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» A crise do Cerrado em revisão: – 4: a crise hidrológica oculta

» A crise do Cerrado em revisão: – 4: a crise hidrológica oculta

Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Gislene Carvalho de Castro, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside


Conhecido como o “caixa d’água” do Brasil, o Cerrado é o berço de oito das doze principais bacias hidrográficas do país [1], incluindo as dos rios Paraguai, Paraná, Tocantins-Araguaia e São Francisco e parte do Amazonas. O Cerrado também abriga três imensos aquíferos, Bambuí, Urucuia e Guarani, que armazenam grandes volumes de água. Suas espécies vegetais de raízes profundas não apenas capturam água de forma eficiente durante a estação seca, mas também criam caminhos para a infiltração da água da chuva durante a estação chuvosa, aumentando a recarga dos aquíferos e mantendo a vazão de base dos rios [2]. Esse delicado equilíbrio entre captação e infiltração de água destaca o papel do Cerrado como um sistema autorregulado, que mantém não apenas seus ecossistemas, mas também os meios de subsistência das comunidades ribeirinhas. No entanto, com a crescente demanda por água e a pressão contínua da agricultura, da energia hidrelétrica e da expansão urbana [3, 4], a proteção da integridade hidrológica do Cerrado deixou de ser uma preocupação regional para se tornar uma prioridade nacional.

De particular preocupação é a deterioração dos ecossistemas de água doce, onde as ameaças mais prementes decorrem de práticas insustentáveis de uso da terra, ligadas ao agronegócio e à construção de barragens hidrelétricas ao longo de rios anteriormente de fluxo livre [3]. O efeito combinado da conversão em larga escala e da fragmentação dos rios perturba o ciclo hidrológico do Cerrado, comprometendo sua capacidade de funcionar como um amortecedor hidrológico [5]. Esses sistemas de água doce fornecem serviços ecossistêmicos cruciais, incluindo purificação da água, regulação do fluxo, manutenção de áreas úmidas e suporte à biodiversidade [6]. Sua degradação altera a qualidade da água, os regimes de fluxo e a disponibilidade em toda a região [1]. Aqui reside o paradoxo: os próprios setores mais dependentes da água do Cerrado — agronegócio e energia — estão acelerando seu esgotamento [4]. Em conjunto, a degradação do habitat e a perturbação hidrológica desencadeiam um profundo desequilíbrio ecológico, ameaçando não só a viabilidade a longo prazo do Cerrado, mas também a economia brasileira em geral.

A expansão agrícola no Cerrado aumentou drasticamente a pressão sobre seus sistemas hidrológicos [4]. Dependentes da irrigação para sustentar a produção de soja e outras commodities durante todo o ano, os agricultores extraem grandes quantidades de água de rios, reservatórios e, cada vez mais, de aquíferos. Embora isso tenha permitido o cultivo de milhões de hectares de terra, também aumentou a vulnerabilidade do Cerrado à seca e aos padrões irregulares de chuvas [4]. Essa dependência tornou-se particularmente evidente durante a severa seca de 2021, a pior no Brasil em quase um século, quando as quebras de safra e a sobrecarga dos sistemas de irrigação evidenciaram a fragilidade dos recursos hídricos existentes [1, 7]. Além disso, o escoamento superficial da agricultura intensiva contribui para a contaminação de rios e aquíferos, comprometendo ainda mais os esforços para equilibrar a produção de alimentos com a conservação dos ecossistemas de água doce [8]. Assim, a dependência de aquíferos tornou-se particularmente problemática.

Esses reservatórios subterrâneos são essenciais não apenas para sustentar ecossistemas de zonas úmidas como as veredas, mas também para manter o fluxo dos rios durante a estação seca em todo o Cerrado. No entanto, a extração excessiva de água para irrigação causou declínios significativos nos níveis dos lençóis freáticos, e o uso generalizado de agrotóxicos aumentou os riscos de contaminação [8]. À medida que esses aquíferos diminuem ou se tornam poluídos, as espécies dependentes de zonas úmidas perdem habitats críticos e as comunidades próximas enfrentam crescente insegurança hídrica. Essa reação em cadeia contribui para o colapso da biodiversidade, mina a resiliência ecológica e compromete a capacidade do Cerrado de resistir a futuros estressores climáticos e hidrológicos.

A infraestrutura hidrelétrica intensificou a crise hídrica [9]. Sob a premissa de expandir a chamada “energia limpa”, grandes barragens hidrelétricas foram construídas nos rios do Cerrado, fragmentando os cursos d’água e alterando os regimes de fluxo natural (ver Tabela 1 e Figura 5A). Além disso, a proliferação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) nas bacias hidrográficas do Cerrado contribui ainda mais para a fragmentação do habitat, a alteração dos regimes de fluxo e os impactos ecológicos locais. Embora os benefícios econômicos da geração de energia sejam reconhecidos, estudos mostram que essas barragens também emitem gases de efeito estufa, aumentam o desmatamento nas áreas circundantes e interrompem a migração de peixes, com consequências sociais e ecológicas subnotificadas [9, 10]. Barragens antigas permanecem operacionais apesar de sua ineficiência, continuando a degradar a biodiversidade fluvial e os serviços ecossistêmicos. Ironicamente, as tentativas de garantir a sustentabilidade energética por meio do aproveitamento dos rios do Ecodomínio estão agora contribuindo para sua degradação ecológica. A proteção dos ecossistemas de água doce no Cerrado exigirá políticas com visão de futuro, incluindo a desativação de barragens obsoletas, uma regulamentação mais rigorosa das práticas de irrigação e a restauração urgente de zonas ripárias degradadas.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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