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Plantar para existir; regar para permanecer

Plantar para existir; regar para permanecer


Povo Lanawa retoma identidade após reconhecimento no Censo, mas ainda enfrenta os efeitos de décadas de apagamento. Em uma parceria da Amazônia Real com a VII Foundation, braço educacional da agência de fotografia VII com sede em Paris e considerada uma das mais prestigiosas do mundo, o fotógrafo Raphael Alves documentou o cotidiano desta pequena população que vive na comunidade de Maku-Itá, às margens do rio Negro, no arquipélago de Anavilhanas. O resultado é uma série de fotografia documental, intitulada, Seiva Bruta, como parte do Programa de Jornalismo Visual.

Manaus (AM) – Quando os números chegaram, a existência já resistia. Em outubro de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que o Brasil tem mais povos indígenas do que se sabia até então. Entre os 86 novos grupos identificados, um nome reapareceu depois de décadas de silêncio: o povo Lanawa.

Por trás da estatística, que apontava a existência de 64 Lanawa, há uma história interrompida. Mas também retomada. Durante anos, esse povo viveu fora dos registros, empurrado para a invisibilidade. Muitos foram os fatores: epidemias, deslocamentos forçados, e o peso do preconceito. Para sobreviver, muitas dessas pessoas chegaram a esconder e até a renegar quem eram. Deixaram de falar sua língua, de praticar seus rituais, de se reconhecer como parte de um coletivo. Ainda assim, algo resistiu.  Sementes guardadas, memórias repassadas em voz baixa, laços de parentesco, modos de viver que atravessaram o tempo sem ter um nome oficial.

A história dos Lanawa parte do encontro de remanescentes dos povos Bahuana e Ciriano. Ambos sofreram com a febre amarela, mas reorganizaram a vida ao longo do rio Demini, afluente do Rio Negro, no Amazonas. Entre deslocamentos e alianças, foi ali que se plantou uma nova identidade. Não como ruptura, mas como continuidade possível.

Hoje, essa continuidade tem rosto e nome. A cacica Alvanira Soares Palmela conduz o esforço de manter viva a cultura de seu povo. Seu nome em sua língua, ‘Binwa’ , quer dizer “anta”. Nada mais apropriado, pois esse animal é considerado  o “jardineiro” da floresta, desempenhando papel importante na manutenção e renovação dos ecossistemas em que vive. Aos 54 anos, a Cacica Alvanira lidera famílias de seu povo que vivem fora do território tradicional, na comunidade Maku-Itá, em Novo Airão, município na região de Anavilhanas, Rio Negro, – a 195 quilômetros de estrada partindo de Manaus.. Ali, entre casas, roçados e trilhas, a identidade é cultivada; plantada e regada no cotidiano.

A luta é também íntima. A mãe da cacica, Maria Geni Palmela, uma das últimas descendentes diretas da origem desse povo, já demonstra sinais do desenvolvimento de Alzheimer. Vivendo, hoje, aos 82 anos, casa da Cacica, dona Geni já não guarda as memórias que contribuiriam para a historiografia dos Lanawa. O que se sabe é que, ainda criança, foi retirada da família e levada a um convento, onde permaneceu por anos, distante de sua cultura.

Geni Lanawa, de 82 anos, matriarca do povo Lanawa, na aldeia de Maku-Itá, no Arquipélago de Anavilhanas. Ela é a única filha sobrevivente da linhagem Lanawa, que surgiu do encontro entre os Bahuana e os Ciriano. Aos 7 anos, foi separada de seu povo e enviada a um convento (de onde saiu aos 25 para se casar), e hoje sofre de Alzheimer e não vive mais de acordo com a cultura de seu povo. Ao centro,um dos seus bisnetos brincando (Fotos: Raphael Alves/VII Foundation/Amazônia Real).

O território originário

As sucessivas mudanças de território também contribuíram para a perda de objetos e costumes. Na terra em que habitam hoje, apenas um objeto – um pilão de madeira, marcado mais pelo tempo que pelo uso remonta à vida no território originário no rio Demini.

Mas o apagamento não ficou no passado. Esse processo atravessa gerações. Entre os filhos da cacica, apenas uma filha mantém os costumes do povo. Adriane Lanawa é a vice-cacica de seu povo e sobrevive do turismo de base comunitária, contribuindo para contar um pouco de sua histórias às pessoas visitantes. Os demais filhos da Cacica Alvanira cresceram entre a cidade, a escola e as igrejas que, por vezes, classificaram saberes tradicionais como erro ou “pecado”. A ruptura não é exceção. É parte de um processo mais amplo, que atinge corpos, territórios e também a mente.

O reconhecimento no censo é um marco, mas não inaugura essa história. Muito antes de serem incluídos nas estatísticas do IBGE, os Lanawa já lutavam para afirmar sua existência. Mais que nos documentos, na Justiça, é na própria própria vida cotidiana que essa identidade existe e resiste. Afinal, existir, nesse contexto de séculos de colonização, nunca foi dado, mas plantado. E a permanência exige um cuidado vigilante e constante. Como quem rega aquilo que insiste em crescer, mesmo depois ter sido continuamente podado e quase arrancado desde suas raízes.

A Amazônia Real entrevistou a cacica Alvarina durante uma breve passagem dela por Manaus, em março de 2026, para que ela nos contasse um pouco mais da história do povo Lanawa.

Amazônia Real – Cacica Alvanira, tudo bem? Me fala um pouco sobre a comunidade onde a senhora vive? Onde é que ela está localizada, quantas pessoas vivem e como é que vocês vivem lá?

A gente vive lá cerca de umas 35 famílias. E a terra é do Instituto Indígena Makuitá, não é dos povos indígenas. Mas lá mora gente com sete etnias, diferenciado, né? Somos mistos, porque eu acredito que a união faz a força. Aí juntamos com os Baré, com os Apurinã, com os Lanawa e outros. E nós moramos na terra Makuitá. E a gente mora ali no Igarapé da Freguesia, em frente ao Novo Airão. Entrando o igarapé é a margem direita e saindo é a margem esquerda. Não entendo muito bem dessas coisas não, mas esse é o que nós entendemos da nossa natureza. E é isso.

Amazônia Real – Como se dá esse entendimento, esse encontro entre esses povos? E como é que é o sustento da comunidade, das famílias que vivem lá? Como é essa forma de vida com diferentes povos lá na comunidade Maku- Itá?

É uma comunidade multiétnica, vários povos diferentes. Bem, o sustento é diferenciado e requer vários tipos de atividade. Por exemplo, uns trabalham com a pesca para a sustentabilidade da sua família. Outros com artesanato. Outros com a sua história, com o turismo de base comunitária. Outros trabalham com a história da comunidade Indígena Maku-Itá, como foi fundado. O que o Instituto Maku-Itá tem feito para o seu povo. Isso aí os clientes, o povo de Novo Airão, gostam de saber a realidade do nosso povo. E a diferença com o nosso povo, eu não tive tantos problemas, porque eles me respeitam como liderança, como cacica, como fundadora da comunidade Indígena Maku-Itá. E como a primeira mulher cacica-geral de Novo Airão e no entorno. Todas as lideranças, de base, me respeitam. Tenho um grande respeito também por cada um deles. E assim, a minoria, eles vivem sendo sustentados pelo poder público, como Secretaria de Educação, pela Prefeitura, e outros trabalham em fábrica de gelo, essas coisas. Então, todo mundo se vira na medida do possível para o sustento da sua família.

Mas o que me deixa mais feliz, na parte da sustentabilidade da comunidade, é o turismo de base comunitária. A gente já tem o senhor Edivaldo, que conta a história dos derivados da farinha, da mandioca, da braba e da mansa, como vocês chamam, para nós é macaxeira, e a mandioca. E a Claudinha, do povo Tariano, que conta a história do barro, da cerâmica nossa, do nosso caraipé, que para nós é um cimento natural. Então, isso nos traz muita alegria. Nossas crianças com canoagem, com arco e flecha, zarabatana, a história que a Adriane Lanawa conta, nossa vice-cacica conta, é muito importante para os visitantes e também para todos que queiram conhecer a comunidade de Ramacurica. 

Amazônia Real – Conte para nós um pouco mais sobre a história do seu povo.

O que fizeram da nossa história? Também não sei. O que eu sei e garanto que se encontra no livro escrito na época, a história do povo Lanawa na UTL, antiga CTL de Barcelos. Também Barcelos, somos um povo muito respeitado pela nossa Funai, pelo nosso prefeito, vice-prefeita e todos que conhecem a nossa realidade, que sabem quem nós somos. Hoje, me sinto muito feliz, porque no ano passado saiu no IBGE o povo Lanawa. Hoje, nós somos reconhecidos. Tivemos o prazer de receber a equipe do Ministério do Turismo e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para fazer um pouco do nosso estudo, do nosso povo e como a gente vive no turismo. E a gente conseguiu que a universidade criasse no Brasil inteiro o livro, que vocês chamam de e-book, para ser aprovado na COP30. Isso me deixou muito, muito, muito feliz e honrada. O nosso nome do povo Lanawa está agora reconhecido nacional e internacionalmente.

Amazônia Real –  Cacica, a senhora falou da sua felicidade e desse reconhecimento. E eu queria perguntar para a senhora, por que é importante para a senhora, para o seu povo, para as pessoas do povo Lanawa, ser identificado como Lanawa?

Na verdade, nós fomos chamados de mentirosos, nós fomos discriminados, desrespeitados, por isso, por nós dizer que nós éramos Lanawa.” Da onde veio? Quem são vocês?”. Não existe, ninguém reconhece, ninguém conhece. Então, isso fez com que a gente lutasse muito, para que nós fôssemos reconhecidos. E também, em honra ao nosso avô, João Arino Soares e Claudina de Souza Soares, que nos ensinou a respeitar a etnia, a respeitar os Cariúas (não indígenas), como ela falava, e a respeitar todos. Então, a minha luta é para que nós sejamos respeitados, respeitados, ouvidos, dentro daquilo que nós somos, realmente nós somos, o povo Lanawa.

Amazônia Real – E para a senhora, por que é importante o IBGE ter reconhecido? 

Porque a gente está tendo essa conversa aqui, depois que o IBGE reconheceu vários novos povos, eles usaram esse termo, novos povos e novas mães. Por que é importante para os Lanawas, para a senhora, que o IBGE faça esse reconhecimento? Ah, aí é motivo de alegria, de felicidade, porque aí nós não somos mais mentirosos, nós não somos mais discriminados, agora nós passamos a ser respeitados, porque é uma instituição que reconheceu vários povos, novos povos, novas línguas. Então, durante 15 anos de luta para o reconhecimento, então só agora, em 2024, 2025, que nós fomos reconhecidos pelo IBGE. Então, isso trouxe para nós motivo de alegria, de felicidade, e provar para os Cariúas, para os brancos, que eu não estava mentindo. Eu, como liderança do povo Lanawa, reconhecida pelo meu povo, jamais ia mentir por uma coisa tão importante, que é o resgate da nossa cultura, e dizer que realmente nós existimos, assim como os Barés, assim como os Baniwas, assim como os Tikuna, assim como vários e vários povos, nós existimos. Claro, somos povos, somos poucos, mas nós existimos, estamos aqui.

Amazônia Real – Certo, eu queria que a senhora falasse agora para mim, um pouquinho, lá do seu território originário, a senhora falou que é no Rio Demini, e que parte do Rio Demini tem um nome? ainda tem população Lanawa lá? Eles se reconhecem como Lanawa? E também, como é que está a situação por lá? 

Isso também é muito importante. O Rio Demini, ele fica entre o Rio Aracá e o Rio Demini, nós chamamos de Aracá, quem sobe esquerdo, e Rio Demini direito. Na nossa comunidade, ela já foi uma comunidade, tipo assim, que a gente saiu já há muito tempo, nós temos história do porquê a gente saiu. A gente saiu por questão de enfermidade, a minha mãe era uma pessoa muito doentia, assim que ela chegava lá, ela adoecia, e só faltava levar vela na mão, como dizem os nossos antepassados. Então, islo nosso sítio, a nossa comunidade, a nossa localidade, a nossa comunidade era chamada, e é chamada de Jalawaka, que na língua do nosso povo significa cachorro brabo. Então, o sítio, a comunidade, ela existe, a terra está lá, reconhecida pela FUNAI, mas a minha irmã voltou, ela já está com seis anos que ela voltou para a nossa terra, e hoje está muito bonito o sítio dela, ela e sua família, com nora, com filhos, e a tendência é crescer mais, logo, logo, meu primo Anildo vai estar lá morando, então, isso significa que a comunidade vai voltar a viver, voltar a crescer. Isso para nós é importante, não deixar a comunidade, não deixar nossa terra só. A nossa terra, ela se tornou uma terra muito linda, muito bonita, na questão que está nata, ela voltou a ser nata, a natureza cuidou para nós, como nós cuidamos da natureza, a natureza também cuidou da nossa terrinha para nós, e é isso.

Amazônia Real –  Como é que é a língua dos Lanawa? A senhora tem algum conhecimento, ainda é falada? Ou tem alguns termos, tem alguma coisa registrada sobre a questão da língua? 

Quando eu tinha 7 anos de idade, eu lembro que um senhor antropólogo, hoje já está velhinho, chamado Henrique Ramírez, ele fez a gramática da nossa língua, só que o nosso livro do povo não está, não fala em nenhum momento do povo Lanawa, porque foi extinto, então Henrique Ramírez colocou, pela história do meu avô e da minha avó, colocou como povo Ciriano e Bafuano. Então a língua Lanawa está na gramática no livro, mas não foi reconhecida como Lanawa porque nós éramos extintos, então nós ainda vamos continuar brigando, lutando muito para onde encaixa a língua Lanawa, para que nossos filhos, nossos netos, passem a falar a língua Lanawa, apesar de que Lawanne, Artur (indígenas da aldeia), já falam um pouco, Adriane, minha filha, já falam um pouco a língua Lanawa. Mas o nosso sonho é que a gente possa ver as nossas crianças do povo Lanawa falando sem ter vergonha, sem ter discriminação e sem ter ninguém insultando. Então isso para nós é motivo de alegria, ver as nossas crianças falarem a língua materna do povo Lanawa. Então a nossa língua, no livro que se encontra aí na mídia, dos Bafuanos, então a gente ainda vamos lutar muito para que essa língua seja reconhecida e nós possamos aprender integral na nossa fala. Nós estamos com o processo de resgate da cultura do nosso povo. 

Amazônia RealCacica, nossa última pergunta para a senhora é para saber agora do presente, como está sendo e quais são os próximos passos? Qual é o futuro dessa luta pelo reconhecimento, pela recuperação da cultura, por todas essas questões que atravessam tanto a identidade quanto o território?

Pois é, ainda continua sendo uma grande luta, uma grande batalha. 

Amazônia Real – Por quê? 

Porque como eu já falei, a gente trabalha com misto, com algumas etnias e cada etnia tem o seu diferencial, tem suas próprias línguas, seus próprios costumes. Então nós temos que saber lidar com essa realidade. Mas assim, hoje eu me sinto muito feliz por nós sermos reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, porque a COP30 todo mundo sabe que é internacional. E isso me deixa muito feliz, muito alegre. Mas o que me deixa mais feliz é que hoje a gente conseguiu parceiros, amigos com quem eles possam contar, gravar nossa história, contando de uma maneira para o mundo saber quem nós somos, que nós existimos. E acabar definitivamente com a discriminação, com a falta de respeito. Isso para nós é muito importante. A importância das nossas crianças não terem vergonha de saber pintar o seu rosto, nadar, flechar. O resgate dessa cultura nossa, isto traz para nós hoje uma maior felicidade, alegria da nossa vida sobre isso, certo? 

Amazônia Real – Cacica, muito obrigado pelos seus conhecimentos, por essa entrevista e também para tentar ajudar a contar essa história. 

Assim, olha, pela primeira vez eu quero agradecer. Quero agradecer por ter conhecido pessoas que acreditam no nosso trabalho, que acreditam na verdade, que acreditam que o futuro depende de cada um de nós. A união faz a força, né? Então isso me deixa muito feliz de ter o Rafael, de ter a Amazônia Real conosco. Isso para mim é motivo de alegria, de felicidade.

A cacica Alvanira Soare observa a flora e a fauna de uma área arborizada na aldeia de Maku-Itá, na região de Anavilhanas, no Amazonas, (Foto: Raphael Alves/VII Foundation/Amazônia Real).

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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