeirinhas no processo de recuperação da memória do povo Mura e de outros povos indígenas, desenvolvendo o que chama de “pedagogia da afirmação indígena”, tanto nas escolas quanto nos espaços comunitários.
A saída da professora de Nazaré ocorreu durante a pandemia de Covid-19. Segundo Márcia, a perseguição começou por causa do trabalho pedagógico voltado à valorização da história e da memória indígena dentro do currículo escolar.
A perseguição à educação indígena
Em entrevista à agência Amazônia Real, a educadora disse que enfrentava resistência de pais de alunos e da equipe pedagógica da escola, que criticavam o fato de ela não seguir exclusivamente o livro didático e desenvolver atividades voltadas às identidades indígenas da região. “Todas as minhas aulas atravessavam a memória indígena e a história do Rio Madeira. Eu fazia o diálogo entre o local e o global. A equipe pedagógica dizia que eu repetia sempre o mesmo assunto e que eu deveria usar apenas o livro didático. Mas eu nunca deixei de usar o livro. O problema era que eu também colocava a realidade do território dentro da sala de aula”, afirma Márcia.
Segundo Márcia, a postura refletia uma visão etnocêntrica da educação.”Infelizmente, tratar da afirmação indígena ainda é algo muito dolorido para muita gente. Alguns pais e professores se incomodavam porque eu propunha que os estudantes conversassem com os mais velhos, recuperassem suas histórias e reconhecessem a presença indígena na comunidade”, diz a educadora indígena.
Os conflitos se intensificaram após a professora descumprir uma orientação da direção escolar e realizar uma apresentação cultural de dança com os estudantes.
“Os alunos ficaram encantados. Alguns nunca tinham visto uma apresentação de balé. Depois escreveram textos sobre a experiência e teve aluno que chorou de emoção. Foi uma atividade que devolveu alegria para eles. Mesmo assim, quando a diretora voltou, fui chamada para receber uma advertência por ter desobedecido uma ordem”, contou.
Outro episódio decisivo ocorreu quando Márcia confrontou a direção da escola ao perceber que uma pintura de uma mulher indígena e crianças, produzida pelo artista Bote Negro, havia sido apagada das paredes da instituição.
Para ela, o ato representava uma “prática etnocida”. “Quando cheguei à escola e vi a pintura da mulher indígena coberta de tinta branca, aquilo me impactou profundamente. Havia tanto espaço na parede para fazer outras pinturas. Por que apagar justamente a imagem de uma mulher indígena com duas crianças? Foi ali que eu disse que aquilo era uma prática etnocida e epistemicida”, disse a indígena Mura com um expressão de dor em sua face e fala.
A situação se agravou ainda mais após uma visita do então governador de Rondônia à região. Durante o encontro, Márcia protestou gritando “Fora Bolsonaro”, episódio que, segundo ela, acelerou sua retirada da escola.
Após ser removida da unidade, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) determinou sua lotação em Porto Velho. Márcia recusou a transferência por não aceitar abandonar Nazaré, onde mantinha casa, roçado e vínculos comunitários construídos ao longo dos anos. “Eu não aceitei sair porque Nazaré não era apenas o meu local de trabalho. Era onde estava minha casa, meu roçado, meu espaço cultural e toda a minha vida construída ao longo dos anos. Eu não podia simplesmente abandonar aquele território”, relembra.
A vitória do processo judicial

A recusa levou à abertura de um processo administrativo por abandono de emprego. Durante cerca de nove meses, a professora permaneceu sem lotação e sem salário enquanto buscava reverter a situação judicialmente. Márcia afirma que a vitória no processo não foi individual, mas coletiva, sustentada pela mobilização de mulheres indígenas, parentes e apoiadores. Ela destaca a atuação da advogada indígena Samara Kokama no acompanhamento jurídico do caso.
“Essa vitória nunca foi só minha. Ela aconteceu porque muitas mulheres indígenas, parentes, amigos e apoiadores caminharam comigo. A atuação da advogada indígena Samara foi fundamental para mostrar que aquilo não era um problema individual, mas uma violência institucional.”
O caso ganhou repercussão nacional após denúncias publicadas pela Amazônia Real e pela Agência Pública, que abordaram as denúncias de racismo institucional e perseguição enfrentadas pela educadora.
Hoje, Márcia afirma viver uma realidade diferente daquela enfrentada antes da remoção. Segundo ela, a atual direção da escola tem apoiado ações afirmativas indígenas e buscado construir um ambiente de reparação.
“Quando voltei, encontrei uma realidade completamente diferente daquela que vivi antes. Hoje existe abertura para dialogar sobre as identidades indígenas e construir ações coletivas.”
O recente Abril Indígena (2026) promovido pela escola, de acordo com a professora, mobilizou estudantes, professores e toda a comunidade escolar em torno da valorização dos povos indígenas, algo que ela considera impensável nos anos anteriores.
“Ver a escola realizar o Abril Indígena, envolvendo estudantes, professores e a comunidade, é uma forma de reparação. Há alguns anos isso seria impensável.”
O retorno de Márcia Mura ao distrito de Nazaré transcende a retomada de um cargo na rede estadual de ensino. Sua volta simboliza permanência, resistência e disputa por memória dentro da educação amazônica.
Em Rondônia, apesar da obrigatoriedade do ensino da história e cultura indígena prevista na Lei 11.645/2008, educadores indígenas ainda denunciam práticas de silenciamento e apagamento cultural nas escolas públicas.
Para Márcia Mura, permanecer em Nazaré nunca significou apenas retornar ao trabalho. Significou reafirmar que os territórios indígenas também existem dentro das comunidades ribeirinhas da Amazônia e que a escola pode ser um espaço de reconstrução da memória, em vez de apagamento. Sua trajetória evidencia que a implementação da Lei 11.645/2008 ainda enfrenta resistências, mas também mostra que a permanência de educadores indígenas nas escolas pode transformar currículos, fortalecer identidades e ampliar o diálogo entre educação e território.
Leia as reportagens desta série:
Barcarena espera por reparação
O cerco aos quilombolas no Vale do Guaporé
Mulheres indígenas são alvos da violência e omissão
População de Manaus sente impactos do super El Niño
Esta reportagem foi produzida com recursos do Prêmio Culturas de Resistência, concedido este ano à agência Amazônia Real por Iara Lee, ativista, cineasta e fundadora/diretora da Rede Culturas de Resistência, para apoiar uma série de cinco trabalhos relacionados aos direitos dos povos tradicionais, justiça social, violação de direitos humanos e meio ambiente.
Republique nossos conteúdos: Os textos, fotografias e vídeos produzidos pela equipe da agência Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional (CC BY ND 4.0), e podem ser republicados na mídia: jornais impressos, revistas, sites, blogs, livros didáticos e de literatura; com o crédito do autor e da agência Amazônia Real. Fotografias cedidas ou produzidas por outros veículos e organizações não atendem a essa licença e precisam de autorização dos autores.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
Ver post do Autor





