Teatro Nacional de Brasília não tem prazo para ser reaberto

Teatro Nacional de Brasília não tem prazo para ser reaberto
Por Brasil de Fato

Na em que Brasília completou 34 anos do título que a tornou Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), um grupo de arquitetos, advogados, representantes do setor cultural, acadêmicos e jornalistas se uniram em defesa da revitalização do Teatro Nacional Claudio Santoro, fechado ao público desde 2014.

Cerca de 200 pessoas deram um abraço simbólico no teatro, um dos mais importantes e icônicos edifícios da capital do país. O ato ocorreu na última terça-feira (7).

Projetado em 1958 por Oscar Niemeyer, o Teatro Nacional começou a ser construído em julho de 1960, já com a capital inaugurada, mas só teve as obras totalmente concluídas em 1981.

“Durante todo esse tempo, do início dos anos 1980 até hoje, não houve reformas. Sem manutenção e atualização adequados, o teatro acabou ficando com problemas graves de acessibilidade. O Corpo de Bombeiros esteve no teatro fazendo os laudos e identificou uma série de problemas, relacionados à questão de combate a incêndios, por exemplo”, explica Leiliane Rebouças, escritora e uma das integrantes da Associação dos Amigos do Teatro Nacional (Atena), entidade que está sendo constituída para atuar em defesa da casa de espetáculos.

Arquitetos, artistas e produtores culturais deram um abraço coletivo no Teatro Nacional de Brasília, fechado há mais 7 anos e sem previsão de reabrir / Divulgação.

Quando foi fechado, em janeiro de 2014, o Brasil vivia a comoção pelo incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), que resultou na morte de 242 pessoas. O episódio acabou ampliando o rigor na análise de casas noturnas e prédios públicos em todo o país.

Na época, um projeto de reforma completa do teatro chegou contratado pelo Governo do Distrito Federal (GDF), ao custo de aproximadamente R$ 200 milhões, dada a complexidade arquitetônica do prédio, mas a obra não foi adiante. Anos depois, o país entrou numa crise política e econômica que perdura até hoje e nenhum governo local, até agora, conseguiu iniciar a revitalização.

Recurso parado

Com dificuldades financeiras para tocar uma obra completa, o governo de Ibaneis Rocha (MDB) decidiu, ainda em 2019, fatiar a reforma em partes. A primeira etapa contempla partes da fachada e a reforma da Sala Martins Pena, ao custo de cerca de R$ 55 milhões, dos quais R$ 33 milhões são oriundos do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD) do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Esse recurso está parado na Caixa Econômica Federal aguardando liberação para que a obra seja finalmente licitada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Procurada pelo Brasil de Fato, a Caixa confirmou que ainda está analisando o projeto, mas que depende de ajustes por parte da Secretaria de Cultura e Economia Criativa e da Novacap.

“O banco observa as normas que regem as transferências de recursos no âmbito do Orçamento Geral da União, verificando o atendimento à legislação aplicável, a exemplo da Portaria 424/2016 e Decreto 7.983/2012, com destaque para a compatibilidade de orçamentos e cronogramas. A Caixa acrescenta que, após análise da documentação encaminhada pelo GDF, verificou que restava a necessidade de alguns ajustes, questões estas comunicadas à Secretaria de Cultura do GDF e à Novacap”.

A reportagem enviou uma série de perguntas à Secretaria de Cultura do DF, mas não teve retorno. No dia do ato, a pasta emitiu uma nota geral à imprensa em que afirma que aguarda a liberação por parte do banco estatal.

“Todas as tratativas para a reforma do Teatro Nacional Claudio Santoro estão sendo feitas com a Caixa Econômica Federal para cumprir as exigências contratuais dentro do prazo. A CEF ainda não liberou o processo, seguimos no aguardo”, informou a assessoria.

Enquanto isso, a reforma do Teatro Nacional Claudio Santoro segue sem prazo para ser iniciada. A bailarina e coreógrafa Gisele Santoro foi esposa do maestro que dá nome ao Teatro Nacional. Em conversa com o Brasil de Fato, ela explica o tamanho do prejuízo com esse fechamento, que começa a se aproximar de uma década.

“Embora eu seja uma artista e o teatro leve o nome do meu marido, não é por isso que estou lutando por ele. Para mim, o teatro é como um templo, e uma capital da República de um país tem a obrigação de ter um teatro em plenas condições. Até porque, não tem outro teatro na cidade em que a gente possa fazer as obras para quais o Teatro Nacional foi projetado, que são grandes obras sinfônicas, balé, espetáculos de teatro de alto nível, ou seja, coisas imprescindíveis para a educação de um povo”.


Em 2017 Gisele Santoro participou da assinatura da Lei Orgânica da Cultura do Distrito Federal (LOC) no foyer da sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro / Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília

“Nós precisamos desse teatro reformado o quanto antes, porque o fechamento dá um prejuízo enorme pra cidade. Não só do ponto de vista material, mas do ponto de vista social e cultural, mas a gente não vê prioridade nisso. O Museu da Bíblia, que nem existe, recebeu cerca de R$ 70 milhões de emendas parlamentares para a sua construção. O Teatro, não. Onde estão os parlamentares em defesa desse patrimônio?”, questiona Liliane Rebouças.

Espaço Multiuso

O Teatro Nacional Claudio Santoro (TNCS) foi projetado por Oscar Niemeyer, com colaboração do pintor e cenógrafo Aldo Calvo, para ser o principal equipamento cultural da nova capital do Brasil. Chamado inicialmente de “Teatro Nacional de Brasília”, a partir de 1989 passou a se chamar oficialmente “Teatro Nacional Claudio Santoro”, em homenagem ao maestro e compositor que fundou a orquestra do teatro em 1979 e dirigiu-a até sua morte em 1989.


Claudio Santoro (1919 – 1989) / Foto: Acervo família de Claudio Santoro / Divulgação Selo Sesc

Mais do que um teatro, o espaço é uma Casa de Espetáculos multiuso e já recebeu obras e nomes muito importantes da arte nacional e internacional. Entre os grandes nomes da música, da dança e do teatro que se apresentaram no Teatro Nacional Claudio Santoro, destacam-se Mercedes Sosa, Astor Piazzola, Yma Sumac, os balés russos Bolshoi e Kirov, o balé da Ópera de Paris.

Entre os artistas brasileiros, estão nomes como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Dulcina de Moraes, Glauce Rocha, Ziembinski, Márcia Haydé, Márika Gidali e o balé Stagium, Grupo Corpo, João Gilberto, Caetano Veloso, Maria Bethânia e praticamente todos os principais nomes da música popular brasileira.

Estrutura

Localizado no Setor Cultural Norte, próximo à Rodoviária do Plano Piloto, é um marco do Eixo Monumental e o principal equipamento cultural de Brasília.

O Teatro Nacional possui 46 metros de altura, 136 metros de lateral, 95 metros na fachada oeste, 45 metros na fachada leste e e área total de 43 mil metros quadrados. Tem a forma geométrica de uma pirâmide, o que o torna um prédio singular na paisagem central de Brasília. Uma de suas características mais marcantes são os blocos de concreto instalados nas fachadas laterais, os poliedros. É uma criação do artista Athos Bulcão, feita em 1966.


Blocos de concreto são atração na arquitetura do Teatro / Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

Ao todo, o Teatro Nacional possui sete espaços. O principal deles é a sala Villa-Lobos, única sala de ópera e balé da cidade. Com capacidade de 1.407 lugares, sua área possui um palco de 450 metros quadrados, com 17 metros de abertura e 25 metros de profundidade, além de dois elevadores, sete camarins e salas de ensaio.

Do lado externo, o Foyer da Sala Villa-Lobos é composto pelo piso do acesso principal do teatro, entre os níveis superior e inferior da Plataforma da Rodoviária, com mezanino. O foyer dá acesso tanto à Sala Villa-Lobos e quanto à Sala Alberto Nepomuceno. Além da escada helicoidal que leva ao mezanino, uma verdadeira obra de arte, ainda integram o Foyer obras de Alfredo Ceschiatti, Mariane Perreti, Athos Bulcão e os jardins de Burle Marx.


Foyer da Sala-Villa Lobos, no Teatro Nacional, possui paisagismo de Burle Marx e esculturas de artistas consagrados. / Divulgação/Secec-DF

Já a Sala Martins Pena possui capacidade de 407 lugares, palco de 235 metros quadrados, com 12 metros de abertura e 15 metros de profundidade, além de um elevador e 15 camarins. O Foyer da Sala Martins Pena conta com painel de azulejos de Athos Bulcão e é bastante utilizado para exposições. Possui um busto Beethoven, doado pela Embaixada da Alemanha, e destina-se principalmente a saraus, performances, lançamentos de livros, coquetéis e exposições, com área de 412 metros quadrados.

A Sala Alberto Nepomuceno tem capacidade de 95 lugares, palco de 14 metros quadrados e camarins. O Teatro Nacional também possui, no seu andar mais alto, Espaço Cultural Dercy Gonçalves. Projetado originalmente para ser um restaurante panorâmico, que chegou a funcionar por pouco tempo, o Espaço foi inaugurado em 2000 com a presença da própria Dercy Gonçalves. Tem 840 metros quadrados, dos quais 500 metros de área útil, com ampla copa e capacidade para 300 pessoas.

Ainda há Anexo do Teatro Nacional, que foi projetado e construído por Milton Ramos, convocado por Niemeyer para detalhar e executar a obra inacabada do Teatro. Com 15 mil metros quadrados, essa área passou a abrigar a sede da Fundação de Cultura do DF e, posteriormente, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

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