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ToggleFalta de água, banheiro e peixes pode complicar a conservação
Comunidades enfrentam precariedades e pressões externas enquanto mantêm ambientes e modos de vida tradicionais
Reportagem
Aldem Bourscheit
Discurso e práticas sobre conservação mudam de escala quando se adentra a Reserva Extrativista de Cassurubá. Lá, deixamos o horizonte largo do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e acessamos o território dos mangues, caranguejos, da pequena escola e das gentes cujo esforço diário também aquece economias.
O estudo capitaneado pelo WWF Brasil mostra que Cassurubá respondeu por 6.923 empregos e R$ 120 milhões em renda em 2024, considerando pesca, turismo e o seguro-defeso nos municípios de Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa – um “salário temporário” para evitar capturas enquanto peixes e outros animais procriam.
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A atividade pesqueira responde pela grande maioria da renda e dos empregos. O turismo ainda tem muito espaço para crescer e pode reduzir as disparidades entre os municípios. Afinal, enquanto Alcobaça aparece com 2.885 empregos e R$ 49,8 milhões, Nova Viçosa é listada com 1.443 empregos e R$ 24 milhões.
Os números ajudam a dimensionar a importância regional, mas a realidade nas comunidades traz outras camadas. O principal motor do extrativismo é hoje o caranguejo. Só de Caravelas, saem 15 toneladas semanais, sobretudo a mercados do Espírito Santo, com atravessadores comprando diretamente nas comunidades.
Tal volume, porém, vem acompanhado de sinais de pressão crescente. O uso de redinhas nas tocas – que capturam de jovens a fêmeas – reduziu o tamanho dos animais capturados. A oferta de peixes como tainha, paru e robalo também caiu, junto ao aumento de barcos e pressões externas à reserva.
O problema não passa despercebido. Moradores e o ICMBio denunciam que pescadores e catadores “de fora” não respeitam o defeso, além do crescimento de embarcações do Espírito Santo após o desastre com rejeitos de mineração em Mariana, em 2015.
Nas comunidades, há efeitos imediatos. “Há barcos pegando toneladas de peixe, ameaçando nossa economia e segurança alimentar”, afirma a pescadora e marisqueira Joelma Pinheiro da Silva, coordenadora do grupo Mulheres em Ação, na Barra de Caravelas. “Dependemos dos recursos naturais”, resume.

Diante desse cenário, a resposta passa por entender melhor o problema. Coordenador regional do ICMBio, Kleber de Oliveira destaca que o órgão quer usar o dinheiro de um acordo de compensação ligado àquela tragédia para acompanhar mais de perto a situação nas unidades de conservação.
“Isso permitirá sair de um diagnóstico genérico de que ‘o peixe diminuiu’ e entrar no detalhe das populações de quais espécies estão mesmo diminuindo, em que ritmo, se a redução é crônica ou pontual e que instrumentos de manejo podem funcionar em cada caso”, detalha.
Depois, poderão ser firmados novos acordos comunitários definindo áreas e períodos sem pesca ou coleta, aumento da malha das redes, tamanho mínimo do pescado e maior proteção de berçários. “Nada disso faz sentido sem dados de longo prazo e sem a comunidade na mesa”, diz Oliveira.
Ele reforça que outros fatores que derrubam a produtividade e a qualidade ambiental das reservas igualmente vêm de fora, como dragagem de rios e praias, destruição de manguezais, poluição dos rios, carcinicultura e introdução de espécies exóticas de animais e plantas.
Ou seja, em muitos casos os impactos escapam ao controle local. “É injusto que frequentemente sobra para os moradores a conta de um problema gerado em outra escala”, constata.

Básico é o mínimo
É neste cenário que o turismo de base comunitária surge como promessa e impasse. A liderança na comunidade Miringaba, Rita da Conceição Batista, aponta que o potencial da culinária à vivência local esbarra no básico. “Como receberemos as pessoas aqui se falta água, falta banheiro”, desabafa.
A precariedade fez a comunidade recuar do turismo em vez de receber mal. O problema, como ela observa, não dependeria de alto investimento. “Se tivermos apoio para essa estrutura mínima, comida, pescado, experiência e acolhimento a comunidade consegue oferecer”.

Ao mesmo tempo, há outro movimento silencioso e importante na região. Batista conta que hoje a comunidade tem sete famílias e que há gente querendo voltar da cidade para lá, num retorno estimulado pela chegada da energia solar e pela expectativa de estruturação da reserva.
Todavia, o que acontece nos manguezais não fica só ali e ajuda a explicar o papel mais amplo de Abrolhos, na prática ligado a uma dinâmica que atravessa as fronteiras nacionais e os oceanos.
*Foto da capa: Eduardo Melo / Instituto Baleia Jubarte / WWF-Brasil
Esta reportagem de ((o))eco foi produzida com apoio da WWF Brasil.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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