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O Último Azul: Pelo direito de remar as próprias águas

O Último Azul: Pelo direito de remar as próprias águas

Filme do diretor Gabriel Mascaro, rodado em Manaus, Novo Airão e Manacapuru, no Amazonas, tem no elenco Denise Weinberg, Rodrigo Santoro (ambos na foto acima) e mais de 20 atores e atrizes locais, entre eles, Adanilo, Rosa Malagueta, Dimas Mendonça, Daniel Ferrat, Rafael César, Isabela Catão, Diego Bauer e Karol Medeiros. A Imagem acima é um still do filme com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro (Foto: Guillermo Garza/Desvia Filmes).


Era manhã do dia 18 de agosto. Estava me preparando para assistir a uma exibição de “O Último Azul”. Ao ligar a televisão para ver as notícias do dia, me deparo com imagens de câmera de segurança que flagraram um idoso sendo abandonado em uma calçada.  As cenas mostravam uma caminhonete com um motorista e um passageiro na carroceria. Este último descia e se deslocava até o banco do passageiro, onde estava o idoso, de 77 anos. Em seguida, o passageiro o pega no colo e o deixa na calçada, indo embora. O abandono ocorreu no dia 08 de agosto de 2025, em São Luís do Maranhão. Segundo a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (SEMCAS), o idoso foi acolhido e encaminhado para o Centro de Atenção Integral ao Idoso (CAISI).

Em julho, o vice-presidente Geraldo Alckmin sancionou a Lei 15.163, que aumentou a pena de condenados pelo crime de abandono de idoso ou pessoa com deficiência. De acordo com a nova lei, o condenado poderá passar a cumprir pena de 2 a até 5 anos de prisão, mais pagamento de multa. A pena aumenta em caso de morte ou lesão grave.

Em junho de 2023, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania divulgou um dado alarmante: as denúncias de abandono de idosos registraram um aumento de 855% entre janeiro e maio em comparação ao mesmo período de 2022. Foram quase 20 mil registros de abandono ao longo de cinco meses em 2023, contra 2.092 casos registrados no ano anterior.

O abandono do senhor em São Luís é um exemplo imagético do tratamento que muitos idosos recebem em um Brasil cuja população está envelhecendo. Esse é o mote de “O Último Azul”, filme de Gabriel Mascaro, rodado em municípios do Amazonas: Manaus, Novo Airão e Manacapuru. O longa é estrelado por Denise Weinberg, que interpreta Tereza, de 77 anos, e que vive em uma cidade industrial da Amazônia. O roteiro apresenta uma realidade distópica, onde idosos são convocados a partir dos 80 anos pelo governo federal a se mudar para uma colônia habitacional compulsória, para passar seus últimos anos de vida, enquanto a juventude produtiva do país trabalha sem se preocupar com os mais velhos. A reviravolta ocorre quando a lei que ordena esse exílio baixa a idade para 75 anos. E, assim, idosos começam a ser perseguidos por policiais e colocados em “cata-velhos”, uma espécie de motoca com grades.

Tereza, que mora sozinha e trabalha, é então afastada de suas funções – contra sua vontade – e passa a ser tutelada por sua filha. Antes do exílio forçado, ela embarca numa jornada pelos rios e afluentes da região para realizar um último desejo. No caminho, Tereza cruza com os personagens Cadu (Rodrigo Santoro), Ludemir (Adanilo) e  Roberta (Miriam Socarrás), que a acompanham, cada um em seu tempo e modo, na sua viagem de vida.

Mais de 20 atores e atrizes locais compõem a ficha técnica de “O Último Azul”. Antes da sessão iniciar, procurei minha amiga Karol Medeiros, atriz e que está no elenco. Falei a ela que iria assistir o filme e recebi a mensagem: “Vais ver tantos rostinhos, que teu coração vai ficar quentinho”. E foi isso mesmo que aconteceu. Em mais de 1h20 de sessão foram muitos os rostos conhecidos e que eu podia nomear. Gente da minha cidade, alguns que estudaram comigo e que vêm construindo um grande espaço no cenário local, nacional e internacional para as produções  audiovisuais amazonenses. 

São eles: Rosa Malagueta, Dimas Mendonça, Daniel Ferrat, Rafael César, Isabela Catão, Diego Bauer, Karol Medeiros, Júlia Kahane, Robson Ney, Italo Rui, Italo Bruce, Matheus Sabbá, Jôce Mendes, Ana Oliveira, Klindson Cruz e muitos outros. É simbólica a presença dessas pessoas na telona e meu desejo é que,  além da valorização das produções locais, cada vez mais haja a ocupação de artistas da terra na construção de narrativas da nossa região, as protagonizando.

Adanilo e Denise Weinberg em cena de “O Último Azul” (Foto Guillermo Garza/Desvia Filmes).

Destaco aqui o trabalho de Adanilo, ator, indígena, dramaturgo e diretor manauara nascido no bairro Compensa. Atuou em filmes como Noites Alienígenas (2023) e Marighella (2021). Na TV, participou das novelas Volta por Cima e Renascer (2024) e de séries como Cidade Invisível (Netflix). Como diretor, realizou o curta Castanho (2023) entre outros. Em “O Último Azul”, Adanilo integra o elenco principal do filme com o personagem Ludemir, que traz leveza e comicidade para o longa ao tentar consertar um avião para que Tereza (Denise Weinberg) realize o sonho de voar.

Ganhador do Urso de Prata, o segundo maior prêmio do Festival de Berlim, “O Último Azul”, com distribuição da Vitrine Filme, estreia dia 28 de agosto nos cinemas brasileiros. Mas, retorna às locações para exibição de sessões antecipadas. Em Manacapuru, onde o filme foi rodado, a pré-estreia acontece na rodoviária do município, nesta segunda-feira (25), às 17h. No dia seguinte, a pré-estreia será em Manaus, às 20h e 20h30, no Cinépolis Millenium, zona Centro-Sul da capital, com a presença de elenco e equipe do filme.

Saí da sessão com a certeza de que a travessia de Tereza também é a nossa: a luta para seguir no comando do próprio destino. “O Último Azul” fala, no fundo, do presente de tantos idosos que ainda desejam remar suas próprias águas. O rio azul que a conduz não é apenas cenário, mas protagonista. Que na Amazônia, no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo a velhice possa ser vivida e não descartada.


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