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Divulgador esquecido - ((o))eco

Divulgador esquecido – ((o))eco

Caricatura por Kleber Sales (2017)

“Sou dos que não acreditam que a alfabetização constitua uma panacéia. Quando se fala em nosso atraso, logo vem a pêlo a porcentagem dos nossos analfabetos. O grande mal, no meu entender, não está na massa analfabeta, mas na alfabeta, que sabe ler e escrever, mas não lê e, como não lê, continua tão ignorante como se não soubesse ainda juntar as letras. É indispensável, portanto, excitar o gosto pela leitura, especialmente divulgando coisas do Brasil que sobre as demais devem despertar nosso interesse(E.S.).

Assim se manifestou Eurico Santos (E.S.) no prefácio do livro Nossos peixes marinhos: vida e costume dos peixes do Brasil, publicado em 1952 pela editora F. Briguiet & Cia.. O editor, articulista, jornalista e escritor nasceu na capital do Império do Brazil (como se escrevia na época) em 28 de junho de 1883, mesmo ano da morte de Karl Marx (1818-1883), da erupção do Krakatoa na Indonésia – que gerou tsunamis que devastaram costas ao redor do oceano Índico –, da abertura da ponte do Brooklin, em Nova York, da descoberta do bacilo da cólera pelo microbiologista alemão Robert Koch (1843-1910), da inauguração da primeira central elétrica da Europa Central, em Milão, da morte do último quagga – uma subespécie de zebra endêmica da África do Sul – no zoológico Artis Magistra, em Amsterdã e da invenção da caneta-tinteiro pelo norte-americano Lewis Waterman (1837-901). 

A capital, o Rio de Janeiro, nas palavras do historiador Carlos Eduardo Sarmento, era “cidade singular com uma missão bastante peculiar: a de ser o centro da nação [onde] se instalaria não apenas a melhor vitrine, como também estaria montado o palco privilegiado das ações e decisões cruciais da política”, como a assinatura da Lei Áurea (1888) e o golpe silencioso de  1889, com a promessa de um novo Brasil do trabalho “livre”, da indústria, da imigração, dos avanços da medicina e da ciência, da urbanização, do nacionalismo – ao mesmo tempo ruralista, patriarcal, escravocrata e latifundiário. Na visão do escritor Graciliano Ramos (1892-1953), “pouco luxo na capital; cidadezinhas do interior, mediocremente povoadas, ignoravam a iluminação elétrica e no campo as necessidades eram reduzidas; as máquinas eram singelas e os indivíduos bem situados envergonhavam-se de usar o produto nacional”.

A geração de E.S. foi marcada por uma efervescência política e intelectual. Debates acalorados em torno da construção da identidade nacional buscavam definir o rumo do país, enquanto a crença em um Estado forte e centralizador se firmava. A ciência era vista como guia para o progresso, impulsionando a divulgação do conhecimento e a preocupação com a natureza. Para aumentar a tensão, uma indisciplina generalizada era observada em diversos setores, desde os quarteis e fábricas até ateliês e cafés. Uma revolta indefinida contra a autoridade estabelecida. A imagem externa de progresso contrastava com a realidade interna marcada por miséria, doenças, ignorância e corrupção.

Morreu a monarquia, o imperador e, em 1896, o pai de E.S. – ficou órfão aos 13 anos, ele e três irmãos mais novos. No mesmo ano, os cinematógrafos abririam suas primeiras salas. Manoel de Oliveira Santos, guarda-livros, natural de Portugal; a mãe, Elvira de Sousa Pacheco Santos, natural da capital. Nota publicada no jornal carioca Correio da Manhã em 1959, menciona que E.S. “fêz seu curso de humanidades no Mosteiro de São Bento”. O mosteiro, contudo, não confirma a passagem dele pela instituição. 

O que achados históricos sugerem é que E.S. foi carimbador suplente do Correio da República a partir de 1899 – então com 16 anos –, e aprovado nos “Exames Finaes da Instrucção Primária. Curso complementar (2. época)” dez anos mais tarde. Foi casado com Claudina Ferreira da Costa no período 1906-17. Na sua produção intelectual, não há alusão ao casamento, às circunstâncias nas quais se deu ou à motivação para o desquite; manteve-se reservado. A incerteza sobre a formação escolar de E.S. – a qual poderia explicar, em parte, a disciplina, a elegância, a polidez, a estética, o aparente domínio do idioma francês, quiçá, também do inglês e do espanhol e, porque não dizer, a sua erudição, “possuidor de vasta cultura” – nas palavras do prof. dr. Hitoshi Nomura –, espelhada no vernáculo, nas epígrafes habitualmente inseridas em cada capítulo dos livros e nas citações usadas nos artigos, geralmente em francês e sempre desacompanhadas de tradução –, bem como as diferentes formações profissionais a ele atribuídas (engenheiro, médico, naturalista, zoologista, veterinário, agrônomo, zootecnista), abrem janela para especulações a partir da rua do Hospício (atual rua Buenos Aires), na área central do “Districto Federal”.

Em junho de 1910, mês em que completou 27 anos, foi publicado o primeiro número da revista de A Fazenda – dirigida pelo empreendedor Júlio Arsênio Barbosa –, no expediente da qual E.S. aparece como secretário. A “redação” funcionava na rua do Hospício, 179. O “dr. Eurico de Oliveira Santos, engenheiro”, é listado pelo Almanak Laemmert como residente na rua do Hospício, 184, distante 2,5 km da rua Haddock Lobo, residência de E.S. em 1906, de acordo com o seu registro de casamento. Barbosa é listado algumas vezes no mesmo almanaque – um tipo de lista telefônica do século XIX: na seção ‘Typographias’, como sócio da firma Martins & Cia., rua do Hospicio, 179 – mesmo endereço da redação de A Fazenda; como diretor da seção administrativa da Escola Livre de Engenharia do Rio Janeiro, rua do Hospicio, 206; como chefe da 3ª secção e lente [professor] da Escola Livre de Engenharia do Rio Janeiro, na seção “Professores de linguas e sciencias”, como lente do Curso de Agronomia e representante do Instituicion Cervera, Valência, Espanha – Escuelas Internacionales por Correspondencia. Escuelas libres estabelecidas al amparo de la ley: ingenieros electricistas, ingenieros mecánicos, ingenieros mecánico-electricistas, ingenieros agrícolas, electroterapéuticos, arquitectos constructores, telegrafistas navales, idomas. “Son las Escuelas más importante de Europa em su clase. Su nombre y fama son universales”. Os três “negócios” de Barbosa localizados na rua do Hospicio, 196. Ao que parece, E.S. surgiu na cena agrícola sob os auspícios de Júlio Arsênio de Barbosa – de quem se separou em 1913, conforme editorial publicado na edição n.37 da revista A Fazenda – e dos cursos oferecidos por ele. “Parece não ter completado seus estudos de agronomia” – escreveu, em 1978, o biólogo Roberto Gonçalves de Oliveira, fundador da Sociedade Sul Rio-Grandense de Ornitologia.

Capa da primeira edição da revista A Fazenda, publicada em junho de 1910.

“[Barbosa] resolveu retirar-se, cedendo a sua parte social na empresa, ficando eu dela possuidor e cabendo-me a sua direção, a qual vinha ja mais de um anno para cá, exercendo-a com incontestável dedicação. […] está, pois, «A Fazenda», de ora avante, sob minha exclusiva direção e responsabilidade, assumindo eu todos os compromissos da administração passada. O programma […] será o mesmo: o da inteira defensão dos interesses agrícolas e o do maximo divulgamento dos preceitos da agricultura moderna” (E.S.).

O primeiro artigo identificado com a assinatura de Eurico Santos – “A coagulação da borracha” –, foi publicado na edição n.6 da revista A Fazenda em novembro de 1910 e assinado apenas com as iniciais “E.S.”, frequentemente usadas. Como as revistas agrícolas apresentam perfis, ensaios biográficos, artigos, reportagens e notas não assinadas – ou assinadas apenas com iniciais que, muitas vezes, não correspondem aos nomes listados no “corpo de collaboradores e consultores techinicos”, é razoável imaginar que E.S. possa ter redigido textos apócrifos. Na ausência de produções anteriores atribuídas a ele, podemos inferir que foi nesta ocasião que E.S. “começou uma carreira de divulgação científica que o manteve na máquina de escrever até 1967”, conforme escreveu o jornalista Carlos Fioravanti em 2021. Provavelmente, ‘Beterraba de côr vermelha é mais procurada’ tenha sido a sua última nota, publicada no Correio da Manhã sete meses antes da sua morte, em 1968. E.S. escreveu intensamente para jornais. Em um deles, O Jornal, do Rio, ele alimentou a coluna Vida dos Campos por 30 anos. Na década de 1950, “praticamente todos os jornais brasileiros estampavam seus artigos”. No prefácio do livro Manual do lavrador brasileiro (1944), E.S. informa sua participação na fundação das revistas A Fazenda (1910) – “tinha como colaboradores os melhores elementos da época […] e mereceu grande aceitação e com a inexperiência dos estreantes, seus diretores, pensaram em montar uma oficina tipográfica; neste passo para o progresso tropeçaram num óbice inominável, que se chama falta de capital, e a revista desapareceu já no seu quarto ano de existência” – A Fazenda Moderna (1916-28), O Campo (1930-52) e Seleções Agrícolas (1946-57). A obra de E.S. está situada na confluência entre as preocupações com o progresso e uso racional dos recursos naturais, oferecendo importantes contribuições para a popularização do conhecimento sobre agropecuária, veterinária, cinofilia, caça e diversidade faunística.

O primeiro livro, Manual do amador de cães, foi publicado em 1927 e nem os vira-latas ficaram de fora: “O cão de rua é o produto dos mais disparatados cruzamentos e das mestiçagens mais estravagantes (sic). Constitue a ralè da espécie, os desprotegidos e os abandonados, boêmios em cata de aventura e cães de espírito insubmisso, brigões, de índole rixenta e pobres diabos inofensivos e afetuosos. Nessa babel de tipos, como numa colcha de retalhos, encontram-se os característicos apagados, sufocados, de mil raças, as nuanças de todas as pelagens, numa confusão caótica que desesperaria um zootecnista que aí procurasse a pista de uma raça determinada”. 

Anunciou a Gazeta de Notícias em 1928: “A obra mais completa sobre o cão, descripção de raças, criação, hygiene, adestramento, molestias. Em todas as livrarias do Rio”. “Enfim este Manual do amador de cães é uma verdadeira enciclopédia. É indispensável ao veterinário e aos criadores profissionais, e será de inestimável valia aos que simplesmente gostam de ter cães em sua casa. E quem não gosta?” – escreveu o autor nada modesto que procurava transparecer sê-lo. A oitava edição do manual foi publicada em 2004 pela Itatiaia. O apreço pela cinofilia está espelhado tanto nos livros quanto nas dezenas de artigos publicados em jornais e revistas, vários deles dedicados à criação das melhores raças para caçadas. ‘Cuidae dos vossos cães’ é o primeiro artigo de cinofilia, publicado na edição n.24 de A Fazenda (1912) e dedicado aos sócios do Canil-Club.

Capa de Caças e caçadas, publicado em 1950.

“A caça não é tão só paixão de reis e grãos-senhores, mas é igualmente da maior parte dos homens e como as paixões inatas são muito difíceis de desarraigar, temos que contemporizar com elas e quando se fazem excessivas, buscar remédios. […] as reservas de caça — santuários onde as pobres criaturas vítimas da paixão venatória dos homens podem viver e se reproduzirem como outrora no éden” (E.S.).

Na década de 1930, E.S. ingressou no Serviço de Economia Rural do Ministério da Agricultura, onde assinou livretos publicados pelo Serviço de Informação Agrícola e o livro Animais Selvagens (1956): “Eurico Santos, bem conhecido por sua considerável bagagem de monografias a respeito dos diversos aspectos da Avicultura, Psicultura, Ornitologia e aspectos outros da Zoologia e da Agricultura, trabalhos esses recebidos com o mais vivo agrado pelo público e louvados pela crítica, nacional e estrangeira, era a pessoa indicada para a tarefa. Assim, foi incumbido o renomado publicista de preparar Os Animais Selvagens para esta série. Partindo de breves considerações preliminares, pontos que o tema pedia fossem previamente esclarecidos, Eurico Santos estuda, em linguagem escorreita, acessível e agradável, dentro da técnica, todos os ângulos sobre o tema dos animais selvagens: seu aprisionamento, cativeiro, amansamento, domesticação e utilização, tocando, ao mesmo tempo, em múltiplos problemas de interesse científico e prático”, escreveu o diretor do Serviço de Informação Agrícola na apresentação do livro. No prefácio, o autor contemporiza: “Para contraminar as devastações da fauna, tem-se, em tôda parte quase, tomando precauções, estabelecendo-se leis que regulam a caça e a pesca, ao mesmo tempo que se tomam outras medidas de proteção, como sejam os Parque Nacionais ou Reservas, onde fauna e flora estão sob a proteção e guarda do Estado. A par de tais providências, outras existem como sejam: reservas particulares de caça, refúgios e criadouros de animais silvestres. Êstes criadouros têm um fim: a reprodução e exploração comercial de certos animais ou produtos animais que são necessários ao homem e que já não se encontram, ou raramente são encontrados, na natureza, por causa da devastação que vêm sofrendo. […] O que temos em mente ao tratar de animais selvagens, assunto cardial desta obra, é apontar o que deles poderemos obter”. Anos antes, foi publicado Caça e caçadas, aqui apresentado pelo seu prefaciador: “Costuma-se dizer, com razão, que a caça é, a um só tempo, arte e ciência: arte, porque exige manha, destreza, agilidade ou astúcia da parte de quem a pratica; ciência, porque requer cuidados especiais e está condicionada a regras, princípios, leis e regulamentos que precisam ser considerados porque estão alicerçados em bases biológicas comprovadas. […] Só assim será possível adotar medidas acertadas, tendentes a salvaguardar os interesses do patrimônio faunístico nacional”. De perdizes a onças-pintadas, das medidas de segurança individual e coletiva à preparação de peles por encarregados de museus e interessados na industrialização de couros, o manual é notável! Perturbadoramente notável. Para E.S., “Caças e Caçadas será, assim julgo, um livro útil ao caçador e ao mesmo tempo aos que se desejem instruir sobre coisas da nossa fauna, pois sob certos aspectos êle se constituirá um complemento dos quatro volumes de divulgação zoológica que publiquei em relação aos vertebrados do Brasil”.

Sobretudo no Rio de Janeiro, mas também na cidade de São Paulo – onde o Instituto Oswaldo Cruz e o Museu Nacional, na primeira, o Instituto Biológico e o Museu Paulista, na segunda, destacavam-se pela tradição científica nas áreas biológicas e de ciências naturais –, E.S. criou uma intrincada rede de contatos da qual se valia para consultas e da qual faziam partes cientistas, especialistas e técnicos – também do setor agropecuário – seduzidos pela sua escrita cuidadosa, carismática, e pela sua vocação para divulgar. Ele foi membro de mais de uma dezena de sociedades, associações e agremiações científicas e não-científicas, inclusive internacionais, dentre elas a Sociedade dos Amigos das Arvores, organizadora da “Primeira Conferencia Brasileira de Protecção á Natureza” realizada entre os dias 8 e 15 abr. 1934, no Rio de Janeiro, “sob o patrocínio do governo provisório” de Getúlio Vargas (1882-1954). Ele também atuou em várias organizações agrícolas, como a Sociedade Nacional de Agricultura e o Instituto Agrícola Brasileiro. Sua filiação ao Partido Republicano Nacional se deu mais por “conveniência de mercado” do que por convicção; quando achava necessário, não se furtava de fazer críticas ao estado. 

Avicultura: fonte de riqueza (1943) e Veterinária prática (1943) foram publicados pela editora da revista O Campo; o Manual do lavrador brasileiro (1944) pela F. Briguiet & Cia.

E.S. foi um dos membros fundadores da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), criada em agosto de 1958 com a finalidade de “promover uma ação nacional para a conservação dos recursos naturais e para a implantação de áreas reservadas de proteção à natureza”. A FBCN atuou até 1992, mas sua maior influência no debate público sobre conservação da natureza se deu, principalmente, nas décadas de 1960 – quando foram criados 11 parques nacionais – a 1980.

Cartaz da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN confeccionado em parceria com o Fundo Mundial para a Natureza – WWF. Pintura de Bonnie Marris.

“Os homens da ciência, que entre nós existem em quantidade apreciável e qualidade notável, não atinamos bem por que, esquivam-se quase sempre de fazer divulgação. Louvável, pois, seria que aparecessem, como nos demais centros de alta civilização, escritores que se especializassem na divulgação — gênero literário muito abundante na época hodierna. Não quer dizer que entre nós não exista êste gênero de escritores, pois fácil seria citá-los, mas ainda se apresentam em reduzidíssimo número, ante a tarefa a que são chamados” (E.S.).

Da vasta obra de E.S., os livros da coleção Zoologia Brasílica tornaram-se os mais conhecidos: os 11 volumes somam 2.600 páginas de informações sobre a “vida e costumes” dos animais, da traça à baleia-azul, da ema ao beija-flor, do gambá ao macaco. Para Silvio Marchini, doutor em Conservação da Vida Silvestre, os livros de Santos, mais do que influenciar a sua formação profissional, serviram como inspiração. Sandro Von Matter, fundador do Instituto Passarinhar, escreveu: “Ao caminhar pela Rua São Bento, no centro de São Paulo, vi algo que mudaria a minha vida: exposto em uma vitrine de uma grande livraria estava a obra Pássaros do Brasil […] ganhei meu primeiro livro sobre aves brasileiras […] a obra de autoria de E.S. – até hoje, um dos meus livros preferidos. Não mudou apenas a minha vida, mas influenciou gerações de cientistas e pesquisadores de renome que leram o livro na infância ou na adolescência e, hoje, se dedicam à pesquisa e conservação das aves brasileiras”. 

“Sua forma de escrever cativava” – comentou o ornitólogo Fernando Costa Straube, admirador da obra de E.S. –, “crianças recém-alfabetizadas começaram a desenvolver o gosto pela pesquisa graças a seus livros, produzidos em linguagem clara e acessível”. O próprio Straube já tinha lido Da ema ao beija-flor quando, aos 15 anos, ganhou da primeira professora de biologia no ensino médio o livro Pássaros do Brasil: “Era, de fato, um autor voltado ao grande público, dentre adultos agricultores, pecuaristas, avicultores e mesmo simples curiosos; também era fonte de leitura para crianças e adolescentes, em especial aquelas que começavam seu interesse pelos assuntos da natureza”.

Capas das primeiras edições da coleção Zoologia Brasílica, publicadas entre 1938 e 1955 pela F. Briguiet & Cia..

“O divulgador de zoologia não se obriga, ao tratar de determinado grupo, de rever a matéria e pô-la em dia, expurgando os enganos ou dúvidas que sempre se verificam. O seu papel é de consultar os especialistas, procurar deles a última palavra, e desentranhar do acervo de fatos, os de certa significação para o geral dos leitores, deixando aos cientistas os outros que só a estes interessam” (E.S.).

Capas das edições da coleção Zoologia Brasílica, publicadas pela Itatiaia a partir de 1976, com dois volumes inéditos: Os insetos – tomo 2 (1985) e Miscelânea zoológica (1987).

“Possui hoje a ciência, em todos os seus setores, as mais representativas personalidades. A tarefa que vivem a realizar é grande demais para que daquelas regiões desçam a executar pequenos serviços que obreiros mais modestos podem fazer a contento. A divulgação de cousas intimamente ligadas à ciência está nesses casos. Sobre os nossos animais silvestres poderemos até contar, pelos dedos da mão, as obras de divulgação popular propriamente dita” (E.S.).

A carteira profissional que melhor representa a trajetória profissional de E.S. foi emitida em 1939, pelo Syndicato dos Jornalistas Profissionaes, sediado na Praça Tiradentes, Rio de Janeiro. A aposentadoria compulsória do Ministério da Agricultura veio em 1953, quando completou 70 anos. Em 1960, ele foi escolhido para receber uma das cinco primeiras medalhas do Mérito Agrícola, instituída pela Confederação Rural Brasileira “para homenagear, anualmente, personalidades que se têm destacado por sua atuação em proveito da produção agropecuária” e reconhecida pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) por meio de decreto.

As contribuições de E.S. são anteriores às de José Reis (1907-2002) – renomado divulgador científico –, que escreveu inicialmente sobre doenças de aves na revista O Biológico, publicada pelo Instituto Biológico de São Paulo a partir de 1935, e depois sobre ciência em geral na revista Ciência e Cultura, editada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e em jornais de grande circulação, em especial a Folha de S.Paulo. A fama de Reis provavelmente foi insuflada pela maior visibilidade dos veículos de comunicação da sua época. A despeito do seu talento para escrever, se destacou mais pela oportunidade de ser divulgador do que pela vocação. Com isso, outros tantos divulgadores foram ofuscados e esquecidos.

“Ele era de estatura baixa, prosador excelente e gourmet exigente. Foi uma satisfação trocar ideias com ele” (Nomura, 2009).

“Quem divulga para difundir a ciência entre os não especializados, não precisa ser profundo e até esta qualidade da não profundidade torna-se indispensável ao divulgador. O de que êle precisa em primeiro lugar é ser leve, sintético, agradável. Seus conhecimentos devem ser seguros para que os possa expor com clareza, correção, amenidade e, se possível, elegantemente. Se isso conseguir, alcançou a mira visada e pouco importa ao leitor que êle não seja um sábio profundo, ímpar” (E.S.).

A controvérsia: mata ou milho

Durante uma conversa sobre E.S., surgiu a seguinte pergunta intrigante, que expõe a polarização presente em sua obra e que continua, nos dias de hoje, a permear o debate público envolvendo desenvolvimento econômico versus proteção da natureza: “Se Eurico fosse proprietário de uma gleba coberta por mata, ele a manteria para os passarinhos ou a substituiria por uma plantação de milho?” Dividir a gleba entre o verde da mata e o da plantação seria uma solução aparentemente menos controversa. Em 1978, o biólogo Roberto Gonçalves de Oliveira, fundador da Sociedade Sul Rio-Grandense de Ornitologia, registrou sobre E.S.: “Conservacionista por índole e por convicção, às vezes encolerizava-se ante a constatação do morticínio das aves”. Tendo em vista essa ética que orientava a sua visão de como o mundo deveria ser, o próprio E.S. parece nos apresentar a resposta em Da ema ao beija-flor e Pássaros do Brasil – primeiro e segundo livros daquela que viria ser a coleção Zoologia Brasílica – publicados em 1938 e 1940, respectivamente. Se certeira ou hipotética, a resposta, depreenderá o leitor:

Capa da primeira edição de
Da ema ao beija-flor: vida e costumes das aves do Brasil — primeiro livro a fazer parte da coleção Zoologia Brasílica —, publicado em 1938, edição em capa dura.

“Há quem desadore histórias de bichos, receosos, talvez, de certos confrontos… Outros julgam-se ainda de origem divina e destarte crêem que um abismo separa os homens dos outros animais, quando na realidade, não há entre êles senão, como diz Remy de Gourmont, ‘un tout petit ruisseau qu’enjamberait un enfant’. Não é para aqueles que escrevo, mas para os que amam a Natureza, lhe sentem os encantos e, como S. Francisco de Assis, conversam a irmã andorinha, o irmão lobo, na linguagem universal da bondade — um esperanto que seria capaz de fazer até com os próprios homens que se entendessem. Pudesse eu contagiar aos meus leitores a admiração pelas aves, o intêresse pelos seus costumes e o respeito pelas suas vidas, tão sagradas quanto as nossas, e teria conseguido o principal desejo que me guiou, ao escrever êsse livro” (E.S.).

Ilustração do artigo “Os inimigos dos nossos inimigos são bons amigos nossos”, de E.S., publicado em Seleções Agrícolas, n.1, 1946.
Capa da primeira edição de
Pássaros do Brasil: vida e costumes — segundo livro a fazer parte da coleção Zoologia Brasílica —, publicado em 1940, edição em capa dura.

“Os pássaros, por serem mansos e fracos diante das fôrças indomáveis da natureza e dos outros sêres que os cercam, em luta constante, dão bem a idéia daqueles santos, que vinham pelo mundo pregando a bondade e a concórdia, louvando em cânticos o criador de tantas maravilhas, mas que morriam, sempre, às mãos da gente bruta e má. Mal se vislumbra o crepúsculo matutino e já os pássaros começam, ainda dentro dos ninhos, ou nos pousos favoritos onde adormeceram, a saudar mais uma vez o dia que aí vem, como que enternecidos diante do esplendor do mundo. A luta pela existência, os mil perigos que os cercam e que bem conhecem, jamais lhes ensombram o ânimo. Cuidam da vida e desvelam-se pela geração do porvir, cumprindo, alegremente, as ignotas determinações da Natureza, que quer a terra povoada de sêres” (E.S.).

Tenho para mim que E.S., a despeito do seu alinhamento ao nacionalismo e desenvolvimentismo, já tinha como princípio e consciência o que a Convenção sobre Diversidade Biológica – fruto da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92, Rio-92 e Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992 – nomeia em seu preâmbulo: o “valor intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético da diversidade biológica e de seus componentes”.

E.S. morreu em 24 fev. 1968, por volta das 9h, no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro. No registro de óbito consta que: “Pelo declarante foi dito que o finado não deixou filhos nem bens”. Considerando os argumentos do deputado federal Lopo Coelho (1911-1984) – da Aliança Renovadora Nacional (Arena) –, apresentados (e rejeitados) à Câmara dos Deputados, por meio do Projeto n. 4.708 de 1954, para aumentar os proventos de aposentadoria de E.S., fica a interrogação sobre os rendimentos por direitos autorais auferidos por ele – ou herdados pelos irmãos, Nilo e Eurídice, falecidos em 1978 e 1990, respectivamente – nos termos da legislação vigente na sua época. Morreu pobre.

No esforço de tornar bem lembrado o legado intelectual de E.S., sobretudo a divulgação da fauna brasileira, há de se destacar os esforços do professor dr. Hitoshi Nomura (1933-2017), de Roberto Gonçalves de Oliveira (1916-2004), de Fernando Costa Straube, do dr. Silvio Marchini e do dr. Carlos Henrique Fioravanti. As publicações assinadas por eles foram os primeiros passos da pesquisa “Divulgação científica e valorização da natureza na obra de Eurico Santos (1883-1968)”, motivada pela Zoologia Brasílica nas minhas memórias.

Capa e folha de rosto do folheto Histórias do caçador que nunca mentiu (1966), com dedicatória “Ao ilustre professor Aurélio Buarque de Holanda, lembranças de Eurico Santos”.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989), ensaísta, filólogo e lexicógrafo, organizador do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1975).
Imagem de boneco Funko Pop gerada por ferramenta que utiliza inteligência artificial (IA) para gerar personagens baseados em comandos fornecidos pelo usuário (Microsoft Designer, generated with AI. January 7, 2024 at 11:00 pm).

“Terminamos com o presente volume a nossa ‘Zoologia Brasílica’ [Miscelânea zoológica]. É hora da cerveja preta, com que, carapinas e alvanéis comemoram o assentamento do último andar de um edifício, que eles, com esforços e canseiras, levantaram” (E.S.).

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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