Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Gislene Carvalho de Castro, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside
O Cerrado é o segundo maior Ecodomínio da América do Sul, depois da Amazônia, com uma área original de aproximadamente 2 milhões de km² (Fig. 1A, ver Quadro 1 e Quadro 2 para definições). A maior parte dessa área está localizada no Brasil, que representa aproximadamente 98% da cobertura total, enquanto pequenas porções se estendem também pela Bolívia e Paraguai. Em território brasileiro, o Cerrado ocupa aproximadamente 23% da superfície nacional [1] (Fig. 1B). Reconhecido como um hotspot global de biodiversidade [2], o Ecodomínio abriga milhares de espécies endêmicas e desempenha um papel crucial na manutenção das principais bacias hidrográficas brasileiras [1]. Apesar de sua enorme importância, o Cerrado vem sofrendo pressões cada vez mais intensas, principalmente devido à expansão urbana e agrícola, incêndios recorrentes, mineração e especulação imobiliária. Estima-se que mais de 55% de sua vegetação nativa já tenha sido destruída, totalizando mais de 1.000.000 km²,convertida em pastagens, monoculturas e áreas urbanas, especialmente nas últimas cinco décadas [3]. Esse processo se intensificou a partir da década de 1980, marcando o início de uma fase acelerada de conversão antrópica. Segundo dados do MapBiomas [4], entre 1985 e 2023, o Cerrado perdeu aproximadamente 380.000 km² de vegetação nativa, o equivalente a 19% de sua cobertura original nesse período (Fig. 2). A devastação concentrou-se especialmente na região do MATOPIBA (que compreende os estados brasileiros do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que se tornou o principal eixo de expansão da fronteira agrícola nacional nos últimos anos, embora outras regiões do Cerrado tenham experimentado taxas de desmatamento mais elevadas em meados da década de 1980 [3].

Com base em dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) [6], a história da devastação no Cerrado revela uma trajetória alarmante de perda de vegetação nativa nas últimas décadas. Desde o início do monitoramento sistemático em 2001, o Cerrado perdeu mais de 326.000 km² decobertura vegetal nativa — uma área equivalente a quase todo o território da Itália (Fig. 3). Entre 2001 e 2012, as taxas anuais de desmatamento variaram de 8.976,17 a 28.766,81 km². Os dois primeiros anos registraram 26.933,02 km² de desmatamento, seguidos por picos de 28.766,81 km² em2003 e 2004. A partir de 2005, houve uma tendência de queda sustentada, com uma redução de 41,27% até 2010: de 16.878,78 km² para 9.910,35 km².Nos dois anos seguintes, 2011 e 2012, o desmatamento atingiu o nível mais baixo da década, com 8.976,17 km². No entanto, a partir de 2019, observou-se uma nova escalada: em 2020, foram desmatados 7.905,16 km²;em 2021, 8.531,44 km²;e em 2022, 10.688,73 km². Em 2023, atingiu-se o pico recente de 11.011,69 km².Somente em 2024 observou-se uma redução de 25,77%, com 8.174,17 km² desmatados, ainda uma das maiores taxas da série histórica. Em 2025, o desmatamento caiu para 7.235,27 km²,representando uma redução de 11,49% em comparação com o ano anterior, sinalizando uma possível desaceleração da devastação (Fig. 3). Embora as taxas anuais de desmatamento tenham diminuído recentemente, é importante lembrar que cada nova área desmatada aumenta o total acumulado da perda ambiental. Isso significa que o Cerrado continua a encolher, ainda que em ritmo mais lento. Portanto, o objetivo ideal seria eliminar completamente o desmatamento.

Esses números indicam que o Cerrado perdeu mais vegetação nativa nos últimos anos do que qualquer outro Ecodomínio brasileiro, incluindo a Amazônia, em termos de área convertida anualmente [6]. Embora o sistema PRODES registre apenas o desmatamento, estudos complementares sugerem que a degradação por fogo, a extração seletiva, a invasão de espécies exóticas e o uso intensivo da terra aumentam significativamente os impactos ambientais [7]. O avanço desse processo compromete não apenas a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos do Ecodomínio, mas também a resiliência climática e hídrica de vastas regiões do país. Esse cenário reforça a urgência de políticas públicas específicas para o Cerrado, com foco em conservação, restauração e uso sustentável da terra. [8]
Notas
[1] Klink CA, Machado RB (2005) Conservation of the Brazilian Cerrado. Conservation Biology 19: 707–713.
[2] Myers N, Mittermeier RA, Mittermeier CG, da Fonseca GAB, Kent J (2000). Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403: 853–858.
[3] Machado RB, Aguiar LM, Bustamante MM (2024). Why is it so easy to undergo devegetation in the Brazilian Cerrado? Perspectives in Ecology and Conservation 22: 209–212.
[4] MapBiomas (2024). Mapeamento anual de cobertura e uso da terra no Brasil de 1985 a 2023.
[5] Dinerstein E, Olson D, Joshi A, Vynne C, Burgess ND, Wikramanayake E, Hahn N, Palminteri S, Hedao P, Noss R, Hansen M, Locke H, Ellis EC, Jones B, Barber CV, Hayes R, Kormos C, Martin V, Crist E, Sechrest W, Price L, Baillie JEM, Weeden D, Suckling K, Davis C, Sizer N, Moore R, Thau D, Birch T, Potapov P, Turubanova S, Tyukavina A, De Souza N, Pintea L, Brito JC, Llewellyn OA, Miller AG, Patzelt A, Ghazanfar SA, Timberlake J, Klöser H, Shennan-Farpón Y, Kindt R, Lillesø J-PB, Van Breugel P, Graudal L, Voge M, Al-Shammari KF, Saleem M (2017). An Ecoregion-Based Approach to Protecting Half the Terrestrial Realm. Bioscience 67: 534–545. https://doi.org/10.1093/biosci/bix014
[6] INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) (2025). PRODES: Annual rates and suppression of native vegetation, in the sections, biomes of Brazil and Legal Amazon.
[7] da Silva Arruda VL, Alencar AAC, de Carvalho Júnior OA, de Figueiredo Ribeiro F, de Arruda FV, Conciani DE, da Silva WV, Shimbo JZ (2024). Assessing four decades of fire behavior dynamics in the Cerrado biome (1985 to 2022). Fire Ecology 20: 64.
[8] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70.
Sobre os autores
Cássio Cardoso Pereira é doutorando em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É mestre em ecologia pela Universidade Federal de São João del-Rei e graduado em Ciências Biológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa. Está ligado ao Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução, da UFMG. Para mais informações, acesse: https://cassiocardosopereira.com
Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.
Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.
Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João Del-Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João Del-Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.
Lucas Arantes-Garcia possui gradução em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.
Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.
Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del-Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.
Gislene Carvalho de Castro possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrado e doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras. Atualmente é.Professora titular da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Atua na área de ecologia vegetal e restauração ecológica de ecossistemas, com ênfase em trabalhos relacionados a corredores ecológicos de valo. Coordena o projeto de extensão ”Restaurar” que objetiva a restauração ecológica de ambientes degradados e atua em projetos relacionados ao Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.
Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
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