Neste sábado (14), Dia Internacional de Lutas Contra as Barragens, Pelos Rios, Pela Água e Pela Vida, se denuncia o impacto das barragens nos modos de vida humanos e mais que humanos. Dentre os papéis do Jornalismo, o resgate da memória sobre os acontecimentos que não devem se repetir, como o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, que transformou o Rio Doce em um canal de rejeitos da mineração, colabora para evidenciar essa efeméride. O desastre-crime deixou marcas permanentes na água, no ecossistema, na vida cultural, econômica, social e psicológica dos que sobrevivem. Passados mais de dez anos, as populações atingidas ainda relatam a continuidade desse desastre, enquanto outras temem pelo rompimento de outras tantas barragens com alto risco e potencial de dano – o Relatório de Segurança de Barragens 2024/2025, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, identificou 241 barragens prioritárias cujos responsáveis não cumpriram todos os requisitos de segurança exigidos na Política Nacional de Segurança de Barragens.
O livro “É como perder um ente querido: histórias de rio e de mar das populações atingidas pelo desastre da Samarco”, publicado pela editora Hucitec e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, visa chamar atenção aos danos e alterações no cotidiano das populações atingidas pelo desastre. A obra, que tem entre os autores, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), traz relatos de moradores de Minas Gerais e Espírito Santo, afetados pelo rompimento da barragem de Fundão, considerado o maior desastre ambiental do Brasil e um dos maiores do mundo.
Com o intuito de visibilizar as vozes de quem viveu – e ainda vive – o desastre, o livro organiza os depoimentos dos atingidos em: rompimento, risco, trauma, transformação, ruína, contaminação, adoecer, desterritorializar, injustiça e espera. Ao tratar do momento que recebeu a notícia do rompimento, uma pessoa conta a surpresa sentida com o tamanho do estrago, e menciona a carência de informação e orientação sentida:
“Nós não sabíamos que uma barragem da Vale S.A, uma vez rompida, destruiria toda uma vida, tanto do povo quanto do rio e animais, acabando com nosso vale. Nunca tinha ouvido falar que a barragem poderia destruir tanto! Na escola nunca falaram que isso era possível. Os governantes escondem do povo essa ameaça”. (p.10)
A falta de conhecimento do risco atravessa os relatos dos atingidos pelo crime ambiental, e destacam a necessidade da comunicação para a redução de riscos de desastres, que trabalham para prevenir consequências devastadoras. Segundo os relatos apresentados no livro, nem as pessoas que moravam próximas à barragem, nem populações que estavam a mais de 600 km do local eram comunicadas pelas empresas operadoras (Samarco Mineração, Vale S.A e BHP Billiton) ou pelos governantes, sobre os riscos que corriam. Conforme é destacado pelos autores: “Os riscos da atividade minerária foram, assim, invisibilizados tanto antes quanto depois do desastre, já que atingidas e atingidos os desconheciam de antemão e, posteriormente, não receberam instruções sobre como lidar com a chegada da lama de rejeitos”.
De acordo com a obra, não houve comunicado sobre a dimensão do desastre, possíveis rotas do rejeito, nem sobre a toxicidade da lama. Muitas pessoas atingidas relataram terem se informado apenas pela grande mídia nacional e redes sociais, sem comunicadores ou órgãos municipais e regionais devidamente preparados para lidar com uma situação de crise. Até a noção do que é ser atingido foi uma informação nova para os moradores. Para muitos, atingido era apenas quem havia tido lama chegar até sua porta de casa.
Posteriormente, os impactos sentidos foram devastadores e multidimensionais, afetando a vida de aproximadamente 2,2 milhões de pessoas ao longo da Bacia do Rio Doce. É possível observar que o desastre não se encerra com o retorno das atividades. Esse desastre-crime acarretou um processo traumático que se prolonga no tempo: perdas humanas, materiais, insegurança hídrica e alimentar, contaminação, adoecimento físico e mental, perda da identidade ribeirinha e cultural com a perda do contato com o rio, e uma insegurança permanente quanto ao futuro.
Na análise “Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração”, de Karina Gomes Barbosa, publicada no Observatório de Jornalismo Ambiental, a autora observa a cobertura da mídia sobre o crime-desastre após dez anos do acontecimento. Barbosa destaca a ausência de uma perspectiva sistêmica que relacione causa e efeito, que conecte a exploração minerária predatória com a emergência climática. Também, como a reparação pública de empresas como a Vale foram “compradas” pelo jornalismo, que as apresentam como comprometidas com a mineração verde. Segundo ela, enquanto isso, comunidades como Antônio Pereira, Águas Claras e Socorro continuam a ser ameaçadas pela poluição, terrorismo de barragens, chantagens financeiras e violências.
É preciso questionar o silêncio propagado ao não reportar suficientemente sobre os riscos da mineração. As consequências desse desastre ainda estão presentes, e novos planos de exploração continuam a surgir no mesmo e em outros territórios.
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