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Vila Céu do Mapiá, a comunidade e o Santo Daime na Amazônia

Vila Céu do Mapiá, a comunidade e o Santo Daime na Amazônia

Localizada próxima de Pauini, município do Amazonas, comunidade vive na base da doutrina espiritual do Santo Daime. Foto: santodaime.org

Localizada em uma das mais preservadas áreas da Amazônia ocidental brasileira, segundo a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Socioambiental, a Vila Céu do Mapiá está localizada no interior do estado do Amazonas, em uma área de floresta densa às margens do rio Purus, próximo ao município de Pauini (distante 915 quilômetros de Manaus).

O território é conhecido por abrigar uma população fixa formada por famílias de diferentes regiões do Brasil e também por visitantes estrangeiros que chegam ao local em períodos específicos do ano.

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O acesso à comunidade ocorre predominantemente por via fluvial e aérea, o que reforça o isolamento geográfico da localidade em relação aos grandes centros urbanos da região Norte. A Vila Céu do Mapiá se consolidou como um núcleo comunitário estruturado, com moradias, espaços coletivos, áreas de cultivo e locais destinados a atividades religiosas, educacionais e administrativas.

O Portal Amazônia conversou com Ronaldo Pereira, um dos fundadores, para entender como a comunidade surgiu e como ela vive diante de tantas ameaças ao meio ambiente e as comunidades tradicionais.

Neste contexto, é possível entender também como dentro de uma doutrina religiosa, essa comunidade convive em prol de um espaço sustentável.

Surgimento da Vila Mapiá

O Mapiá passou a ganhar maior visibilidade a partir da segunda metade do século XX, quando a área foi ocupada de forma mais organizada por seguidores de práticas religiosas ligadas ao uso ritualístico da Ayahuasca.

Mas tudo começou na décade de 80, quando Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, dentro da manifestação religiosa do Santo Daime teve visões e afirmava ter recebido um “chamado da floresta” para sair dos arredores de Rio Branco, no Acre.

Depois de realizar experiências, fundou a vila “Céu do Mapiá”, em uma localidade afastada da civilização em que são necessários dois dias de viagem em embarcações conhecidas como “voadeiras“.

Leia também: Plantas utilizadas no chá de ayahuasca são estudadas por pesquisadores

Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, fundador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Ronaldo Pereira, ainda criança, acompanhou a fundação da Vila Céu do Mapiá e compartilhou com o Portal Amazônia suas impressões sobre o início da construção dessa comunidade e sua consolidação.

“Para começar a falar sobre a Vila Céu do Mapiá é necessário voltar um tempo atrás. Em 1975, quando a Colônia Cinco Mil, também fundada pelo padrinho em Rio Branco, já estava formada, vista e consolidada, o padrinho sentiu a necessidade de ir para a floresta para aprofundar os estudos. Daí chegou a Rio do Ouro, área de mata virgem, onde começou a abrir estradas, formando as colocações, mas apareceu um fazendeiro dizendo que era dono daquela terra. E o padrinho que não gostava de confusão procurou o Incra [Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária] que indicou o seringal Céu do Mapiá, que já foi habitada pelos indígenas Apurinãs”, explicou Ronaldo.

A partir de então, Ronaldo conta que padrinho Sebastião partiu rumo à área indicada, localizada em Pauini, no Amazonas. Inicialmente as dificuldades de acesso ao local eram grandes, mas a força dos discípulos foi fundamental para as primeiras instalações da comunidade, segundo ele.

“Nós começamos tudo do zero. Antes era tudo fechado, a floresta era bruta, começando cortando os paus, tudo que tinha pela frente, e aí a força comunitária foi o grande suporte para que tudo desse certo. A comunidade se ajudou, desde o mateiro, até a pesca, caça, setor de construção, agricultura, todos ajudaram, além do principal que é a igreja”, explicou o morador.

Discípulos do Santo Daime na Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Organização social

Ainda segundo Pereira, rapidamente, a notícia da fundação do Céu do Mapiá e sua ligação com o Santo Daime se espalhou e o local começou a receber visitas de discípulos das mais diversas origens, tornando-se um centro de peregrinação de adeptos da doutrina do Santo Daime. E então, com a criação da Floresta Nacional Purus, em 1990, a vila se tornou um tipo de “capital em meio à Floresta Amazônica”.

“O Mapiá sempre foi, desde o começo, esse local de cura, uma escola espiritual, tudo em convivência e harmonia com a natureza, sempre respeitando o meio ambiente e tratando a agricultura de forma subsistente. Aí ela foi crescendo, virou a Vila Céu do Mapiá, com bastante movimentação social, ambiental, turística e de cura”, frisou Ronaldo.

Vila Céu do Mapiá. Foto: AmaGaia

Assim, segundo o morador, a dinâmica social do Mapiá está baseada em regras comunitárias próprias, que orientam o uso do solo, a convivência entre moradores e a preservação ambiental. A floresta ao redor da vila é considerada parte fundamental do modo de vida local, sendo utilizada para agricultura de subsistência, coleta de frutos, manejo de plantas medicinais e proteção dos recursos naturais. O modelo adotado busca conciliar ocupação humana e conservação ambiental em uma região de difícil acesso.

Estrutura comunitária

Ao longo dos anos, a Vila Céu do Mapiá se tornou um ponto de referência para estudos acadêmicos, reportagens e pesquisas voltadas à antropologia, sociologia, meio ambiente e religiões amazônicas.

O nome Mapiá passou a ser associado a uma experiência comunitária singular dentro do contexto amazônico, marcada por uma organização social própria e pela relação direta com a floresta e os rios da região.

Vila Céu do Mapiá possui vários programas com serviços voltados à comunidade. Foto: Reprodução/AmaGaia

Com cerca de 600 moradores, a vila conta com diversas estruturas voltadas para a oferta de serviços à comunidade. A primeira, e talvez a mais importante delas, é a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal (ICEFLU), fundada pelo padrinho Sebastião, a instituição oficial que representa o Santo Daime.

A segunda estrutura mais importante é a Associação dos Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM), fundada em 1987, e que funciona como um centro administrativo e representante legal dos moradores que habitam o local.

Cozinha Geral da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/AmaGaia

As outras estruturas são:

  • Escola Cruzeiro do Céu – unidade escolar estadual que, juntamente com o Jardim de Infância Municipal Madrinha Rita, atende alunos da pré-escola até o ensino médio, além da educação para adultos;
  • Santa Casa de Cura – realiza trabalho de caridade para atendimento das pessoas da vida e do entorno da comunidade, abordagem espirita em atendimento de saúde;
  • Centro de Medicina da Floresta – desenvolve pesquisas na elaboração de remédios fitoterapicos e florais e atua na formação de jovens por meio dos saberes tradicionais;
  • Centro de Saúde – unidade básica de saúde construída formada comunitariamente e oferece serviços de odontologia e enfermaria;
  • Cooperativa Agroextrativista – principal articuladora da dimensão econômica da comunidade, com abastecimento de produtos e a comercialização do cacau nativo, considerado o carro chefe da instituição;
  • Jardim da Natureza – local onde artistas e artesãos estudam, trabalham e capacitam jovens para a produção de biojoias e peças artesanais a partir de aproveitamento dos recursos naturais da floresta;
  • Cozinha Geral – trabalha na produção e fornecimento de refeições para comunidade, durante os grandes eventos realizados na Vila;
  • Instituto de Desenvolvimento Ambiental – agência de desenvolvimento local que realiza e apoia ações de sustentabilidade;
  • Telecentro – unidade básica de saúde construída comunitariamente e atende os moradores com serviços de odontologia e enfermaria.

Além delas, existe a Casa de Música e o Centro de Cultura, Esporte e Lazer com diversas atividades voltadas para a comunidade.

Padrinho Sebastião na comunidade. Foto: Santodaime.org

Santo Daime

O movimento religioso do Santo Daime começou na Floresta Amazônica, nas primeiras décadas do século XX, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra, natural do Maranhão. A doutrina de cunho cristão e eclético reúne tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos originários como ayahuasca, o vinho das almas, e por ele denominado Santo Daime.

Discípulo do Mestre Irineu, padrinho Sebastião recebeu o dom de expandir o culto do Santo Daime por todo o país e além de suas fronteiras. O responsável pela criação da Vila Céu do Mapiá morreu em 20 de janeiro de 1990, no Rio de janeiro, onde se encontrava para se tratar de uma grave doença cardíaca que o acometera alguns anos antes.

Ronaldo Pereira, morador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Arquivo pessoal

Seu legado é até hoje mantido pelos filhos Alfredo e Waldete, responsáveis pela continuação de sua missão espiritual e de seu trabalho social e comunitário.

E a rotina da comunidade, segundo Ronaldo Pereira, segue voltada para o propósito de uma nova vida baseada na doutrina espiritual do Santo Daime, como uma alternativa de um modo de vivência sustentável em meio a floresta.

“A Vila do Mapiá tem dois propósitos: o primeiro do padrinho Sebastião de levar o povo para floresta e ensinar a sobreviver com o que tem lá. E o segundo é a questão espiritual, todo mundo que vai para lá tem que ter essa experiência. Eu digo que o Mapiá é um dos maiores laboratórios humanos do mundo”, conclui.

*Por Hector Muniz, com a colaboração de Dayson Valente

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Portal Amazônia e são de total responsabilidade do autor.
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