Por Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Lara Ribeiro Maia, Vinícius da Fontoura Sperandei, Lucas Arantes-Garcia, Stephannie Fernandes, Gabriela França Carneiro Fernandes, Gislene Carvalho de Castro, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Salm e Philip M. Fearnside
O Cerrado é uma das regiões mais biodiversas e ameaçadas do planeta, reconhecido como um dos 35 hotspots globais de biodiversidade. Ele combina níveis extremamente altos de endemismo com extensa perda de cobertura vegetal nativa [1]. Este Ecodomínio abriga mais de 3.200 espécies de vertebrados, incluindo aproximadamente 2.047 espécies terrestres — das quais 340 são endêmicas [2] — e cerca de 1.200 espécies de peixes de água doce, com vários táxons restritos a bacias como Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná ([3]. Além disso, abriga uma flora vascular com aproximadamente 13.000 espécies de angiospermas, representando cerca de 27% da flora brasileira, das quais cerca de 4.400 são exclusivas do Ecodomínio [4]. Mais impressionante ainda, a fauna de invertebrados pode ultrapassar 90.000 espécies estimadas, embora ainda apresente grandes lacunas de conhecimento taxonômico e ecológico [5].
Enquanto aves e mamíferos representam a maior proporção de espécies de vertebrados ameaçadas no Cerrado, plantas e invertebrados lideram em números absolutos. Cruzando dados de diversas listas na literatura, estimamos que cerca de 600 angiospermas e entre 400 e 450 invertebrados estejam formalmente classificados como ameaçados no Brasil (ver Tabela 2 e Figura 6 para mais detalhes). Esses números superam o total de todos os vertebrados terrestres ameaçados no Cerrado, revelando um cenário em que organismos que sustentam funções ecológicas essenciais, como polinização, decomposição e fertilidade do solo, estão desaparecendo silenciosamente e, muitas vezes, sem que o público perceba. Essa assimetria entre o impacto ecológico e a atenção institucional compromete a resiliência do Cerrado e destaca a necessidade urgente de estratégias de conservação mais abrangentes.

Apesar dos recentes avanços na descrição e mapeamento de espécies, os dados sobre o estado de conservação dos táxons do Cerrado revelam uma sub-representação ainda crítica. Entre os 340 vertebrados terrestres endêmicos conhecidos, apenas 57 foram oficialmente classificados como globalmente ameaçados pela IUCN. Outras 70 espécies, ou mais de 20% do total, não foram avaliadas ou estão listadas como “dados insuficientes”, o que impede qualquer avaliação confiável sobre seu risco de extinção [2]. Esse padrão revela um viés histórico: mesmo dentro dos vertebrados, grupos como répteis e anfíbios — especialmente anuros com distribuição restrita e hábitos crípticos — permanecem negligenciados nas agendas de pesquisa e conservação. A situação é ainda mais grave para invertebrados e plantas: menos de 1% dos invertebrados conhecidos e apenas uma fração das angiospermas do Cerrado foram formalmente avaliados quanto ao risco de extinção. Além disso, enfatizamos que Ecodomínios como o Cerrado carecem de listas específicas. As listas de espécies ameaçadas geralmente são elaboradas em níveis global, nacional e estadual, e frequentemente não se alinham entre si, dificultando avaliações integradas e coerentes. Muitas espécies amplamente distribuídas no Brasil ou nas Américas, como Puma concolor (Lineu, 1771), podem não estar ameaçadas em escala continental, mas encontram-se criticamente em perigo em regiões específicas como o Cerrado, onde as pressões locais são intensas e contínuas [8]. A ausência de avaliações regionais compromete tudo, desde a criação de áreas protegidas até o desenvolvimento de políticas públicas, planos de ação e instrumentos de financiamento. É nesse vácuo de informação que muitas extinções ocorrem invisivelmente, mesmo antes de a ciência registrar a existência da espécie.
A síntese desses dados destaca um paradoxo estrutural: o Cerrado abriga uma das biodiversidades mais notáveis do planeta, contudo, permanece um dos Ecodomínios menos protegidos e mais subestimados [9]. Muitas das espécies endêmicas, algumas descritas recentemente e outras invisíveis à legislação ambiental, não ocorrem dentro de “unidades de conservação” (áreas protegidas para a biodiversidade no Brasil) [2]. É necessário ampliar os critérios de conservação, incorporando também plantas, invertebrados e microrganismos em inventários, avaliações e ações de manejo. Além disso, é importante reconhecer que inúmeras espécies podem estar desaparecendo antes mesmo de serem descritas pela ciência, uma perda que vai além da taxonomia e erode os próprios processos que sustentam os ecossistemas. Essa diversidade não se limita à contagem de espécies, mas inclui as interações ecológicas que mantêm a vida nos ecossistemas. A reprodução e a dispersão das plantas do Cerrado estão profundamente enraizadas nas interações com a fauna [10], especialmente por meio da polinização por abelhas [12] e da dispersão de sementes por aves e mamíferos [10-12]. A ruptura dessas ligações ecológicas, impulsionada pela perda de polinizadores e dispersores, não só compromete a regeneração vegetal, como também ameaça a persistência das próprias espécies animais, revelando um ciclo de interdependência que sustenta a biodiversidade do Cerrado. A proteção do Cerrado, portanto, requer uma política de conservação mais inclusiva e preventiva, fundamentada na verdadeira diversidade de seus componentes biológicos.
Por fim, dada a velocidade com que o Cerrado está sendo destruído, é urgente a adoção de estratégias de conservação que combinem ações in situ e ex situ (ver Quadro 2)[13]. No Cerrado, a conservação in situ envolve o fortalecimento e a expansão de áreas protegidas, corredores ecológicos e territórios indígenas, bem como a implementação de planos de manejo adaptativo em resposta às mudanças climáticas e à pressão humana [9]. A conservação ex situ, por sua vez, deve ser realizada por meio de bancos de sementes, coleções vivas em jardins botânicos e centros de reprodução em cativeiro, desempenhando, assim, um papel estratégico para espécies com populações críticas, distribuição altamente fragmentada ou ameaçadas por eventos extremos, como incêndios de grande escala. No caso das espécies vegetais oficialmente ameaçadas do Brasil, por exemplo, apenas cerca de 21% estão atualmente representadas em coleções ex situ, o que revela um enorme potencial para a expansão dessas iniciativas [14]. A integração dessas abordagens, aliada a políticas públicas robustas e ciência aplicada, é o caminho mais promissor para evitar que a biodiversidade do Cerrado se torne um patrimônio perdido. [15]
Notas
[1] Myers N, Mittermeier RA, Mittermeier CG, da Fonseca GAB, Kent J (2000). Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403: 853–858.
[2] Vieira-Alencar JPS, Carmignotto AP, Sawaya RJ, Silveira LF, Valdujo PH, de Campos Nogueira C (2025). Hotspot getting hotter: Increased knowledge on tetrapod endemism, habitat loss and the plight of the most threatened savanna in the world. Biological Conservation 305: 111087.
[3] Lima FCT, Ribeiro AC (2011). Continental freshwater fish biodiversity: The Cerrado as a significant ecoregion. In: Oliveira PS, Marquis RJ (Eds) The Cerrado: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. Columbia University Press, New York, 211–220.
[4] Flora e Funga do Brasil (2024). Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr): Collectory.
[5] Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) (2023). Biodiversity and Conservation of the Cerrado: Current Status and Challenges.
[6] IUCN (International Union for the Conservation of Nature) (2024). Red List.
[7] MMA (Ministério do Meio Ambiente) (2022). Espécies Ameaçadas.
[8] ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade) (2018). Plano de Ação Nacional para a Conservação da Onça-Parda – Ciclo 1: Matriz de Planejamento.
[9] Colli GR, Vieira CR, Dianese JC (2020). Biodiversity and conservation of the Cerrado: Recent advances and old challenges. Biodiversity and Conservation 29: 1465–1475.
[10] Kuhlmann M, Ribeiro JF (2016a). Evolution of seed dispersal in the Cerrado biome: Ecological and phylogenetic considerations. Acta Botanica Brasílica 30: 271–282.
[11] Kuhlmann M, Ribeiro JF (2016b). Fruits and frugivores of the Brazilian Cerrado: Ecological and phylogenetic considerations. Acta Botanica Brasílica 30: 495–507.
[12] Pereira CC, Arruda DM, Soares FDFS, Fonseca RS (2022c). The importance of pollination and dispersal syndromes for the conservation of Cerrado Rupestre fragments on ironstone outcrops immersed in an agricultural landscape. Neotropical Biology and Conservation 17: 87–102.
[13] Diniz-Filho JAF, de Oliveira Ferraz Barbosa AC, Chaves LJ, da Silva E, Souza K, Dobrovolski R, Rattis L, Terribile LC, Lima-Ribeiro MS, de Oliveira G, Brum FT, Loyola R, de Campos Telles MP (2020). Overcoming the worst of both worlds: Integrating climate change and habitat loss into spatial conservation planning of genetic diversity in the Brazilian Cerrado. Biodiversity and Conservation 29: 1555–1570.
[14] Silveira FAO, Teixido AL, Zanetti M, Pádua JG, Andrade ACSD, Costa MLND (2018). Ex situ conservation of threatened plants in Brazil: A strategic plan to achieve Target 8 of the Global Strategy for Plant Conservation. Rodriguésia 69: 1547–1555.
[15] Este texto é traduzido de: Pereira, C.C., W. Kenedy-Siqueira, L.R. Maia, V.F. Sperandei, L. Arantes-Garcia, S. Fernandes, G.F.C. Fernandes, G.C. de Castro, D.J. Rodrigues, R. Salm & P.M. Fearnside. 2026. The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation 61: 29–70. Supplementary material.
Sobre os autores
Cássio Cardoso Pereira é doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ecologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e graduado em Ciências Biológicasiológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atua como docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE) da UFSJ. Possui reconhecimento da Web of Science em 2025 pela autoria de 25 publicações científicas como primeiro autor, todas alcançadas até o primeiro ano após a obtenção do título de doutor em Ecologia, como cientista em início de carreira. Atualmente, é editor de área das revistas científicas BioScience (IF = 8.4), Biotropical (IF = 1.7), e Nature Conservation (IF = 1.7). Seus principais interesses de pesquisa incluem conservação da biodiversidade, fenologia, fitossociologia, interações entre artrópodes e plantas, e mudanças climáticas. Para mais informações, acesse aqui.
Walisson Kenedy Siqueira possui graduação e mestrado ciências biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros em doutor em ecologia, manejo e conservação da vida silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É integrante do Laboratório de Ecologia, Evolução e Biodiversidade da UFMG e do Knowledge Center for Biodiversity & Departamento de Genética, Ecologia e Evolução. Tem experiência na área ecologia de comunidades, interação inseto-planta e ecologia de sementes.
Lara Ribeiro Maia é Técnica em Administração pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Sabará e atualmente é Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse na área de ecologia, animais silvestres, educação ambiental, impactos ambientais e micologia.
Vinícius da Fontoura Sperandei possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São João Del-Rei, mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de São João Del-Rei e doutorado em Ciências pelo Programa em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é professor da Universidade de Rio Verde. Suas pesquisas são na área de Ecologia, principalmente sobre herpetofauna e ecologia subterrânea.
Lucas Arantes-Garcia possui gradução em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente está na Escola de Ciências e Meio Ambiente, Memorial University of Newfoundland, Corner Brook, NL, Canadá. Possui interesse em invasões biológicas, serviços ecossistêmicos, valoração ambiental, mudanças globais e interações inseto-planta.
Stephannie Fernandes é aluna de doutorado na Florida International University, Miami, FL, E.U.A. As suas pesquisas estão na área de ecologia política, visando descobrir como os arranjos institucionais e as diferentes partes interessadas se relacionam com o desenvolvimento e a conservação dos recursos hídricos.
Gabriela França Carneiro Fernandes possui licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é Mestranda em Ecologia, pela Universidade Federal de São João del-Rei. Ela participa do projeto de pesquisa “Ecossistemas de Referência”.
Gislene Carvalho de Castro possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrado e doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras. Atualmente é.Professora titular da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Atua na área de ecologia vegetal e restauração ecológica de ecossistemas, com ênfase em trabalhos relacionados a corredores ecológicos de valo. Coordena o projeto de extensão ”Restaurar” que objetiva a restauração ecológica de ambientes degradados e atua em projetos relacionados ao Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
Domingos de Jesus Rodrigues possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e tem doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. É professor Titular da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiabá. Suas pesquisas focam a biologia reprodutiva de anuros (sapos). É colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, ICMBio, e a Polícia Federal.
Rodolfo Aureliano Salm formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e fez doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Atualmente é Professor Adjunto III da Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Pará, campus de Altamira. Pesquisa na área de ecologia de ecossistemas, atuando principalmente no estudo da dinâmica natural e da conservação das florestas tropicais. Tem estudado tanto a ecologia quanto o aproveitamento econômico de palmeiras nativas e exóticas na Terra Indígena Kayapó, sul do Pará.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
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