Mídia digital nativa lidera inovação no jornalismo

Mídia digital nativa lidera inovação no jornalismo
Por Amazonia Real

Pesquisa internacional da SembraMedia, da qual a Amazônia Real faz parte, aponta que os ataques contra jornalistas são um dos desafios, mas revela ainda descobertas na direção das novas mídias (Ilustração: SembraMedia)

São Paulo (SP) – A pesquisa Ponto de Inflexão Internacional, realizada pela organização espanhola Sembra Média, entrevistou neste ano 201 líderes de organizações de mídias digitais em 12 países da América Latina, do Sudeste Asiático e da África. O estudo aponta que os empreendimentos enfrentam muitas dificuldades, notadamente os ataques online à violência física. Mas também mostra que houve um aumento de mulheres dirigindo startups e a inclusão nas coberturas de histórias negligenciadas por outros veículos.

No Brasil, foram pesquisados 25 líderes de mídias digitais, entre eles a jornalista Kátia Brasil, editora executiva da agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real, que pela segunda vez fez parte do estudo da SembraMedia. Cinco anos atrás, o relatório anterior mostrou como os jornalistas vêm se organizando de forma empreendedora para produzir e “vender” suas reportagens.

Neste ano, a pesquisa foi realizada em um cenário de crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Assim, ele retrata também como as organizações de mídia independentes enfrentaram essa situação e o que mudou desde o primeiro estudo.

De acordo com o estudo (disponível aqui), a mídia independente atua em um cenário de ataques online constantes, ameaças, processos judiciais e, nos casos mais graves, violência física. Mais de 12% dos 201 veículos informaram que os líderes ou alguém em sua empresa foram vítimas de violência física, com quase todos os incidentes informados ocorrendo nas mãos da polícia ou de militares enquanto cobriam protestos.

“Um grande desafio que as empresas nativas digitais ainda enfrentam são os ataques em razão de seu jornalismo”, afirma Marcelo Fontoura, um dos pesquisadores da SembraMedia e professor de jornalismo digital da PUC do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fontoura é doutor em Comunicação Social pela PUC, com período de pesquisa na Northwestern University, nos Estados Unidos.

Frame de vídeo do YouTube quando bolsonaristas e seguranças de Bolsonaro agrediram jornalistas em Roma, Itália

“Nas três regiões estudadas, 51% das organizações declararam ter sido vítimas de ataques digitais. Muitas vezes, o assédio e as ameaças eram tão cotidianos que era difícil quantificá-los. No caso do Brasil, era comum que os meios relacionassem o governo de Jair Bolsonaro a uma piora na percepção de violência e dificuldade de exercer o trabalho jornalístico”, diz Fontoura.

Na América Latina, organizações de mídia do Brasil e da Colômbia informaram uma incidência muito maior de ameaças judiciais – 13 vezes mais do que as do México e da Argentina.

As mulheres na liderança

Katia Brasil e Elaíze Farias fundadoras da Agência Amazônia Real
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A SembraMedia é formada por jornalistas, empresários, professores e consultores que representam uma comunidade de 950 empreendedores da América Latina, Espanha e dos Estados Unidos. A pesquisa contou com o apoio da Illuminati e o suporte da Center for International Media Assistance (Cima). Foram entrevistados líderes de mídias digitais na África do Sul, Argentina, Brasil, Colômbia, Filipinas, Indonésia, Índia, Malásia, México, Nigéria, Quênia e Tailândia sobre temas como conteúdo jornalístico e impacto, liberdade de imprensa e segurança jornalística, fontes de receita e despesas, estrutura e experiência da equipe, uso das redes sociais e tecnologia e inovação.

Uma das revelações do primeiro relatório do Ponto de Inflexão, segundo a SembraMedia, foi que as mulheres representavam 38% dos empreendedores de mídia entre os 100 nativos digitais entrevistados na Argentina, no Brasil, na Colômbia e no México. Esse número é muito maior que o 1% de mulheres proprietárias de jornais e canais de televisão.

No estudo deste ano, 32% das 201 empresas foram fundadas por mulheres. “Verificamos também que 25% declararam que pelo menos um de seus fundadores representava uma comunidade minoritária em seu país: quase 30% na América Latina, 25% no Sudeste Asiático, e 20% na África”, diz o relatório.

Desde sua fundação, em 2013, a Amazônia Real é dirigida pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias. “No início muitas pessoas, até as próprias mulheres, não acreditavam que seríamos capazes de administrar o negócio. Dizem que éramos ‘loucas’ por deixar um trabalho de repórteres experientes em empresas da imprensa tradicional, para se arriscar num negócio chamado de jornalismo independente. Sofremos o machismo até para abrir a nossa primeira conta bancária da nossa empresa. Tudo isso é revolucionário mesmo, viemos para mudar a grande mídia, comandada por pessoas que representam o patriarcado branco”, diz Kátia Brasil.

Com sede em Manaus, no Amazonas, a agência mantém uma rede de jornalistas colaboradores nos estados Acre, Amapá, Distrito Federal, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Rondônia, Roraima, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins. “As pesquisas são importantes para dar visibilidade ao trabalho realizado pela agência e valorizar o jornalismo que produzimos. E também transferem experiências para as novas gerações, o que é um de nossos objetivos”, afirma a jornalista Elaíze Farias, editora de conteúdo da Amazônia Real.

Negócios sustentáveis

Estes números combinam fontes de receita semelhantes em macro
categorias: Subvenções; Receita Publicitária: Receita Total de Serviços de Conteúdo e Receita Total dos Leitores
(Gráfico; SembraMedia)

Segundo o estudo, o que mais impressionou foram as semelhanças entre as organizações jornalísticas independentes no esforço para cobrir os fatos de suas comunidades e construir modelos de negócios sustentáveis. Hoje, 75% dos meios de comunicação informaram crescimento de receita entre 2016 (ano do primeiro estudo) e 2019.

Um dos destaques deste capítulo da pesquisa é que na América Latina a receita vinda dos leitores quase dobrou entre o primeiro Ponto de Inflexão e o atual. Antes, as assinaturas e os membros dos veículos representavam cerca de 5% da receita total média e em 2019 passaram a representar 10%.

Doações de pessoas físicas e programas de membros foram as fontes mais populares de receita de leitores na América Latina. “Embora relativamente modestos, esses números mostram que a disposição de pagar por notícias digitais entre os consumidores na América Latina é maior do que em alguns outros países, incluindo mercados estabelecidos como o Reino Unido (8%) e Alemanha (10%) e isso não está muito atrás dos EUA (20%)”, avalia a pesquisa.

“O Ponto de Inflexão identificou que a sustentabilidade financeira das iniciativas jornalísticas nativas digitais na América Latina e no Sul global está relacionada a uma diversidade de fontes de receita. Os veículos jornalísticos caminham para depender menos da publicidade e, assim, estabelecer outras formas de gerar dinheiro, como eventos, receita de leitor, merchandising etc”, afirma o pesquisador Marcelo Fontoura.

Segundo ele, durante a pandemia as subvenções de empresas e organizações se destacaram por um aumento de relevância entre as fontes de financiamento. “Ao mesmo tempo, o relatório identificou que as equipes com habilidades mais diversas tendem a obter mais receita, principalmente aquelas que têm funcionário dedicado a vendas”, diz.

“Nós nos sentimos aliviados ao descobrirmos que a maioria das mais de 200 mídias digitais nativas não sofreu as enormes perdas financeiras informadas pelos players da mídia tradicional”, informa o resumo executivo do estudo.

Conteúdo de impacto

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O relatório sobre a pesquisa da Sembra Média mostra que a maioria das fundadoras e dos fundadores dos veículos independentes foram motivados pela necessidade de cobrir temas que os meios de comunicação tradicionais negligenciam, como direitos humanos, questões de gênero, saúde e meio ambiente.

“Quando eu era repórter da Folha de S.Paulo, escrevi histórias sobre pessoas da Amazônia que nunca foram publicadas porque os leitores de São Paulo supostamente não estavam interessados nos fatos de outras regiões do país”, disse aos pesquisadores a jornalista Kátia Brasil.

Kátia reforça que a agência foi criada porque os veículos tradicionais não cobriam assuntos que ela e outros jornalistas acreditam ser importantes sobre a região amazônica. “É o que chamamos de invisibilidade, silenciamento de vozes na grande mídia de pessoas que foram a vida toda tratadas com preconceito, racismo e discriminação pela grande imprensa. Não adianta nos colocar numa caixinha. Eu, como uma mulher negra, também quero quebrar essa bolha. Daí a Amazônia Real nasceu com a missão de praticar a diversidade inclusiva dentro e fora da redação.”

O estudo revela outros exemplos impactantes sobre o jornalismo independente. É o caso do Echo, site criado em 2018 na Tailândia com um público jovem e progressista, com conteúdo sobre questões consideradas tabu no país, como a sexualidade.  Outro exemplo é Tazama World Media, no Quênia, uma organização jornalística que atende um público que não tinha outra fonte local de notícias.

Em relação ao impacto, a maioria das organizações entrevistadas informou que suas reportagens contribuíram para mudanças políticas e sociais significativas, como maior envolvimento da população, investigações criminais e demissões governamentais.

A Marco Zero, de Pernambuco informou que uma de suas reportagens contribuiu para a libertação de um homem preso injustamente sob a acusação de tráfico de drogas. A apuração jornalística descobriu que documentos pessoais dele haviam sido roubados e usados por outra pessoa.

A pesquisa informa que muitas dessas organizações são especializadas em jornalismo investigativo e mais de 50% delas já ganharam prêmios nacionais ou internacionais, como é o caso da Amazônia Real, que é pioneira no trabalho na cobertura na região Norte do país e é reconhecida nacionalmente e internacionalmente.

Dois exemplos de parcerias da Amazônia Real podem ser destacados: a reportagem especial “Ouro do Sangue Yanomami”, realizada junto com a Repórter Brasil e uma das vencedoras do Prêmio Patrícia Acioli de Direitos Humanos; e a série “Um Vírus e Duas Guerras”, uma parceria entre Amazônia Real, AzMina, #Colabora, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Portal Catarinas e Ponte Jornalismo.

A pesquisa da SembraMedia avaliou também pontos como a formação das equipes nas organizações de jornalismo independente, a atuação nas redes sociais, o uso de tecnologia e as inovações. Uma das recomendações do estudo é que os líderes das mídias digitais e independentes sejam gentis com eles mesmos.

“Quando as coisas não funcionarem conforme o planejado, tentem aprender com a experiência e sigam em frente”, recomenda o relatório. “Criar uma nova empresa é difícil e inclusive nas melhores circunstâncias e até mesmo os empresários mais bem-sucedidos cometem erros nesse processo.”


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