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ToggleLivro constrói saga familiar marcada por ciclos de violência, poder e fatalidade histórica. Foto: Divulgação/Lendari® Entertainment
Muitas lendas brasileiras já ganharam releituras das mais diversas, com foco em contextos diferentes. Com essas referências, o jornalista e escritor amazonense Mário Bentes lança um novo livro, seu primeiro romance de horror rural e fantasia sombria histórica: ‘Algo estava matando os cavalos’, inspirado pela lenda ‘o negrinho do pastoreio’.
O livro surgiu, na verdade, de uma inquietação da infância, segundo Bentes. O autor conta que a obra é uma releitura ou, em suas palavras, “uma tentativa de releitura antirracista”, de uma lenda do sul do Brasil.
“Eu vi essa lenda na infância, eu achava ela triste e pesada. Quer dizer, uma criança, que na época eu não entendia como uma criança escravizada, só entendia como uma criança negra, era violentada fisicamente, psicologicamente por um capataz de uma fazenda e não havia nenhum tipo de interseção por essa criança. Eu me perguntava ali naquela inocência infantil, onde estavam os pais da criança, por que que permitiam que isso acontecesse?”, conta o autor ao Portal Amazônia.
O escritor enfatiza que o contexto era muito mais amplo que em sua mente infantil, que não conseguia compreender naqueles primeiros contatos, mas que, com o tempo, ganhou novos significados.
“Entendo que essa lenda já foi relida inúmeras vezes, reescrita inúmeras vezes em diferentes tramas. Ela tenta passar um verniz, passar um certo pano para um período cruel da nossa história e a minha tentativa é trazer justamente um olhar diferente, um olhar antirracista, ainda que eu esteja explorando uma ficção, uma ficção histórica, uma fantasia sombria, com o contexto de realismo mágico”, pondera.
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Segundo o autor, a reinterpretação da narrativa popular, que é marcada pela dor e pela injustiça, é uma forma de questionar e instigar a reflexão sobre assuntos de difícil abordagem: violência histórica, racismo e a salvação. Bentes alerta para “uma verdade incômoda”: a libertação precisa ser construída por aqueles que resistem.
Livro visita lenda brasileira
Ambientado no sul do Brasil e baseada na conhecida lenda daquela região, o romance mergulha em uma narrativa densa que atravessa mais de 200 anos de uma maldição familiar, acompanhando a decadência de um clã de origem portuguesa, os Alvarenga, cujas raízes estão profundamente entrelaçadas à história da colonização e às estruturas de poder herdadas da Coroa.
A trama tem início em 1874, na isolada Fazenda do Ventre Seco, onde cavalos adoecem e morrem sem explicação, entidades sobrenaturais parecem rondar a propriedade e segredos antigos insistem em emergir.
O retorno da última herdeira, após anos reclusa em um convento europeu, desencadeia uma sucessão de acontecimentos que podem tanto revelar verdades enterradas quanto selar definitivamente o destino da família.
Com forte influência do realismo mágico latino-americano, a obra dialoga diretamente com clássicos como ‘Cem anos de solidão’, de Gabriel García Márquez, ao construir uma saga familiar marcada por ciclos de violência, poder e fatalidade histórica.
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Incentivo aos autores amazônidas
Segundo o autor, ‘Algo estava matando os cavalos’ é, ao mesmo tempo, um romance histórico, uma fábula sombria e uma crítica contundente às heranças coloniais que ainda ecoam no presente. Para ele, é uma forma também de incentivar autores amazônidas à explorarem os mais diversos temas.
“Para autores amazônidas, nós temos aí, eu obviamente me incluo nisso, um oceano profundo de mitologias, de inspirações, de entidades, de conhecimentos ancestrais que podem ser explorados num contexto de fantasia histórica. Embora não seja um livro de história, e sim uma ficção. E falando aqui enquanto gênero, é necessário haver uma preocupação do autor, de saber ficcionalizar sem reescrever a história. Do contrário, você tira os dois pés do chão e não consegue produzir algo que de fato possa levar o público a repensar conceitos, a repensar épocas, a repensar valores”, destaca Bentes.
O jornalista avisa que existe “uma responsabilidade de, na fantasia histórica, usar elementos fantásticos para contar uma história que se passa no contexto histórico, de não desgarrar a história da verdade, mesmo no contexto de ficção”.
“A minha dica para autores é que, além de mergulhar nesse oceano de infinitas possibilidades, pesquisem do ponto de vista histórico para manter minimamente a coerência, mesmo no contexto de fantasia. Isso é muito importante, seja em realismo mágico, ficção fantástica, ficção científica, que são subgêneros que se enquadram em fantasia, como guarda-chuva”, sugere.
O lançamento de ‘Algo estava matando os cavalos’ acontece no dia 5 de setembro (sábado), das 14h30 às 15h30, no estande da Lendari® Entertainment na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ainda não há data confirmada para lançamento da obra em Manaus.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Portal Amazônia e são de total responsabilidade do autor.
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