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As carroças em Portugal

As carroças em Portugal

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – [email protected]

Uma vasta área de Portugal continental encontra-se desde há séculos preparada para o aproveitamento dos solos no trabalho agrícola. Na região Norte, onde predominam as terras altas e montanhas propícias ao uso do carro de bois, o parcelamento da terra assume particular relevo, sendo a policultura a sua exploração tradicional.

A região sul, das terras baixas e planas, tem nas searas as melhores condições para produção das grandes culturas do trigo e do centeio. É no sul, nas terras do Alentejo e do Algarve, onde prolifera uma grande variedade de modelos de carroças que são, com toda a justiça, consideradas as mais lindas carroças de Portugal pelas formas e pela rica e cuidada decoração que lhes emprestam os artistas populares.

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As contradições geográficas do território continental português correspondem iguais contradições nas características de construção das carroças ou carros e carrinhas, como são designados no Alentejo e no Algarve.

No entanto, a função das carroças e dos carros submete-se, em todas as ocasiões, ao transporte de produtos agrícolas ou de trabalhadores rurais. Quem percorre os velhos caminhos de norte a sul de Portugal continental, pode ver ainda algumas carroças – relíquias vivas que mantêm as suas características típicas – no labor agrícola do cotidiano. Permanecem em uso, parecendo subestimar os aparentes benefícios e vantagens das máquinas modernas, produto da nova ciência tecnológica.

Os abegões que permanecem ainda em atividade, emprestam a estas carroças a força que o próprio tempo não consegue gastar. No Algarve, podemos ver ainda hoje, com certa frequência, os carros, ou carrinhos coloridos, serpenteando os caminhos poeirentos das aldeias do interior, ou ainda nas feiras semanais carregados de frescos melões e sumarentas melancias, que são o regalo do turista, ou estacionados junto das casas comerciais, restaurantes ou lugares de turismo para emprestar ao ambiente um certo ar de folclore.

De forma e cores diferentes, as carroças de Portugal foram objeto de lindos postais coloridos que percorreram o mundo. No entanto, associado a este transporte, predominava o conceito de país pobre e subdesenvolvido. Nesse tempo era assim: tudo andava a velocidade das carroças!

Apesar disso, por que é que não sabemos assumir o nosso passado? O futuro de um concelho, de uma região ou de um país, não necessita de fazer passar pelo esquecimento da sua história ou pela destruição do acervo que outrora lhe deu vida e muito contribuiu para o progresso.

Chegados, então, ao limiar do século XXI, atravessando uma época que se pretende preservar os valores etnográficos nacionais, o que é que temos feito para perpetuar tão ricos e únicos modelos – carroças e carros de bois – que, em grande parte, chegaram até aos nossos dias?

As carroças portuguesas são hoje peças riquíssimas da arqueologia agrícolas dignas de museu. Guardam os museus municipais, nas suas nobres instalações, pelo menos um exemplar de cada modelo das carroças que deram vida e vigor ao seu concelho?

Mal grado, veem-se hoje carroças atípicas e incaracterísticas, um pouco por todo o lado. São normalmente puxadas por um muar, têm dois varais em tubo de ferro que ligam a uma caixa em chapa de ferro. Umas usam o eixo simples e outras são construídas com eixo, molas e rodado de automóvel onde assenta a caixa. Os taipais, também, em chapa de ferro, são inteiros os laterais e o dianteiro e amovível o da retaguarda. São pintadas com uma tinta de cor castanha que as protege da ferrugem. Estas carroças são pequenas e requerem pouca manutenção.

No Tempo dos Cavalos

Houve uma época em Manaus de dois únicos tipos de condução: o bonde e o cavalo. Havia também alguns automóveis, que rodavam pela causando admiração aos olhos de uma população ainda muito pequena e tranquila, mas, não eram de transporte do povo.

O fino era mesmo andar a pé ou a cavalo, que estava em todas, com todos e para todos os fins. O cavalo era a grande força de tração e atração. O bonde era a condução mais popular, único coletivo que havia e que tinha itinerário imutável sobre trilhos de aço fixados sobre dormentes de madeira que cortavam certas ruas de Manaus.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

A Fábrica de Cerveja, o Bilhares, a Saudade, o Remédios, a Avenida Circular, o Entrocamento, Flores, Cachoeirinha, eram populares. O cavalo, além de andar em qualquer buraco, parava em qualquer lugar, e em todos os becos e vielas da cidade e a sua manutenção era barata. Era tão importante na vida diária da cidade que, em torno dele, havia várias profissões, como, operários especializados em oficinas espalhadas em todos os pontos da cidade e com muitos artífices trabalhando intensamente no ofício para satisfazer as necessidades permanentes dessas alimárias.

Entre as profissões satélites mais importantes ligadas ao cavalo, destacava-se a do carroceiro, isto é do construtor de carroças, aquele que fazia o veículo, com suas duas imensas rodas de madeira e o entregava ao cocheiro, que era realmente o proprietário, o homem que conduzia a carroça e que ganhava dinheiro com o seu trabalho. Depois vinha a dos correiros, que eram os profissionais portugueses que faziam os arreios, as selas, as rédeas e toda parafernália a confeccionada em couro de boi, colocada sobre o animal para segurar o veículo que deveria puxar, ou para selas de cavaleiro também bastante usadas naquela época.

Houve muitas oficinas construtoras de carroças de rodas de madeira em Manaus, entre elas uma que ficava na Rua Barroso, proximidades da Rua Saldanha Marinho e outra na esquina das ruas Silva Ramos com a Ferreira Pena. A última oficina que construiu carroças em Manaus pertenceu a um senhor apelido de Faísca, português que veio para Manaus muito jovem, já trazendo essa profissão de carroceiro de sua terra em além-mar.

A oficina do Faísca ficava na Rua Saldanha Marinho n.° 656, na altura onde desemboca a Rua Costa Azevedo, isto é, bem frente. Ali foram construídas muitas carroças que rodaram por muitos anos as ruas da cidade e ajudaram na sua construção, desde os paralelepípedos para o seu revestimento, conduzindo pedras, areia, cal, cimento, madeira, barro, palha, telhas tipo marselha, telhas de canal eu próprio progresso que depois a eliminou. Era o veículo-mater da cidade, sem a qual ela não se desenvolveria.

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Os proprietários dessas carroças eram todos portugueses, que para cá vieram tentar a vida no serviço de carreto. Muitos enriqueceram e tornaram-se grandes proprietários de estâncias residências: outros continuaram pobres até morrer. O cocheiro Horácio de Souza Braz, que instalou a sua cocheira na Avenida João Coelho, mais ou menos em frente onde está instalado o edifício das Casas da Banha, possuía 10 caroças, ainda vive com mais de oitenta anos, lucido, internado no Asilo Dr. Thomas, na Vila Municipal.

Carroças
Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Paralelamente ao carroceiro, a profissão de corrieiros era de extrema importância para quem tinha cavalo. Corrieiro era justamente o artífice que fabricava os arreios de couro de boi, seja para um cavalo elegante, que passeava ereto sobre seu animal aos domingos pelas ruas principais de Manaus, exibindo o seu visual, ou para um carroceiro, ou melhor para um cocheiro que puxava suado e pachorrentamente o seu veículo, com muito peso de mercadoria de várias qualidades, muitas vezes empurrando juntamente com o animal a carroça em ladeiras íngremes e cheias de buracos.

Havia muitos oficiais experimentados que trabalhavam em sua própria casa, onde mantinham a oficina artesanal, sem entretanto, ter porta aberta ao publico. Esses portugueses eram procurados para encomendas de acordo. Esses portugueses eram procurados para encomendas de acordo com o gosto de cada um, até para selas caríssimas, cravejadas de botoes dourados e com desenhos expressivos feitos a bico de fogo pelos exímios artesãos.

A única casa comercial em Manaus que vendia, consertava, exportava para o interior e fabricava arreios, estava instalada a Rua Barroso, entre as ruas Henrique Martins e 24 de Maio, lado direito de quem se dirige ao Teatro Amazonas, em frente a um edifício onde está funcionando uma agência do BEA. Essa casa trabalhou até mais ou menos 1953.

Paralelamente aos construtores de carroças e aos corrieiros, figuravam os ferradores de animais. Eram homens muito hábeis na colocação de ferraduras, muito hábeis na colocação de ferraduras fixadas com cravos de ferro cujas pontas, depois de introduzidas nos cascos, tinham as extremidades dobradas sobre as patas. Os ferradores tinham um jeito muito especial no exercício da profissão. Dobravam a pata do quadrupede para trás, escoravam-na sobre um dos joelhos e procediam a fixação da ferradura, com o auxílio do martelo, pregando-se com pequenos cravos de ferro importados de São Paulo.

As ferraduras eram feitas em oficinas de ferreiros, instaladas em pequenos ambientes. As ferramentas eram construídas apenas de uma forja, uma bigorna, marretas, um pegador de ferro em brasa de forja e alguns outros pequenos instrumentos indispensáveis ao auxílio desse trabalho artesanal. Como era grande a população de cavalos, burros e jumentos na cidade, os ferreiros sempre faziam dúzias de ferraduras para os proprietários de animais.

Os maiores proprietários de quadrupedes em Manaus eram o 27.° Batalhão de Caçadores (27° BC), cuja cocheira ficava instalada na Invernada, no fim da Rua Coronel Salgado, limitando-se com um dos braços do igarapé de São Raimundo. Ali eram tratados dezenas de cavalos, burros e jumentos de propriedade do Ministério da Guerra, para servirem aos oficiais e puxarem as carroças e vários outros instrumentos e armas de guerra do batalhão.

O 27.°, BC tinha os seus tratadores, ferradores e ferreiros que fabricavam as ferraduras para sua manada. Muitos soldados que aprenderam a tratar de cavalos ali, ao completar o serviço militar, tinam uma profissão certa para ganhar a vida, trabalhando como ferreiro, ferrador e tratador de cavalos. Muitos ingressavam logo depois no Batalhão da Polícia Militar do Amazonas, cuja, estrebaria ficava a Rua Dr. Machado, trecho com a Rua Tefé, onde está construído hoje o quartel da Rádio Patrulha.

A Polícia Militar possuía mais de uma centena de animais no seu Batalhão de Cavalaria, que muito orgulheceu aquela tradicional corporação durante longos anos, mantendo a distância da cidade depois das 21horas.

O trotar dos cascos dos cavalos da Cavalaria da Polícia Militar de Manaus era um som conhecido da população e uma segurança para a cidade. Fazia gosto a gente ver elegantes soldados montados em seus cavalos muito tratados, pelos reluzentes, sela bem cuidada, engraxada, perneiras negras brilhantes, farda engomada e, ao lado, pronta para ser desembainhada a qualquer momento a espada, símbolo do respeito as leis e segurança pública, numa época em que não havia crimes e o único trabalho da polícia era manter a cidade livre dos bagunceiros e beberrões.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

O parque amazonense era, todas as tardes de domingo, um lugar de concentração de cavalos de raça. Ali, na curva da Rua Belém, havia as concorridas disputas dos páreos que levaram para o parque as mais elegantes jovens da sociedade de Manaus, onde iam torcer pelo seu campeão. Aí, por volta de 1935 ainda havia muitos ingleses em Manaus, apesar de a borracha não oferecer mais lucros e cair cada vez mais de preço.

Sua permanência aqui devia-se, ao lado de estarem encerrando suas atividades comerciais. Muitos foram os criadores ingleses que importaram puro sangue da Argentina e mesmo de Londres, fazendo com que, aqui se desenvolvesse uma certa técnica no tratamento de cavalos de raça. Entretanto, o preço sempre mais baixo da borracha no mercado internacional, determinou o desinteresse dos ingleses pela cidade, a sua consequente saída da capital e o fechamento de muitas firmas comerciais que mantinham negócios com empresas importadoras, principalmente da Inglaterra. Foi o fim do Jóquei Clube de Manaus e do interesse bretão no Amazonas.

Alguns cavalos de corrida foram adquiridos por cocheiros lusitanos e terminaram seus dias puxando carroças nas ruas da cidade. A grande massa de cavalos proletários, entretanto, era a dos carvoeiros que somava mais de mil animais e era a ocupação mais importante que existia na época, pois era ele o responsável pela distribuição diária do combustível indispensável a cozinha do amazonense, que era o carvão vegetal.

Todas as profissões satélites ligadas ao cavalo serviam principalmente aos carvoeiros que significavam a maioria absoluta – o sangue da cidade e, estavam em todos os lugares ao mesmo tempo. A proliferação das dezenas de extensas hortas cultivadas pelos portugueses, deve-se, principalmente, a fatura e ao preço barato de estrume que havia na época. Todos os proprietários de animais possuíam uma estrebaria que produzia permanentemente forte adubo que, depois de algum tempo, era vendido por um preço baratíssimo. O estrume produzido pelos animais sobre o capim do chão da estrebaria era o único fertilizante usado na época, para todo o tipo de verdura.

Muitos carroceiros faziam o transporte de estrume, de preferência depois do almoço, ou a noitinha, quando o movimento era muito pequeno na cidade. Andavam sempre com uma montanha de estrume, cujo cheiro, invadia todo o ambiente. Esse material era guardado em depósito especial numa área da horta, de onde era retirado a medida que ia sendo utilizado na construção de novos canteiros.

Fonte: ANDRADE, Moacir. Manaus: ruas fachadas e varandas. Manaus, Humberto Calderaro, 1985. 276 p.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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