Manaus (AM) – O calor extremo em Manaus mudou a rotina da maquiadora Samara Leila Rodrigues, de 26 anos. Moradora do bairro Parque 10, na zona Centro-Sul, ela diz que dormir, trabalhar e até permanecer dentro de casa se tornaram tarefas difíceis nos dias de temperaturas elevadas. Em períodos de apagão no forcimento de energia, a situação se agrava, já que os cortes elétricos interrompem o funcionamento de ventiladores e ar-condicionado. Samara e a sua família ficam expostas ao calor justamente nos horários em que os termômetros ultrapassam os 37°C, com sensação térmica que chegam a 41°C.
“Nos horários de pico do calor, fica insuportável ficar dentro de casa. Sem ventilador ou ar-condicionado, não tem como se refrescar. A rotina da casa para completamente e fica difícil até para descansar ou trabalhar”, disse em entrevista à Amazônia Real.
A frequência dos apagões é constante. Somente nesta semana, Samara contou ter enfrentado mais de 20 interrupções de energia, entre o dia e a noite. No dia 2 de setembro, foram cerca de dez quedas ao longo do dia, entre 10h e 19h. Algumas duraram cerca de uma hora; outras, apenas cinco ou dez minutos. Mesmo quando o fornecimento volta rapidamente, ela diz que evita ligar os aparelhos eletrodomésticos por medo de que sejam danificados.
Sem conseguir aliviar o calor com os aparelhos, a família também passou a tomar mais banhos, o que, segundo Samara, aumentou o consumo e a conta de água. Ao mesmo tempo, a conta de energia também subiu.
“Com as temperaturas extremas, fomos obrigados a deixar o ventilador e ar-condicionado ligados por mais tempo. Isso pesa direto no orçamento da família no fim do mês. A conta aumentou bastante. Antes eu pagava em torno de R$300 e a última fatura veio no valor de R$ 650”, observou.
A experiência de Samara com o calor não é incomum e ocorre durante a chamada ‘estação seca’, conhecida também como “verão amazônico” na região, devido à queda no volume de chuva (estiagem) típica do período. Mas os efeitos desse ciclo sazonal estão sendo agravados pela ocorrência do Super El Niño, fenômeno que intensifica o calor e reduz ainda mais as chuvas, além de aumentar o risco de queimadas e incêndios florestais e favorecer a dispersão de fumaça nas cidades.
O calor tem afetado a saúde de toda a família de Samara. Seu tem problemas respiratórios e, com o clima seco e as altas temperaturas, ela diz que não consegue usar o umidificador durante as interrupções de energia. “Só essa semana ele faltou aula 2 vezes por conta que não conseguimos dormir à noite por conta das quedas [de energia], afirmou.
O terceiro Painel El Niño 2026-2027, publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na última semana, informou que há 90% de probabilidade do El Niño ser muito forte já entre setembro e novembro, com altas temperaturas e chuvas abaixo da média nas regiões central e norte do Brasil.
Esse cenário de extremos climáticos afeta diretamente Manaus, que registrou 37,6°C em 1º de setembro, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), após atingir 37,4°C no dia anterior, com sensações térmicas acima de 40ºC. A capital amazonense é apontada como a cidade brasileira mais vulnerável a ondas de calor extremo em estudo da Universidade de Oxford.
Somado a esses fatores, agosto foi o mês mais seco na cidade desde 1986, segundo o Inmet, e segue com pouca ou nenhuma chuva desde o início do mês. O volume de chuva registrado foi de 2,4 milímetros, com uma única chuva no dia 22 de agosto.
Nesta terça-feira (08), a cidade amanheceu com forte cheiro de fumaça em diferentes regiões. De acordo com dados de qualidade do ar apresentados pelo aplicativo Selva (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), a condição do ar na capital aparece classificada como moderada.
Calor no cotidiano
O verão amazônico costuma se estender até novembro e é caracterizado por temperaturas elevadas, menor volume de chuvas e períodos de baixa umidade. Quando associado a essas condições, o El Niño costuma provocar alterações no regime de chuvas e temperaturas da região Norte. Em 14 de agosto, uma atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou em 95% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade “muito forte” entre setembro e dezembro de 2026.
Os amazonenses já sentem os efeitos do calor, que aparecem antes mesmo de uma eventual intensificação do fenômeno. A necessidade de manter ambientes ventilados, aumentar a hidratação e recorrer a ventiladores e aparelhos de ar-condicionado faz parte da realidade da estudante Rebecca Xavier, de 23 anos, que também têm enfrentado os efeitos das altas temperaturas junto às interrupções no fornecimento de energia.
“Afeta principalmente com essa questão do calor e os eletrônicos, porque trabalhamos com internet e depender de redes móveis nunca é útil porque parece que quando a energia cai, as redes móveis passam a oscilar junto. Não é possível se refrescar sem ventilador ou ar-condicionado porque o sol bate direto nas paredes da casa e fica extremamente abafado”, explicou.
Pelo risco provocado à população, a Defesa Civil do Amazonas chegou a emitir um alerta de onda de calor de intensidade moderada na tarde da última quinta-feira, 3 de setembro. O alerta valeu até o dia 6 de setembro para Manaus e outros dez municípios do estado. Segundo o órgão, as temperaturas permanecem acima dos valores normalmente esperados para o período.
Procurada para explicar as interrupções no fornecimento de energia elétrica e os relatos de apagões durante o período de calor intenso, a empresa Âmbar Energia não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.
Pessoas em situação vulnerável são mais afetadas

O epidemiologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz Amazônia, explica que o calor extremo prolongado é um problema especialmente em cidades com pouca arborização, transporte coletivo precário. escassos espaços para atividade ao ar livre e infraestrutura urbana que favorece as ‘ilhas de calor’, fenômeno climático típico de zonas urbanas onde a temperatura é mais elevada do que seu entorno.
As temperaturas acima da média afetam diretamente os idosos e favorecem quadros de desidratação e agravamento de doenças pré-existentes, como doença renal, cardiovascular ou pulmonar. Mas mesmo adultos jovens em idade laboral, sem histórico de comorbidades, podem sucumbir em caso de exaustão térmica.
“Durante o calor extremo é comum pessoas de diferentes idades terem problemas na garganta, na pele e até outros desconfortos respiratórios, mas nada alarmante que possa resultar em graves crises. Doenças diarreicas também costumam afetar populações vulneráveis, especialmente quando o abastecimento de água, seja para uso doméstico ou hidratação, fica comprometido, pois favorece doenças de veiculação hídrica, como as parasitoses intestinais e outros quadros gastrointestinais que podem resultar até em internação e morte, excepcionalmente”, analisou o especialista.
Ainda assim, o calor não é igual para todos. Orellana pontua que pessoas que vivem em condições de habitação precária estão entre as mais vulneráveis aos efeitos do calor, assim como aquelas que passam longas horas no transporte coletivo de Manaus, especialmente nos horários de pico. Moradores em situação de rua, idosos que vivem em instituições de acolhimento com pouca infraestrutura de ventilação e refrigeração e pessoas privadas de liberdade, submetidas a ambientes insalubres, também estão entre os grupos mais expostos.
“Não podemos ignorar as pessoas privadas de liberdade que cumprem pena em ambientes altamente insalubres. Em relação a classe trabalhadora, garis, vendedores ambulantes e trabalhadores da construção civil, são exemplos de alta vulnerabilidade em cenários de calor extremo”, disse.
O que Manaus está fazendo para se adaptar?

No Plano de Ação Climática de Manaus, lançado no fim do ano passado, a prefeitura reconhece as altas temperaturas e as ilhas de calor como riscos para a cidade e prevê ações para ampliar a arborização e as áreas verdes, principalmente em regiões periféricas mais vulneráveis. O documento também estabelece o mapeamento de áreas prioritárias para arborização e de pontos críticos de calor. No entanto, parte das medidas previstas têm implementação de médio e longo prazo, enquanto a cidade já enfrenta episódios de calor extremo.
O plano prevê medidas estruturais para reduzir o calor, mas não estabelece, entre as ações de adaptação analisadas, uma resposta emergencial claramente definida para períodos de calor extremo, como uma rede de pontos públicos de hidratação ou protocolos específicos de proteção para grupos mais vulneráveis.
Sob a ameaça do El Niño e diante do aumento expressivo dos incêndios florestais e urbanos na região amazônica, povos indígenas e comunidades tradicionais exigiram, em uma Audiência Popular, realizada em agosto em Manaus, ações permanentes de adaptação climática por parte do poder público para enfrentar o evento extremo, as altas temperaturas, a falta de água potável e de alimentos, como peixes, além da poluição do ar por causa dos incêndios florestais.
A cobrança das comunidades ocorre enquanto o Amazonas ainda não concluiu a elaboração do seu Plano de Adaptação às Mudanças Climáticas. Conforme o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), a previsão é que o documento seja entregue em setembro de 2026.

Esta reportagem foi produzida com recursos do Prêmio Culturas de Resistência, concedido este ano à agência Amazônia Real por Iara Lee, ativista, cineasta e fundadora/diretora da Rede Culturas de Resistência, para apoiar uma série de cinco trabalhos relacionados aos direitos dos povos tradicionais, justiça social, violação de direitos humanos e meio ambiente.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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