A natureza latente em meu universo pessoal cutuca-me insistentemente a mergulhar nos vazios da existencialidade e reencontrar o legítimo Eu da existência.
Os rascunhos em pauta brotam a partir de observações e comprovações referentes ao volume de conflitos, contradições e incoerências à essência pluriversal do real sentido da fala, da comunicação presente no “pó” que somos.
Dentre os anestésicos massificantes, a dita comunicação moderna se transformou em instrumento contraditório à legítima matriz do conceito e se manifesta em artimanha manipuladora constituindo-se em sustentáculo da pirâmide social: com cuspe e jeito analfabetxs/analfabetizadxs são enrabados.
Além das máscaras impositivas trazidas nas falas institucionalizadas, há milhares de códigos inacessíveis e até estranhos à compreensão popular: palavras, siglas e expressões vocabulares pulverizadas nos vários espaços públicos ou privados já não alcançam a compreensão popular ao mesmo tempo em que fecham as portas ao real sentido do diálogo.
Pau da barraca*
Milhares de ecos difusos/confusos, inacessíveis à interpretação retumbam em governanças, sistemas de ensino (escolas, universidades) sistemas de saúde, espaços ditos de cultura robotizando a sociedade e trazendo adoecimentos variados.
Os conflitos à decodificação dos atuais conceitos institucionalizados disparam quando desvalidxs recorrem a direitos públicos, a atendimentos necessários, de urgência e emergência garantidos em leis e não conseguem decifrá-los.
Palavrões mais comuns durante atendimentos públicos: SISREG, UPA, PM, PC, RHC, ACS, CCU, NIC, IMC, SpO2, FR, FC, PSA, ANS, AVC, TDAH, PAC, UBS, TFD, IOS, RA, CNH, CIN, CNIS, CTPS, CAT, CEI, CADPF, CREA, IAM, DM, ITU, SADT, CID-10, RISTJ, RMS e por aí vai…
As citações e referências não param! O caos comunicatório vai além: filas e filas de famílias necessitadas recorrem ao CU na tentativa de que, por distração de comensais, brechinhas se abram e deixem cair migalhas das mesas abarrotadas, sustentadas por aquelas e aqueles que mendigam rejeitos de direitos sociais/populares.
Em verdade, os impactos da fome, seja ela de qualquer natureza, freiam a razão e rompem silêncios. E, assim, somando-se o volume de necessidades básicas fundamentais e os bloqueios comunicatórios a um legítimo e justo atendimento, frequentemente provocam reações conflitantes da parte de quem depende dos respectivos atendimentos, de serviços emergenciais sujeitos às artimanhas institucionais. Longas esperas atiçam a intolerância. O analfabetismo linguístico/social rebela-se a falas estranhas, a regras que violentam comunicações dialógicas. Ouvidos e mentes saem dos trilhos e “o pau da barraca entra em cena”.
Lá vem a Lei 331 do Desacato a Servidor Público, constante no Código Penal brasileiro! A Lei considera delito ‘desrespeitar, humilhar ou ofender funcionários públicos no exercício de suas funções’. Na verdade, a Lei “traz garantia, prestígio e aponta um regular funcionamento da administração pública”.
A partir de percepções problematizadoras, de leituras popular comunitárias, há controvérsias na institucionalização sobre os direitos citados na Lei: se os necessitados por justa atenção são ignorados, desrespeitados nos direitos a um diálogo acolhedor com o sistema, a indignação flui automaticamente.
É o Educador Paulo Freire* quem bate o martelo: “Tenho o direito de ter raiva, de manifestá-la de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga porque, histórico, vivo a História como tempo de possibilidade não de determinação. Se a realidade fosse assim porque estivesse dito que assim teria de ser não haveria sequer por que ter raiva”. (p.78)
Sopros de Sabedoria
Nos anos 2007, células ativistas populares se uniram e semearam em Parintins/Am, a Articulação Parintins Cidadã*. Dentre os apoios, o Médico Amazonense, Menabarreto Segadilha França* (In Memorian), estabelecera profundos diálogos entre comunidades periféricas e Internato Rural de Medicina – UFAM*. Dentre as inúmeras ações realizadas pelo Médico, na cidade de Parintins, o Bairro São Francisco, a oeste da cidade, guarda memórias ímpares.
As Políticas anunciadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) eram o foco de Menabarreto. Num momento certo, organizou uma roda de conversa com moradores do Bairro, priorizando Parteiras, Benzedeiras, Erveirxs, Sacacas, e Puxadorxs de Desmentiduras*. Como estratégia para unir conhecimento técnico, popular/tradicional, ao mesmo tempo, envolver a comunidade, trouxe uma Enfermeira do Sistema para abertura da roda. O pequeno salão do Bairro lotou.
A Enfermeira trouxe informações técnicas recheadas de siglas e conceitos acadêmicos para além do alcance e compreensão do público presente. Olhares entrecruzavam-se denunciando a ausência de compreensão.
Inesperadamente, Comadre Maria, Curandeira das Boas, levanta a mão:
“- Gente, não sei se vocês tão entendendo a fala da doutora. Não estou entendendo nada. Leio muito pouco… O tiquinho que sei vem da minha mãe, das minhas avós, das velhinhas lá da minha infância. Entendo bem a fala das ervas, das árvores, dos bichos, da terra, das águas, do sol, da chuva, do calor, do frio, da lua, das estrelas… Foi esta a minha escola. Dra. a Senhora vai me perdoar, mas vou embora. Não tô entendendo nada!… Também já tenho que ir porque deixei minha bacia cheia de roupa no jirau* e preciso terminá a lavage. A senhora me perdoa!”
Comadre Maria retirou-se. Olhares de insatisfação entre as companheiras presentes somavam, embora sem a mesma coragem e determinação.
Abriu-se um diálogo problematizador sobre o verdadeiro sentido da comunicação, principalmente em se tratando de questões relativas à saúde pública. A Enfermeira desculpou-se, agradeceu a “aula” da Curandeira e prometeu rever a própria fala e voltar numa próxima vez. Menabarreto aproveitou o fio da meada e trouxe um breve histórico sobre a realidade da saúde no Brasil:
“Na vinda da Família Real, saberes de saúde são silenciados e praticantes perseguidos. Cria-se a matriz dos Conselhos de Medicina. A população é forçada a rejeitar a Medicina Popular para fortalecer os Médicos da Família Real. Vem a República e a interferência do Capital Internacional via Multinacionais de Medicamentos e Equipamentos. Sob o mesmo domínio, a alopatia dominou a formação médica e a dos profissionais de saúde impondo o cientificismo, o individualismo, o curativismo, a hospitalização, as residências e a oposição às práticas tradicionais. Estes profissionais são formados, ou deformados, para as demandas do capital industrial de medicamentos e equipamentos, refutando com veemência a Promoção da Saúde e as relações humanas com os elementos da natureza.”.
Os brados libertários lançados por Comadre Maria e Menabarreto atiçam até hoje, em nós, a última centelha de sabedorias ancestrais, quando discursos técnicos e acadêmicos tentam nos silenciar.
Uma coisa puxa outra
Para aprofundar reflexões sobre o que falamos e ouvimos nos diversos espaços e contextos, considero necessário trazer sentidos reais, originários dos conceitos – diálogo e comunicação.
Sigo as pegadas do Educador Paulo Freire, considerando sua íntima, justa e amorosa relação com as bases populares. Nas contribuições do Educador, o conceito diálogo é de origem grega: trata-se de uma troca mútua de idéias e intenções que atendem anseios e necessidades coletivas. Difere de práticas piramidais onde núcleos comandantes institucionalizam propósitos e os anunciam a grupos e a organizações da sociedade civil: em maioria, por ausência de leitura crítica da realidade, aceitam sem quaisquer questionamentos. Vence a maioria e o real sentido do diálogo se perde sob o domínio de autocracismos que transformam povo em massa de manobra.
Diálogo exige comunicação: fala que envolve os comuns e se transforma em ação coletiva; é palavra-realidade, “verbo ou logos”, linguística em movimento perene, interventiva, autônoma, libertadora. Difere de discurso técnico, colonialista, institucionalista.
Uma breve viagem no tempo e na História confirma a liberdade de falares originalmente comunicativos, interventivos e transformadores articulados nas comunidades tradicionais livres de colonialismos.
Em se tratando de Amazônia… Quanta riqueza se perdeu em nossos falares, em nossos hábitos, em nossa cultura!… Quanto silêncio disfarçado sob tecnologias viciantes!…
Por hoje basta! Meus rascunhos não são únicos! São simples provocações à reinvenção de comunicações, de diálogos possíveis e livres de sutilezas dominantes, próprias do democracismo estrutural/estruturante.
Falares de Casa
Malcolm X – Ativista por direitos civis afro-americanos, nos Estados Unidos, década de 1960.
Articulação Parintins Cidadã – Célula organizativa de caráter político-educativo, sem fins lucrativos, construído a partir da necessidade de articular movimentos populares de Parintins/AM, interessados em partilhar objetivos afins. Com esse propósito, oficializou-se aos 07 de abril de 2005, Dia Mundial da Saúde.
FREIRE, Paulo: Pedagogia da Indignação. UNESP. SP. 2000
Jirau – Plataforma de madeira rústica usada nas comunidades tradicionais ribeirinhas em substituição às pias modernas.
Menabarreto Segadilha França – (in memoriam) Médico Amazonense, Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias, pioneiro do Internato Rural de Medicina da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Pau da barraca – Expressão popular da Amazônia caracterizando reação de enfrentamento a situações de injustiça.
Puxadores de desmentiduras – Expressão popular da Amazônia Caboca; massagista.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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