Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside
O Cerrado enfrenta atualmente uma grave ameaça ambiental. O desmatamento desenfreado, a expansão desordenada das fronteiras agrícolas e a crescente fragmentação dos ecossistemas naturais exercem uma pressão sem precedentes sobre esse Ecodomínio [1]. Diante desse contexto, temos não apenas um dever moral, mas uma urgente responsabilidade coletiva de conservar o que resta antes que percamos irreversivelmente um dos pilares ecológicos do planeta. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) é um instrumento da política ambiental brasileira, instituído pela Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000 [2], sendo uma das principais ferramentas legais para conter a degradação ambiental (ver Quadro 2). A SNUC visa criar Unidades de Conservação (UCs), conservar a biodiversidade, proteger os recursos naturais, assegurar a manutenção dos serviços ecossistêmicos, valorizar a diversidade cultural, promover o desenvolvimento sustentável em seu entorno, garantir o uso racional dos recursos naturais para as gerações presentes e futuras e contribuir para a mitigação das mudanças climáticas [2]. Seus benefícios ultrapassam os limites territoriais, contribuindo diretamente para a estabilidade ambiental em escalas regional e global [1, 3].
O Cerrado possui atualmente 706 Unidades de Conservação (UCs), divididas em duas categorias principais previstas pela SNUC: proteção integral e uso sustentável (ver Tabela 3, Figura 8 e Quadro 2; para informações detalhadas sobre todas as UCs, ver Tabela S1). O principal objetivo das UCs de proteção integral é preservar a natureza, permitindo apenas o uso indireto dos recursos naturais, como pesquisa científica, educação ambiental e ecoturismo controlado, sem comprometer os ecossistemas protegidos. As UCs de uso sustentável permitem a exploração dos recursos naturais de forma planejada e responsável, conciliando a conservação com as atividades humanas sustentáveis [2].
Das UCs do Cerrado, 233 são de proteção integral, com destaque para Parques Nacionais (PARNAs; n = 16), Parques Estaduais (n = 69), Parques Naturais Municipais (n = 63), Reservas Biológicas (n = 13), Estações Ecológicas (n = 30), Refúgios de Vida Silvestre (n = 13) e Monumentos Naturais (n = 29). Em contrapartida, 473 UCs focam no uso sustentável, incluindo Áreas de Proteção Ambiental (APAs; n = 145), Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs; n = 277), Florestas Nacionais (FLONAs; n = 8), Florestas Estaduais (n = 9), Áreas de Relevante Interesse Ecológico (n = 27), Reservas Extrativistas (RESEXs; n = 5) e Reservas de Desenvolvimento Sustentável. (n = 2; ver Quadro 2, Tabela 3 e Figura 8; para informações detalhadas sobre todas as UCs, ver Tabela S1). No entanto, apesar do elevado número de UCs no Cerrado, a maioria delas tem uma pequena extensão territorial, o que significa que aproximadamente 8% da área total do Ecodomínio está efetivamente protegida, das quais menos de 3% são áreas de proteção integral – uma percentagem insuficiente para garantir a sua resiliência ecológica e a conservação da sua biodiversidade [1, 4, 5].
Tabela 3. Distribuição das unidades de conservação dentro do Ecodomínio Cerrado, organizadas por tipo de unidade, categoria de manejo, número de unidades e percentual de unidades. Para mais detalhes sobre todas as Unidades de Conservação, consulte a Tabela S1.

A modesta proporção de áreas protegidas no Cerrado contrasta fortemente com metas internacionais, como a antiga Meta 11 de Aichi, vinculada à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), que recomendava a proteção de 17% dos biomas terrestres até 2020 [6], e o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que propõe aumentar esse nível para 30% até 2030 [7]. Essas metas são consideradas os níveis mínimos necessários para garantir a representatividade ecológica e a conectividade entre os habitats naturais. No entanto, entre 2019 e 2023, a área de Unidades de Conservação (UCs) no Cerrado cresceu apenas 0,7% [8], mantendo o Ecodomínio muito abaixo desses compromissos globais. Portanto, é essencial expandir a conexão das Unidades de Conservação (UCs), especialmente em áreas já identificadas como prioritárias para a conservação da biodiversidade (Fig. 5B) [1, 9]. Essas regiões foram delimitadas com base em análises espaciais que consideraram critérios como diversidade biológica, grau de ameaça, conectividade ecológica e presença de espécies endêmicas e ameaçadas, revelando grandes porções do Ecodomínio que permanecem desprotegidas, principalmente em áreas de fronteiras agrícolas e alta pressão antrópica (Fig. 5B). Além disso, estudos indicam que estratégias de restauração bem direcionadas, especialmente em áreas críticas como corredores ecológicos, podem prevenir até 83% das extinções projetadas de plantas endêmicas [1], reforçando a importância da integração entre conservação e reconexão funcional da paisagem.
Diante dos dados e desafios apresentados, fica claro que a proteção do Cerrado é uma prioridade que transcende a agenda ambiental, envolvendo segurança hídrica, justiça social, soberania alimentar e um compromisso com as gerações futuras. Expandir as Unidades de Conservação (UCs), fortalecer a Rede de Substâncias Naturais e Culturais (RSNC), respeitar os territórios tradicionais e reconhecer o valor intrínseco do Cerrado são passos vitais e urgentes que não podem ser adiados. Contudo, além da criação de novas áreas protegidas, é essencial considerar a conectividade funcional entre os fragmentos naturais (Fig. 5B) [9]. A fragmentação do Cerrado, impulsionada pela expansão agrícola e pelo uso intensivo da terra, compromete o fluxo gênico, a integridade ecológica e a sobrevivência de espécies endêmicas e ameaçadas [10]. A implementação de corredores ecológicos entre unidades de conservação, especialmente em regiões de alta pressão antrópica, representa uma estratégia eficaz para mitigar esse isolamento e aumentar a resiliência do Ecodomínio [9]. Por fim, tornar essas ações viáveis em uma escala compatível com os desafios exige o engajamento coordenado de autoridades públicas, empresas e atores internacionais, com o fortalecimento de mecanismos de financiamento climático e ambiental voltados para a conservação [1, 3]. Instrumentos como o novo Fundo Global para a Biodiversidade, lançado em 2023 por 186 países, representam um passo promissor na mobilização internacional por soluções baseadas na natureza, com potencial para financiar a restauração de ecossistemas estratégicos como os encontrados no Cerrado [11]. Preservar o Cerrado significa preservar a vida em todas as suas formas, e essa é uma escolha coletiva que exige vontade política, ação coordenada e a coragem de enxergar esse território não como uma fronteira econômica, mas como um patrimônio natural que precisa ser defendido com urgência. [12]
Notas
[1] Strassburg BBN, Brooks T, Feltran-Barbieri R, Iribarrem A, Crouzeilles R, Loyola R, Latawiec AE, Oliveira Filho FJB, Scaramuzza CADM, Scarano FR, Soares-Filho B, Balmford A (2017). Moment of truth for the Cerrado hotspot. Nature Ecology & Evolution 1: 0099. h
[2] PR (Presidência da República) (2000). Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000.
[3] Pereira CC, Kenedy-Siqueira W, Negreiros D, Fernandes S, Barbosa M, Goulart FF, Athayde S, Wolf C, Harrison IJ, Betts MG, Powers JS, Dirzo R, Ripple WJ, Fearnside PM, Fernandes GW (2024b). Scientists’ warning: Six key points where biodiversity can improve climate change mitigation. BioScience 74: 315–318.
[4] Rausch LL, Gibbs HK, Schelly I, Brandão A, Morton DC, Filho AC, Stras
[5] Pereira CC, Fernandes GW (2022b). Cerrado conservation is key to the water crisis. Science 377: 270–270.
[6] CBD (Convention on Biological Diversity) (2020). Aichi Biodiversity Targets.
[7] CBD (Convention on Biological Diversity) (2024). Target 2: Restore 30% of all Degraded Ecosystems.
[8] IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) (2024) Área de unidades de conservação no Cerrado cresceu só 0,7% nos últimos cinco anos.
[9] Morandi DT, França LCDJ, Menezes ES, Machado ELM, da Silva MD, Mucida DP (2020). Delimitation of ecological corridors between conservation units in the Brazilian Cerrado using a GIS and AHP approach. Ecological Indicators 115: 106440.
[10] Klink CA, Machado RB (2005). Conservation of the Brazilian Cerrado. Conservation Biology 19: 707–713.
[11] Pereira CC, Fernandes GW, Negreiros D, Kenedy- Siqueira W, Fernandes S, Fearnside PM (2023). Hope for funding biodiversity efforts. Science 382: 383–384.
[12] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70. Supplementary material.
Sobre os autores
Cássio Cardoso Pereira é doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ecologia pela Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), e graduado em Ciências Biológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atua como docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE) da UFSJ. Possui reconhecimento da Web of Science em 2025 pela autoria de 25 publicações científicas como primeiro autor, todas alcançadas até o primeiro ano após a obtenção do título de doutor em Ecologia, como cientista em início de carreira. Atualmente, é editor de área das revistas científicas BioScience (IF = 8.4), Biotropica (IF = 1.7), e Nature Conservation (IF = 1.7). Seus principais interesses de pesquisa incluem conservação da biodiversidade, fenologia, fitossociologia, interações entre artrópodes e plantas, e mudanças climáticas. Para mais informações, acesse: https://cassiocardosopereira.com”
Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.
Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.
Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João del Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João del Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.
Lucas Arantes-Garcia possui graduação em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.
Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.
Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.
Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.
Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
Ver post do Autor





