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ToggleQue há uma grande diferença de privilégios entre os gêneros na sociedade, todos já sabemos. O que pouco se discute é a proporção que esta disparidade toma quando se trata de mudanças climáticas: As mulheres em geral sofrem mais com os impactos da crise do clima que os homens. É sobre isso que o geógrafo Bruno Araújo conversa com Isvilaine Silva, assessora de engajamento no Observatório do Clima, e Juliana Coutinho, coordenadora de Comunidades e Ecologia na Visão Coop.
“A minha esperança nas questões climáticas vem de mulheres”, disse Juliana ao falar sobre a forma como as mulheres têm conhecimento e prática para desenvolver tecnologias de combate às mudanças climáticas, com base na ação que fazem dentro de seu próprio território. No entanto, elas não podem estar sozinhas nessa luta, segundo a integrante da VisãoCoop. “Acho que ter esses métodos de sobrevivência, de ter estratégias de sobrevivência para poder utilizar ao seu favor nesses momentos, ajuda você a mobilizar pessoas, ajuda você a conseguir várias coisas, mas que no final das contas isso não vai dar conta, não vai dar conta de um território. O que dá conta do território é a política pública, por isso é importante a gente pensar na perspectiva da adaptação, e para adaptar a gente precisa ter formas e métodos, porque isso não está dado nos territórios”, disse.
Além de falar sobre a importância de reconhecer as mudanças climáticas como uma pauta transversal que afeta de forma diferentes grupos sociais, como mulheres, e territórios, Isvilaine também fala sobre a necessidade de políticas públicas que caminhem lado a lado com as soluções locais. “A gente não pode viver de solidariedade das pessoas, com doações por exemplo. A gente precisa de políticas públicas porque elas são estruturantes, e cuidar delas, porque não importa o governo que passa, se for uma política pública estruturante, ela vai se manter ali para que outras pessoas no futuro possam fazer uso dela”, completou.
A entrevista de Juliana e Isvilaine foi ao ar em outubro do ano passado. Escute o episódio completo do podcast Planeta A:
Confira a entrevista abaixo:
Bruno Araújo: As mudanças climáticas afetam a todas as pessoas. Mas, segundo dados da ONU, 80% das pessoas deslocadas por desastres climáticos são mulheres. O que faz com que as mulheres sejam desproporcionalmente impactadas por esses eventos? Como isso se conecta com as desigualdades que existem na nossa sociedade?
Isvilaine Silva: O porquê mesmo isso que acontece é algo muito básico, mas muito complexo ao mesmo tempo. Porque é a somatória dos fatores sociais. Mulheres sofrem mais, se são mulheres trans, sofrem mais. Então, quanto mais fatores sociais você tem no seu corpo, maior também vai ser o efeito das mudanças climáticas na sua vida.
Juliana Coutinho: O contexto histórico brasileiro foi em cima da base social das questões raciais. As pessoas pretas ainda precisam ser vistas como pessoas. E aí, quando a gente perpassa pelo gênero, a gente acaba atingindo um maior acervo de violência. E é por isso que é essa somatória de todas as faltas de política pública. Porque é o corpo que pode ser vulnerável, é a pessoa que pode passar por violência. Então, a gente ainda luta para sermos vistas como pessoas.
A pobreza extrema atinge de forma desproporcional as mulheres e a vulnerabilidade dela aumenta ainda mais com as mudanças climáticas. Isso que vocês comentaram agora, as mudanças climáticas são uma espécie de potencializador da desigualdade na sociedade em que a gente já vive. Gostaria que vocês falassem agora sobre como essa realidade se manifesta nas comunidades periféricas, onde, muitas vezes, o acesso aos recursos para ser um território resiliente, como se diz muito hoje, é muito limitado. As mulheres são mais impactadas nesses lugares que já são vulnerabilizados.
Isvilaine: O meu contexto é o contexto do interior, venho de uma cidade rural. E é um espaço que as mulheres não são nem donas do próprio território, da terra em que elas vivem. E são mulheres que estão nesses espaços, estão sofrendo violência doméstica, estão sofrendo muitas pressões só por serem mulheres, então esse é um dos fatores que mais é a causa. E são mulheres pretas. A gente está num Brasil onde a maioria da população é formada por mulheres negras e onde essa maioria de mulheres negras não estão no espaço de poder tomando decisões, porque muitas dessas mulheres são pobres, semianalfabetas, então é tudo isso para trás. A gente está lutando por direitos, como a Ju falou, de sermos vistas como seres humanos ainda. Tudo isso vai ficando muito complexo.
E no interior, em todo o Brasil, na verdade, é uma violência de gênero muito grande, é uma violência doméstica muito grande, que as mulheres não têm independência financeira ainda. Não conseguem sair de casa, não conseguem trabalhar, não conseguem sair desse ambiente complexo.
Juliana: Quando a gente acaba entendendo como funciona a construção brasileira, as mulheres nunca estão em tomada de decisão, independente do governo. Quando estão na tomada de decisão, foi por meio de uma luta constante e histórica através de vários movimentos. E isso ainda é muito pouco. A gente consegue entender a dimensão através dessa ausência do poder público dentro dessas esferas, porque eu costumo dizer que a política pública faz um giro, ao invés de ela fazer um giro da margem para as capitais, porque é onde é mais necessário, é onde mais se precisa, a política pública precisa chegar primeiro às margens para depois chegar nas capitais, porque nas capitais já existem políticas, então seria a fomentação delas. Diferente de lugares que não tem. Então para poder fomentar um lugar que já existe política pública é muito mais fácil. Só que quando você só fomenta esse lugar, gera desigualdade em outro, porque no processo capitalista do país, para você poder conseguir desenvolver um território, você precisa estar explorando outro. Então isso acaba afetando diretamente as mulheres, porque para além de serem as mais violentadas, também são as linhas de frente dentro de todo esse processo. Então isso sobrecarrega, isso desumaniza, isso acaba tirando a gente desses lugares mesmo de protagonismo, de tomada de decisão, e a cada vez mais sendo vulnerabilizadas, porque a gente não consegue ainda ser vistas como pessoas.
Isvi, você já foi para quantas COPs?
Isvilaine: Essa do Azerbaijão [COP 29, que ocorreu em novembro de 2024] vai ser a minha quarta COP.
Como é ser brasileira e uma mulher preta nesse espaço?
Isvilaine: Não digo solitário, porque vejo algumas pessoas perto de mim também, mas é muito esvaziado esse espaço. Poderia-se ter muito mais mulheres. Na verdade, eu acho que se a COP fosse dominada por mulheres, a gente não estaria passando o que estamos passando hoje. Seria uma outra visão de mundo, porque quando as políticas públicas são voltadas para mulheres negras, para gente que já está embaixo da sociedade, todo mundo na frente, todo mundo para cima – entre aspas – ganha muito também. E dentro desses espaços de COPs, você vê pouquíssimas mulheres e depois pouquíssimas mulheres negras, pouquíssimas mulheres jovens dentro desses espaços, por não acharem que a gente é o suficiente, que a gente pode estar dentro desse espaço pautando como técnicas, mas com muito conhecimento acumulado pelo que a gente é e das nossas vivências também.
E quanto mais eu vou para a COP, mais eu vejo que hoje as pessoas acham que a COP já não funciona mais. Eu também acredito que a COP não funciona mais, mas eu acho que vem de um lugar também que agora a gente está começando a ir para esses espaços. Há cinco, seis anos atrás, não tinha essa quantidade de gente preta indo para a COP, principalmente mulheres.
Na edição de Glasgow, que foi a primeira COP que eu fui, foi a primeira conferência em que o movimento negro estava lá e foi lançar um projeto sobre racismo ambiental. Então foi a primeira vez que teve uma massa, uma delegação de pessoas negras indo para esse espaço. Antes não era assim. Se você vai para a COP de 2015, onde foi realizado o Acordo de Paris, era completamente diferente o cenário.
Eu estou com um dado aqui que na COP 26 apenas 37% das delegações eram compostas por mulheres e na de 2023 apenas 15 dos 133 líderes mundiais que participaram da COP eram mulheres. Teve um relatório publicado no ano passado chamado Justiça Climática Feminista, um quadro para ação que foi construído pela ONU Mulheres, que aponta que o aumento da temperatura global em 3°C pode levar mais de 158 milhões de mulheres e meninas à pobreza até 2050. Esse número é 16 milhões a mais do que o número esperado e projetado quando olhado para os homens. Além disso, 236 milhões de mulheres e meninas poderão sofrer com a insegurança alimentar. E esse número é 131 milhões a mais do que o número esperado e projetado quando olhado para os homens. Essas estatísticas comprovam o que vocês já estão falando aqui, de quão desproporcional é o impacto das mudanças climáticas sobre as mulheres. Como as desigualdades de gênero, raça e classe se intensificam com o agravamento da crise climática? De que maneira a crise climática potencializa essas opressões que já existem na nossa sociedade?
Juliana: Acredito que em tudo. Porque o racismo ambiental, que é algo que contempla a violência para uma mulher racializada, ela se dá a partir da relação com o território. A vivência no território, os acessos cotidianos. Eu tento trazer sempre essa questão da temática do racismo ambiental para esses impactos.
Porque quando a gente vai mensurar as violências e quando a gente vai mensurar, por exemplo, o abandono paterno, isso interfere diretamente com a questão da soberania alimentar, da segurança alimentar, porque a gente está falando sobre segurança alimentar para mulheres e meninas, que nem cria possibilidade da soberania. Isso é uma das maiores violências, porque a fome é a última instância de política pública. Quando você não tem mais nada, saúde, educação, segurança, mobilidade urbana, você não tem mais nada, você tem a fome. Fica a fome. É a única coisa que resta. E aí, quando você traz esses apontamentos, esses dados, é a prova de que as mulheres que são as que mais combatem a insegurança alimentar em todo o território nacional, internacional também, são as que mais vão ser impactadas.
Então, as mulheres produzem mais alimentos, cuidam mais da terra, têm uma relação melhor com o espaço da terra, e mesmo assim não são donas, mesmo assim não conseguem ter a sua dignidade mantida porque normalmente elas são chefes de família. E isso é a prova, porque como você vai lidar com tantas problemáticas sem o apoio do Estado e sem o apoio de quem constrói o país? Porque não é só o Estado que constrói o país, a gente vive num universo capitalista. E dentro do acervo capitalista, o mercado tem um papel primordial para essas violências.
Como as tríplices desigualdades, que Angela Davis fala do gênero, raça e classe, se intensificam e são agravadas pela crise climática?
Isvilaine: Quanto mais a gente fala de mudanças climáticas, mais eu vejo que a gente está se encaminhando para entender que mudanças climáticas é uma problemática transversal. Ela atravessa nossa vida piorando todas as situações possíveis em que estamos. Se você está pobre, você vai ficar ainda mais pobre, vai sentir ainda mais calor, porque você não tem ar-condicionado na sua casa e você não tem essa grana para investir para comprar um ar-condicionado na sua casa. Mulheres, pessoas que menstruam, vão sentir um desconforto ainda maior, porque está cada vez mais quente. Tudo está piorando, você vai voltar para sua casa, talvez você não vai ter nem mais casa, porque está chovendo, alagou a sua rua. Então é isso, as mudanças climáticas são uma problemática muito transversal na nossa vida e a gente não consegue enxergar isso e vê-las com a importância que deve ser, principalmente a população mais pobre, porque como eu vou pensar em mudanças climáticas sendo que estou passando fome? Não vem nem na minha mente o que é mudanças climáticas, eu não estou nem aí para o que é mudanças climáticas.
Eu vejo ainda muito elitista a questão do clima, mas só que a gente já está deselitizando muito as mudanças climáticas, porque a gente está participando disso, porque você está construindo o seu podcast, porque tem eu, tem a Ju aqui falando sobre clima, e a gente não faz parte desse mundo climático branco idealizado que sempre é. E a gente sabe dessas problemáticas, a gente traz essas minorias no nosso corpo, na nossa família e como elas são. Então a gente vai costurando isso para essas pessoas que não podem fazer essa costura. Por isso que eu acho tão importante essa nossa luta e ter mulheres que estão falando sobre mudanças climáticas nesse espaço, por isso que é importante as políticas públicas.
A gente não pode viver de solidariedade das pessoas, com doações, por exemplo. A gente precisa de políticas públicas porque elas são estruturantes, e cuidar delas, porque não importa o governo que passa, se for uma política pública estruturante, ela vai se manter ali para que outras pessoas no futuro possam fazer uso dela.
Mulheres que estão em situação de rua, quando tem essas questões de mudanças climáticas, o que acontece com elas? Já não tem nada. É preciso ter um abrigo feminino, porque mesmo que todo mundo tenha perdido a sua casa, todo mundo naquele espaço de igualdade, ainda as mulheres são violentadas no espaço de abrigo. Como isso é possível? Não faz o menor sentido mulheres serem assediadas dentro desse espaço.
Então tem que ter abrigo para essas mulheres e daí a gente tem que criar todo esse espaço de segurança que não importa se você está passando por um desastre ou não. Se você é mulher, se você é de sexo feminino, ou você performa feminilidade de alguém, de alguma forma, você vai ser violentada.
A violência de gênero dentro dos abrigos lá no Rio Grande do Sul mostra que não se trata apenas de uma perda material, mas uma questão de segurança e dignidade. Além do abrigo específico para mulheres, quais seriam outras ações dessas, tanto estruturantes ou ações mais emergenciais que o Estado poderia promover para reduzir o risco aos quais essas mulheres estão expostas e para diminuir a violência com o qual o evento climático extremo impacta a vida delas?
Juliana: A justiça climática atravessa tantas pautas que ela não tem como ser vista como uma só pauta. A questão da justiça climática é uma questão humanitária, é uma questão que precisa ser vista como matriz prioritária de tudo o que vai reger futuramente o Brasil e o mundo. Acho que uma das maiores técnicas que as mulheres conseguiram desenvolver foi lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. E a gente acaba tendo formas e métodos de sobrevivência, por isso que majoritariamente dentro dos espaços que as pessoas sofrem os impactos climáticos, quando sofrem por todos esses impactos, as mulheres fazem a coisa, pegam comida pegam a doação, as mulheres estão sofrendo… E falando no lugar de uma pessoa que sofreu o último impacto das chuvas esse ano no Rio, e eu sou uma pessoa que trabalho na ação da cidadania também, então entendo um pouco desse processo de doação e já faço isso desde 2015. Eu vejo o sofrimento das mães ou de uma mulher grávida…Por exemplo, a Franciele, que foi uma pessoa que eu conheci dentro desse processo, ela estava grávida, e aí eu acompanhei o crescimento todo do filho dela através das enchentes. E aí quando você passa por esses processos e você identifica que, por exemplo, eu passei por isso, minha família passou por isso, todas as lideranças da Baixada Fluminense que a gente dá suporte passaram por isso, e quem cuida de quem está cuidando? Para a gente é muito caro o cuidado, porque a gente está cuidando.
Então acho que ter esses métodos de sobrevivência, de ter estratégias de sobrevivência para poder utilizar ao seu favor nesses momentos, ajuda você a mobilizar pessoas, ajuda você a conseguir várias coisas, mas que no final das contas isso não vai dar conta de um território. O que dá conta do território é a política pública, por isso é importante a gente pensar na perspectiva da adaptação, e para adaptar a gente precisa ter formas e métodos, porque isso não está dado nos territórios. A Isvi trouxe isso.
Infelizmente, como que eu vou dialogar com um cara que acorda 4 horas da manhã e chega 10 horas da noite e passa o dia inteiro trabalhando, um mestre de obras? Sabe qual o momento que eu dialogo com ele? Quando ele deixa de ir para o trabalho dele porque alagou. Sabe que horas eu consigo dialogar com a menina adolescente que está indo para a faculdade, que está na correria, que trabalha e faz um monte de coisa? Quando a casa dela alaga. É nos desesperos, porque é isso, a gente sofre, mas a gente não sabe o que está sofrendo, e quando isso se dá na sociedade, a gente pode estar lá para poder apontar.
Isvilaine: E adaptação é algo que tem que vir a partir do governo, porque não é lucrativa, as empresas não vão pegar para fazer porque não tem lucro. Adaptação vai vir para esses locais pobres, porque onde alaga? Periferia. Onde alaga? Interior. Que empresa vai querer botar a mão nisso?
Então, a adaptação tem que ser feita pelo governo, porque não vai ser lucrativa. Eu vejo muita adaptação para locais mais periféricos, que não vai ser lucrativo. Então, a gente tem que cobrar muito o governo nessa parte de adaptação, porque a mitigação dá dinheiro. Já a adaptação não, porque você está adaptando para pessoas pobres, e isso não tem retorno financeiro, isso é governo. As mudanças climáticas já devem estar ligadas às políticas públicas já existentes, como Minha Casa Minha Vida, tudo isso já tem que ser pensado com mudanças climáticas. Como é que eu vou fazer um complexo de casas num lugar que já alaga? Isso não faz muito sentido.
Então, tem que ter um estudo na política pública de Minha Casa Minha Vida, para que entrem mudanças climáticas, que já olham isso de um jeito mais apropriado, assim dizemos. E que mulheres tenham o primeiro direito, quando perderam todas as suas casas, para voltarem, mulheres e crianças terem o primeiro espaço para morarem, já estarem nessa linha de frente. Ju falou muito bem sobre essa questão de saúde mental, as pessoas de Brumadinho, o que acontece com a mente dessas pessoas? Uma vez entrou um pouco de água na minha casa, um pouco, e foi desesperador, todo mundo assim chorando, não sabendo o que fazer, 10 centímetros é muita coisa e eu fiquei desesperada. E lá não é uma casa que geralmente entraria água, mas entrou porque cortaram árvores, o morro caiu atrás e entrou água na minha casa.
Eu fiquei desesperada com o pouco de água que entrou, imagina pessoas que perdem toda sua casa? Veem sua casa sendo varrida, sua família sendo varrida no meio da água. Então, precisamos de políticas públicas voltadas para a saúde mental climática. Pensando em clima, precisamos de profissionais para trabalhar nisso, acho extremamente importante. E denuncia também, o 190 ou lei Maria da Penha, que pense justiça climática também, porque essas mulheres são defensoras do território. Eu conheço várias mulheres que são defensoras do território e que sofrem violência doméstica.
Então, como é que a gente consegue colocar essas mulheres que são defensoras do território para serem apoiadas pela lei Maria da Penha de uma maneira mais transversal e mais fácil também, que não seja prejudicial a elas e principalmente financeiro? A gente precisa de dinheiro para fazer as coisas, a gente vive num mundo capitalista, é grana e mais grana. Então essas mulheres precisam ser apoiadas, mas a grana não está com a gente, a gente precisa dessa grana para apoiar essas mulheres que fazem a base, que estão ali plantando, estão colhendo, estão nos alimentando… Elas que precisam de dinheiro.
Juliana: Tem uma coisa que você trouxe, Isvi, que acho muito importante, que é sobre esse processo de adaptação. Eu tenho medo dos bancos… Eu fui em uma palestra voltada para adaptação e tinha uma galera falando sobre adaptar: “É seguro, vem cá no seguro!” tentando vender aquele acervo que acontece em lugares de desastre, que tem furacão, tsunami, enfim… Só que isso não cola com a gente, como você falou, a gente é pobre, a gente precisa de dinheiro e é isso. Não tem como, por exemplo, acervo capitalista, tudo é contra nós, tudo nos atravessa e eles vão tentar lucrar sempre em cima da gente. Por isso que quando a gente tenta entrar dentro da disputa orçamentária, a galera fica e a gente perde espaço, por quê? Por conta dessas questões. Então isso também é uma luta, sabe? A luta do acesso, a luta do cuidado.
A gente conversou até aqui sobre como a crise climática impacta as mulheres, mas eu queria perguntar agora sobre como as mulheres contribuem para salvar a vida no planeta? De que maneira as mulheres são linha de frente no anúncio desse novo mundo que a gente precisa ajudar e fortalecer?
Juliana: Quando a nossa querida Bell Hooks fala que Mulheres Negras é um movimento, não é à toa. É porque, não só as mulheres negras, mas as mulheres de uma forma geral, dentro do contexto histórico, inclusive para poder trazer um escurecimento para os homens, tá ligado? De troca, de levantamento de perspectiva, eu sei que a gente ainda tem muita luta pela frente… Mas eu acho que as nossas ancestrais demonstraram muito poder para estar aqui.
Eu acredito nisso e eu também acredito nas minhas de agora, não só das minhas ancestrais que já se foram, mas das nossas que ainda estão aí em vida. Pô, a gente vê um acervo de mulheres incríveis, prontas para atacar, sem um pingo de medo, com uma disposição danada.. A gente muda as questões climáticas, porque a relação com o território, quem tem são as mulheres, porque as mulheres, elas são as chefes de família. Porque quando se tem um homem, quando se é casado, ele não sai para trabalhar naquela história que todo mundo conhece? Ah, sai para trabalhar. Quem fica cuidando do território, trabalhando? Porque trabalha, trabalha em casa, trabalha no território, cuida do filho, sai para poder fazer compras, tem que arrumar a casa, lavar a roupa, secar a roupa, fazer comida… E já chegou de novo para fazer café da manhã.
Hoje a gente vê as mulheres bem independentes, de uma forma geral, mas o quanto ainda esse olhar do cuidado interfere dentro dos processos da mudança climática? Porque a gente briga pelo cuidado porque a gente cuida e cuida das questões climáticas. A relação com o território, a recuperação deles, a forma da agroecologia, os movimentos sociais, majoritariamente comandados por mulheres. Quem são as linhas de frente do território, as lideranças, quem toma conta do território e que faz acontecer, são as mulheres, e normalmente são as nossas mais velhas também.
Sabe por que a mãe natureza é a mãe? Não é à toa. Então eu acho que esse acervo do cuidado é a grande coisa de recuperação. Quando a gente fala de regeneração, a gente está falando de um processo de cuidado, de que a gente vai cuidar, vai cultivar, vai fazer acontecer, vai estar ali ajudando, e isso demanda trabalho, esforço, demanda tanta coisa… E que eu consigo enxergar nos olhos de cada mulher que eu encontro por aí, através dessas lutas, que estou no território, que vai lá. Às vezes nunca foi para Brasília, nunca resolveu algo parlamentarista, mas consegue dar conta de um bairro. A minha esperança nas questões climáticas vem de mulheres.
Eu amo você. Você é um homem que eu acho que também vai fazer mudança junto com a gente. Mas eu acredito e a minha esperança vem de mulheres, porque até hoje eu vi mulheres sendo resolutivas. A gente até tem uns caras aí, uns amigos aí, que conseguem dar uma conta do recado de alguma coisinha, mas assim, na prática mesmo, de chegar e perguntar: você tem quantos anos lutando? Eu tenho 30. Eu encontro só mulher assim. Eu tenho 30 anos fazendo isso. Igual a dona irmã Fátima, de Campo Alegre, que tem uma horta comunitária, que ela fez uma zona de amortecimento em volta da horta dela, junto com o corredor ecológico, que impede de ter enchentes em Campo Alegre.
Tem uma pessoa que eu vou chamar de Márcia, que ela é demais. E quem conhece a pessoa já vai saber quem é, né? Ela é sensacional.. Ela conseguiu fazer com que os guardas, os policiais militares do território de onde ela atua, pegassem a van deles de operação, fossem em um lugar de doação para poder buscar as doações e ela fez eles entregarem de casa em casa. Ela colocou os caras que estavam lá, que trabalham com segurança pública, para trabalhar com a segurança alimentar.. Uma liderança é uma mulher. E aí quando você me pergunta assim: Juliana, qual é a esperança?
São essas mulheres que eu me espelho cotidianamente. Então quando eu vejo uma mulher que se empodera da problemática que ela tem e consegue colocar pra frente através de solução, pra mim ela já é uma inspiração.
Isvilaine: O que faz as mulheres serem essas grandes líderes climáticas, é porque elas ensinam e passam pra frente. Eu vejo pouquíssimos homens fazendo isso, sabe? E quando mulheres trazem descendências, elas ensinam os filhos e os filhos passam a lutar também. A Angela Davis, pra mim, é isso. A Neidinha Suruí também. Eu sou extremamente fã delas. E ao trabalhar com elas, elas também ensinam você, mesmo eu não sendo filha delas, elas falam: Vem aqui, o que você acha disso? Vamos fazer isso? E é lindíssimo ver o movimento que elas fazem no mundo, como elas se movimentam e como elas fazem as filhas delas se movimentarem. E daí o bairro delas se movimentam, quando vê já estão numa instituição. E assim, vão crescendo cada vez mais. Porque a gente só consegue fazer o que a gente está fazendo hoje porque alguém já fez lá atrás. E foram elas, não foram eles. Foram elas.
Sônia Guajajara tem uma frase, que diz que a luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutas. E acho que Ju comentou um pouco sobre isso na última pergunta. E agora, pra encerrar, queria que vocês dessem recomendações. Pode ser de leitura, filme, música, exposição, artista… Pode ser de uma mulher incrível que vocês queiram recomendar pra quem tá nos ouvindo também.
Isvilaine: Eu vou recomendar, na verdade, um infográfico do Observatório do Clima, que é um infográfico de gênero e clima. Não estava naquela época no Observatório do Clima, mas é um infográfico que fala justamente isso. Por que gênero e clima? E ali você consegue ler todas as problemáticas, traz mulheres trans, mulheres indígenas, mulheres negras, mulheres quilombolas.É só procurar por “Infográfico de gênero e clima” que vai aparecer. Porque ele é um grande sucesso.
Agora, eu tô lendo um livro, que é o livro do Claudio Angelo, chamado “O Silêncio da Motosserra”. E é um livro que ele conta sobre o período da Amazônia que diminuiu o desmatamento da Amazônia. É um livro extremamente interessante. Ele trabalha comigo no Observatório do Clima..
Juliana: Eu queria indicar dois livros que são sensacionais. O primeiro é Mestre das Periferias, volume 1 e 2. Por que Mestre das Periferias? Primeiro porque é um livro fácil, gostoso de ler. É uma conversação entre Nego Bispo, Conceição Evaristo, Ailton Krenak e a família de Marielle Franco.Trazem apontamentos de várias perspectivas.
Fala sobre relação com o território, fala sobre a roça, fala sobre a floresta, fala sobre a água. Fala sobre literatura, fala sobre os processos negros da história… Então acho que isso interfere diretamente sobre a pauta que a gente está trazendo hoje. E que também tem uma pegada muito gostosa, assim, eu particularmente amo. E também tem o “Quem precisa de justiça climática no Brasil“. Que faz pauta sobre esse processo da interseccionalidade. Traz isso de uma forma muito palatável. De fácil leitura. E eu gosto de livros que são mais fáceis de ler também.
Isvilaine: Ah, então deixa eu indicar também outro livro, organizado pela Mariana Belmont, chamado “Racismo Ambiental“. Só pra indicar um livro de mulher, não só de homem.
Vou recomendar então uma artista chamada Kaê Guajajara, que lançou um álbum novo. É uma mistura de pop, funk e música ancestral. Então está muito maneiro. Recomendo muito. Agora, esse é o único episódio que o editor vai dar uma recomendação.
Matheus: Queria indicar “Parábola do Semeador”, da Octavia Butler. É uma ficção científica distópica sobre uma mulher preta que precisa perambular como uma refugiada climática pelo interior dos EUA e tem que viver na pele as condições dela, que combinam muito com o episódio.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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