Vacinação no Vale do Javari está atrasada e indígenas denunciam que anciões estão morrendo por Covid-19

Vacinação no Vale do Javari está atrasada e indígenas denunciam que anciões estão morrendo por Covid-19 Por Amazonia Real

Desde novembro, cinco indígenas da aldeia Maronal morreram com suspeita de Covid-19; lideranças falam em atraso na aplicação da dose de reforço e pedem ajuda. (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real-2019)


Rio Branco  (AC) – Após um cenário de aparente tranquilidade no controle da pandemia da Covid-19 entre as populações indígenas da região amazônica, a doença voltou a representar uma ameaça a comunidades indígenas da Amazônia. Na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, fronteira com o Peru,  a imunização da terceira dose está atrasada e a vacinação das crianças com menos de 12 anos não foi iniciada. O Vale do Javari é o território com maior referência de povos de recente contato e de grupos isolados do país.

Em janeiro deste ano, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) chegou a emitir uma nota alertando para um surto gripal e casos Covid-19 nos territórios indígenas, denunciando falta de assistência técnica, medicamentos e EPIs. Em Roraima, explosões de casos de gripe levou o Conselho Indígena de Roraima a suspender suas atividades presenciais durante 15 dias em janeiro.

Na aldeia Maronal, na TI Vale do Javari, quatro anciãos do povo Marubo morreram entre novembro de 2021 e fevereiro deste ano com suspeita de Covid-19. A morte mais recente aconteceu no último sábado (19), com o falecimento de Luzia Marubo, de 99 anos, considerada a Marubo mais velha moradora da Maronal. Já há alguns dias ela apresentava sintomas de gripe. Por não haver testes nas aldeias, não é possível saber se ela contraiu Covid-19.  

No dia 4 deste mês, uma jovem da mesma aldeia também veio a óbito. Entre os idosos vítimas da doença está Alfredo Marubo, o Ivinimpapa, na língua nativa, de 84 anos, uma das mais importantes lideranças do povo. As outras vítimas são Zacarias Marubo, 83 anos, e Fernanda Joaquim Marubo, 82. 

“A Covid se alastrou para toda a região do Vale do Javari. Hoje a gente sofre com as consequências da Covid, principalmente com as sequelas para os mais idosos. A nossa aldeia está em momento de comoção. É uma morte atrás da outra. Para nós é uma situação bastante fora do normal. Por ser uma comunidade pequena, onde todo mundo se conhece, essas mortes abalam muito”, diz Manoel Chorimpa, presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário do Povo Marubo do Alto Rio Curuçá (Asdec), à Amazônia Real, nesta semana. “É uma situação muito triste para a nossa história.”

No último dia 11 a Asdec divulgou nota relatando preocupação com o avanço de casos suspeitos de Covid, e a morte de uma jovem ocorrida no começo do mês em hospital da capital Manaus. “Desde início de julho de 2021, encaminhamos ao DSEI, o programa local de atendimento aos idosos, justamente com as preocupações que hoje estamos vivendo com as sequências de óbitos”, diz trecho da nota.

O contágio entre os mais velhos é a principal preocupação para os Marubo por serem os mais vulneráveis a desenvolver quadros graves da doença, podendo levar à morte. O óbito dos anciãos também representa a perda dos conhecimentos tradicionais do povo Marubo. Para as populações indígenas, seus velhos e velhas são os guardiões de toda a memória ancestral transmitida de geração a geração pela oralidade.

“Nós temos pelo menos 15 anciãos em nossas comunidades. A morte de um por Covid acaba criando um efeito dominó, pois morre um atrás do outro. E eu posso afirmar que essa questão da Covid nas aldeias vai dizimar, principalmente, os velhos. Em relação aos cuidados por parte dos organismos oficiais, deixa muito a desejar. Apesar de termos feito apelos, a lentidão é muito grande”, diz Chorimpa. 

A TI Vale do Javari tem uma população estimada de seis mil indígenas pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Há pelo menos 16 grupos em isolamento voluntário, além de grupos de recente contato. Os primeiros casos de Covid-19 no território foram registrados em junho de 2020.

De acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde, o Dsei Vale do Javari registra 998 casos confirmados de Covid-19 e apenas 3 óbitos pela doença. Estes números, segundo as lideranças indígenas, são subnotificados, pois os que se deslocam frequentemente até a cidade, mesmo morando nas aldeias, não são contabilizados pelo órgão federal de saúde indígena, sem falar na falta de testes suficientes.. 

O levantamento mais recente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) registra 44.743 casos de Covid-19 em 158 povos indígenas da região. São registrados 1.590 óbitos de 121 povos indígenas.

O boletim da Coiab informa que, até o momento, foram registradas 369.997 doses entre os indígenas da Amazônia. A primeira dose foi aplicada em 83.9% dos indígenas e a segunda, 73.3%. Nao há informações sobre o total da terceira dose. A Coiab, desde o início da pandemia, faz seu próprio levantamento devido às subnotificações por parte do governo brasileiro, que nao considera indígenas de contexto urbano e de territórios nao demarcados.

Distância para atendimento

Terra Indígena do Vale do Javari (Foto: Bárbara Arisi)

Para as lideranças do povo Marubo, o mais grave é a ausência de meios de transporte que possam fazer a retirada rápida de pessoas em estado de saúde delicado. O Vale do Javari está localizado no município de Atalaia do Norte, a 1.136 KM de Manaus em linha reta. As viagens entre as aldeias e a sede do município chegam a durar dez dias de barco. Por avião, a distância é reduzida para uma hora. A aldeia Maronal conta com pista de pouso. Mas assim como todos os municípios do interior amazonense, o hospital de Atalaia do Norte não conta com leitos de UTI.

O hospital do interior do Amazonas mais bem equipado para receber pacientes em situação grave de Covid-19 é Tabatinga, distante duas horas de avião. Por estar distante meia hora de avião, Cruzeiro do Sul, no Acre, é o destino mais adequado para tratamento médico. O hospital da cidade conta com leitos de UTI.

Coincidentemente, três dos quatro anciãos Marubo mortos com suspeita de Covid-19 teriam se contaminado em viagens para Cruzeiro do Sul para resolver problemas em suas aposentadorias. Ao apresentar sintomas de gripe, Zacarias Marubo, retornou para o Amazonas, na cidade de Guajará. A pedido dos parentes, a Sesai o levou de volta, num helicóptero, para a aldeia Maronal. Seu quadro de saúde piorou e ele morreu dois dias depois. A mesma situação aconteceu com Fernanda Marubo.

Da aldeia Maronal até Cruzeiro do Sul, os Marubo enfrentam uma verdadeira epopeia de ao menos quatro dias de viagem; sendo dois navegando os rios e igarapés da região, e outros dois andando em varadouros para sair de uma margem a outra. Só asim eles alcançam uma vila rural do município de Cruzeiro do Sul, onde embarcam num pau-de-arara por estrada até a sede da segunda maior cidade acreana.  

De acordo com Alfredinho Marubo, morador da Aldeia Maronal e filho de Alfredo Marubo, apesar de já contar com a presença de uma equipe de saúde da Sesai, os profissionais não dispõem de combustível para fazer atendimento nas aldeias próximas. Outra carência é de medicamentos.

“Os quatro que morreram foram com os mesmos sintomas. Eu me preocupo muito com essa situação. Por isso peço socorro e peço um atendimento mais responsável por parte da saúde. A minha preocupação é que ainda temos outros velhos com as mesmas idades [dos que já morreram], da mesma família. Não dá para esperar atendimento melhor pra daqui dois, cinco meses”, diz a liderança Marubo, em conversa com a Amazônia Real, via mensagem de áudio, direto da aldeia Maronal.

Indígenas do povo Marubo (Foto cedida por Alfredinho Marubo)

A estudante Elisa Tsainama Bebíano Marubo, de 37 anos, é  uma  das vítimas mais recentes com suspeita de Covid-19 entre os Marubo. A sua contaminação não aconteceu na aldeia. Ela morava em Cruzeiro do Sul, onde cursava o ensino superior. Por ser portadora de doença hepática, seu quadro de saúde ficou bastante agravado. Ela chegou a ser transferida para tratamento avançado em Rio Branco, a capital do Acre. Após apresentar melhoras, voltou para Cruzeiro do Sul.

À Amazônia Real, a Sesai justificou a demora da imunização às dificuldades logísticas e distâncias das aldeias no Vale do Javari. Em nota enviada à reportagem, o órgão disse que 80% dos indígenas da bacia do Javari receberam a segunda dose e outros 21% a terceira. Entre a população de 12 a 17
anos a taxa é de 10%.

 “As comunidades indígenas do Vale do Javari estão entre as mais difíceis de chegar dentro da região amazônica, considerando os transportes fluvial e aéreo.  A operacionalização da vacinação pode ser complexa devido a fatores como diversidade cultural, dispersão geográfica, necessidade de
acondicionamento, conservação e transporte, em condições especiais dos imunobiológicos”, diz o órgão.

Quanto à demanda apresentada pelo Marubo sobre a falta de médicos, a secretaria diz que o Dsei Vale do Javari conta com seis profissionais do programa Mais Médicos para atender os sete polos base. “O Distrito informa, ainda, que possui uma frota de sete ambulanchas para atender o território indígena nas situações emergenciais e conta com apoio de outras instituições parceiras para realizar
as remoções mais delicadas”, completa.

Em relação ao transporte aéreo para a remoção dos casos mais graves, a Sesai afirmou que um novo processo licitatório está em curso. “O antigo contrato, vigente até 05 de novembro de 2021, não pode ser prorrogado por desinteresse da empresa prestadora de serviço.” 

 

 Surtos de gripe e ômicron

Coveiros transportam caixão de indígena Kanamari, do Vale do Javari, no Amazonas (Foto cedida por Korá Kanamari-2020)

 

Com a chegada da variante ômicron e os surtos de gripe que atingiram o país logo no começo de 2022, a situação também causou preocupação entre a população indígena de Roraima, uma das mais afetadas pela pelo início da pandemia no Brasil, em março de 2020. Segundo dados do Boletim Epidemiológico da Sesai, 111 indígenas moradores de aldeias atendidas pelo Dsei Leste de Roraima morreram após desenvolverem a Covid. Já o Dsei Yanomami registrou outras 22 mortes.

De acordo com Vanessa Ribeiro Wapichana, coordenadora de Saúde do Conselho Indígena de Roraima (CIR), por conta da semelhança dos sintomas da Covid-19 com a nova variante da gripe (H3N2), ficava difícil saber quem estava com qual doença. A diferenciação só era confirmada após a realização de testes, isso quando da passagem das equipes de saúde dos Dseis pelas aldeias. Quando não havia a testagem, era inviável distinguir Covid-19 da gripe comum.

“Entre janeiro e o início de fevereiro tivemos um surto de gripe nas comunidades indígenas. Como nós fazemos trabalhos junto a essas comunidades, o CIR parou suas atividades por 15 dias para resguardar a saúde das lideranças”, afirma Vanessa. De acordo com ela, as aldeias mais afetadas são aquelas localizadas próximas aos centros urbanos. Ao irem às cidades sacar os benefícios sociais e fazer as compras do mês, os indígenas acabam se contaminando e levando o vírus para as aldeias sem saber.

Para Vanessa, graças à imunização, aqueles que contraíram a Covid-19 acabaram por desenvolver sintomas leves. Conforme a coordenadora do CIR, apesar da resistência à vacina registrada entre os indígenas logo no início da campanha, a quantidade de pessoas que receberam alguma dose tem avançado. Segundo a Sesai, 82% dos indígenas atendidos pelo Dsei Leste de Roraima já receberam as duas doses. No Dsei Yanomami a taxa é mais baixa: 73%.

De acordo com Vanessa, no último dia 11 de fevereiro o Dsei Leste de Roraima começou a levar as doses pediátricas para ser aplicadas nas crianças moradoras de aldeias. Entre os povos de Roraima, os Makuxi e Wapichana são os mais afetados, Em seguida estão os Yanomami, que além do risco da pandemia têm seu território invadido pela atividade clandestina do garimpo.

Em todo o Brasil, conforme os dados oficiais da Sesai, 880 indígenas morreram vítimas da Covid-19 desde o início da pandemia. Os Dseis Leste de Roraima e Mato Grosso Sul são os que apresentam os maiores números de óbitos: 110 e 108, respectivamente. Já de acordo com dados levantados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o número de indígenas mortos por Covid-19 é outro: 1.276. A quantidade é superior por as organizações indígenas também contabilizarem os casos ocorridos nas cidades. 

Pelo levantamento da Apib, o estado com o maior registro de mortes é o Amazonas, com 254 óbitos. O Amazonas tem a maior população indígena do país. Logo abaixo estão Mato Grosso (163), Mato Grosso do Sul (130), Roraima (126) e Pará (107). 

Plano atrasado

Atendimento do Dsei Vale do javari (Foto Sesai)


Para o técnico de projetos da Coiab Luiz Penha Tukano, a morosidade do governo federal no combate à pandemia entre as populações indígenas acaba por potencializar os seus efeitos. Como ele destaca, somente após dois anos de pandemia o governo de Jair Bolsonaro (PL) criou o plano de contingência da Covid-19 nos territórios. “Isso era para ter sido criado logo no primeiro, segundo mês para subsidiar um planejamento nos territórios indígenas”, diz Luiz Tukano. 

De acordo com ele, os povos indígenas só não foram mais impactados pela pandemia graças às ações desenvolvidas pelas organizações da sociedade civil. Entre essas medidas estiveram a implementação de barreiras sanitárias e a doação de produtos de higiene pessoal, além de fornecer EPIs para os próprios servidores dos DSEIs, em muitos casos desprovidos dos equipamentos de segurança. 

Para Luiz Tukano, a morte de anciãos e anciãs indígenas podem ser vistos como as de efeitos mais danosos para as comunidades, por conta de toda a importância social e cultural que eles representam. “Hoje nós observamos que precisamos reconstruir as comunidades indígenas afetadas. A Covid tem deixado sequelas não só físicas, da saúde. Por conta destas sequelas muitos tiveram que deixar de cuidar de seus roçados, pararam de caçar, de pescar. Isso causa muitos impactos dentro de uma comunidade, de uma aldeia.”

Um dos desafios apontados pelo técnico da Coiab é avançar com a imunização entre os povos indígenas, sobretudo assegurar a aplicação da segunda dose e da de reforço. “Ainda temos alguns lugares com baixa cobertura vacinal, da segunda dose. Essa é uma preocupação que temos com o surgimento destas variantes”, ressalta ele. Para assegurar um maior número de indígenas vacinados, destaca, é necessário campanhas de conscientização e combate às notícias falsas sobre as vacinas.     

Em termos percentuais, o Dsei com a melhor cobertura vacinal é o Litoral Sul (Paraná e São Paulo), com 98% da população sob sua responsabilidade vacinada. O mesmo percentual apresenta o Dsei Minas Gerais/Espírito Santo. A terceira melhor taxa de vacinação é do Dsei Interior Sul, com 96% dos indígenas vacinados. O distrito sanitário é responsável por aldeias em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. 

Considerando os dados da Sesai por Estado, os que apresentam as melhores coberturas das duas doses aplicadas são Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina e Pernambuco. Entre os da região Norte, Rondônia (92%), Amazonas (83%), Tocantins (82%) e Amapá (82%) têm as maiores taxas de imunização completa das populações indígenas. Logo depois aparecem Roraima (79%), Acre (68%) e Pará (66%).

Grandes distância dificultam o atendimento na TI do Vale do Javari (Foto cedida por Alfredinho Marubo)


 

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