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ToggleA Terra nunca está em silêncio.
Mesmo na ausência de terremotos ou grandes eventos naturais, instrumentos científicos registram uma vibração constante, quase imperceptível. São oscilações de baixíssima frequência (entre 2,9 e 4,5 milihertz), cerca de 10 mil vezes abaixo do que o ouvido humano consegue captar.
Nós não ouvimos, mas o planeta vibra. Esse fenômeno, conhecido como “zunido da Terra” (The Hum), intriga cientistas há décadas. Estudos apontam que uma de suas principais origens está nos oceanos. Ainda assim, não há consenso definitivo. E talvez seja justamente aí que a questão se torna mais interessante.
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O zunido também aparece em relatos humanos. Algumas pessoas descrevem ouvir uma vibração contínua, grave, como um motor distante que nunca se afasta completamente. Outras nunca ouviram nada.
Ao longo dos anos, diferentes hipóteses tentaram explicar o fenômeno: desde ventiladores industriais e redes elétricas até sons emitidos por peixes ou turbulências atmosféricas. Nenhuma delas conseguiu encerrar o debate, fazendo o “Hum” permanecer suspenso em um território ambíguo entre ciência e percepção, entre medição e imaginação.
Um território que, curiosamente, nos é bastante familiar. Por muito tempo, nossa relação com o conhecimento foi guiada pela tentativa de eliminar incertezas. Medir, classificar, prever. Transformar o mundo em algo compreensível e, portanto, controlável. Nesse processo, o mistério deixou de ser visto como parte da realidade e passou a ser tratado como uma falha a ser corrigida.
Mas o mistério não é um erro do mundo. Ele é uma de suas condições.
O oceano como origem
Se a Terra vibra, o oceano é um de seus motores invisíveis. Mais de 80% do oceano permanece inexplorado. Correntes percorrem grandes distâncias sem que possamos vê-las, ondas interagem em profundidades que não alcançamos e pressões moldam paisagens no escuro.
É nesse ambiente que parte do “zunido” pode nascer: do encontro entre água e fundo oceânico, da transferência constante de energia que, mesmo imperceptível, faz com que a própria estrutura do planeta entre em ressonância.
O oceano, nesse sentido, funciona como espelho. Assim como ele, também somos atravessados por movimentos que não conseguimos nomear completamente. Dinâmicas internas que escapam à lógica linear.

Muitas travessias
Foi durante uma travessia pelo Oceano Atlântico que esse tema deixou de ser apenas conceito e passou a ser experiência.
Como oceanógrafa e comunicadora científica, tive a oportunidade de fazer parte da expedição Voz dos Oceanos, iniciativa que concluiu uma volta ao mundo em novembro de 2025, e que se dedicou a documentar o impacto humano no oceano – tanto os processos de degradação quanto as iniciativas de conservação. Mas, com o passar dos dias, essa lógica se inverteu.
Durante quase um mês no mar, navegando entre a África e o Brasil, o tempo deixou de ser medido por compromissos e passou a ser percebido pela luz, pelo vento, pelo estado do mar. Dias e noites se confundem e a noção de controle diminui. Lá fora, você sente o mundo atravessando o seu corpo. Não é só você observando o oceano, é o oceano te atravessando também.
Diante da vastidão e da força do mar, torna-se evidente que cruzar um oceano nunca é apenas um deslocamento físico, é também uma travessia interna. E é nesse espaço que o “zunido” deixa de ser apenas um fenômeno geofísico e passa a operar como metáfora. O interesse pelo “som da terra”, algo visceral, algo que nos compõe, mas que nem sempre conseguimos traduzir, é algo que sempre existirá tanto na ciência quanto em nossas buscas internas. Ele aponta para uma dimensão de nós mesmos que permanece em aberto, que resiste à definição. E talvez seja justamente por isso que continua nos movendo: porque algumas perguntas não existem para serem respondidas, mas para serem habitadas.
Foi nesse contexto que nasceu o documentário “The Hum”, um filme construído em colaboração com a diretora Laís Sambugaro que deseja explorar esse lugar onde os universos externos e internos se encontram. A partir de imagens captadas durante a travessia pelo Atlântico e na cidade de São Paulo, o filme navega pela tensão entre o ruído incessante da cidade e o silêncio curativo do oceano aberto, entregando uma exploração íntima da escuta profunda, do sentimento de pertencimento e do fio invisível que nos conecta à Terra. É também, de certa forma, uma ode ao espaço onde essa escuta se tornou possível: o oceano.
Escolhemos fazer o filme de modo analógico, gravado em 16mm e em super8, para aproximar ainda mais o ritmo da travessia e contrastar a aceleração digital que a cada dia mais nos impede de sustentar questões absolutamente humanas.
Um Convite
Em um momento histórico marcado por crises ambientais, avanços tecnológicos e por uma crescente sensação de desconexão, o filme propõe não somente investigar o “hum”, mas – especialmente – a capacidade de escutar sem exigir conclusão. E, no fim, talvez seja isso que esteja em jogo:
Não apenas compreender o mundo, mas reaprender a fazer parte dele.
Esse é um convite para escutar o zunido da Terra. Um convite para honrar os mistérios do mundo.
The Hum estará disponível a partir do dia 22 de abril – Dia da Terra, nas redes da Earthrise Studio.
Leia mais sobre o “Zunido”:
Tuning In the Planet’s Hum Science
First Observation of the Earth’s Permanent FreeOscillations on Ocean Bottom Seismometers American Geophysical Union
The Earth Is Humming – Here’s What It Means National Geographic
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
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