A imagem que abre este artigo é de autoria de Ramón Aquim, do making off de Noites Alienígenas.
A Amazônia, coração pulsante do planeta e palco de discussões globais sobre meio ambiente e sustentabilidade, tem se revelado também um celeiro efervescente de produções audiovisuais. Longe dos holofotes concentrados nos grandes centros, a Região Norte vive uma fase de notável pujança em seu cinema e – até- televisão, revelando talentos e narrativas que ecoam a complexidade e a beleza de seus povos e paisagens.
Nos últimos anos, a Região Norte do Brasil tem protagonizado um dos movimentos mais pulsantes e politicamente significativos do audiovisual nacional. Longe de ser apenas um território de paisagens exóticas ou cenários bucólicos, a Amazônia hoje emerge como produtora de linguagem, estética, crítica e protagonismo. Em meio à floresta e às cidades ribeirinhas, em bairros periféricos e aldeias, nas margens dos rios e nas quebradas urbanas, surge um cinema que pensa, sente e tensiona o Brasil – com olhar próprio, corpos diversos e narrativas insubmissas. Se o Nordeste tem sido celeiro de histórias que revitalizam a criatividade cinematográfica nacional nos últimos anos, está na hora de o Norte assumir também esse protagonismo.
Essa pujança, que já vinha sendo cultivada por realizadores locais há tempos, ganhou nos últimos anos fôlego novo: festivais fortalecidos, laboratórios de formação, políticas públicas emergenciais e premiações que levaram filmes nortistas a palcos até então inacessíveis. Trata-se de uma retomada com potência de reinvenção estética e disputa simbólica, que recoloca a Amazônia não como paisagem, mas como sujeito narrativo.
Essa ascensão não é fruto do acaso. É resultado da persistência de muitos que, como Joyce Cursino, Rayane Penha, Adriana de Farias, Zienhe Castro, Tami Martins, Thiago Briglia e Sérgio de Carvalho, por exemplo, têm dedicado tempo e talento a contar histórias com a lente amazônida. O trabalho de coletivos e movimentos sociais, a exemplo do MST com suas produções audiovisuais, capitaneadas por Ícaro Matos e Vanda Carvalho, também é fundamental para dar voz a narrativas muitas vezes marginalizadas, construindo um cinema que brota da vivência e da luta. Sem falar em produções indígenas e quilombolas que lutam por furar a bolha.
No Pará, no Amazonas, em Rondônia, no Amapá, no Acre e nos demais estados da região, uma nova geração de cineastas e produtores emerge, impulsionada por festivais locais, editais e a crescente valorização da cultura regional.
Talvez o caso mais emblemático dessa virada seja o do filme Noites Alienígenas (2022), do acreano Sérgio de Carvalho. Rodado em Rio Branco com elenco local e ambientado na transformação violenta da cidade diante do avanço do narcotráfico, o longa tornou-se o primeiro filme do Acre a vencer o Festival de Cinema de Gramado, arrebatando cinco Kikitos: Melhor Filme, Melhor Ator (Gabriel Knoxx), Melhor Atriz Coadjuvante (Joana Gatis), Melhor Ator Coadjuvante (Chico Diaz) e o Prêmio da Crítica. A recepção consagradora não ficou restrita ao país: em 2023, o filme conquistou prêmios também no Inffinito Brazilian Film Festival, nos Estados Unidos, incluindo Melhor Direção e Melhor Atuação Coadjuvante (Adanilo Reis). Com isso, Noites Alienígenas se tornou uma referência de cinema urbano e político do Norte.
Outro destaque fundamental é o documentário O Reflexo do Lago (2020), do paraense Fernando Segtowick, que investigou os impactos sociais e ambientais da construção da hidrelétrica de Tucuruí. Com uma estética precisa e silenciosa, que denuncia pelo corte e pela ausência, o filme percorreu diversos festivais ao redor do mundo, obtendo premiações significativas. O longa reafirma que a Amazônia, mais do que pano de fundo, é território de disputa e memória.
Mais recentemente, o longa Flashdance TF, dirigido por esse colunista e produzido pela Floresta Urbana, em Belém, selecionado no edital Novos Realizadores da Ancine em 2022, ambientado no bairro da Terra Firme, e rodado com moradores da própria comunidade em processo formativo e afetivo, revelou uma abordagem popular e coletiva da realização audiovisual.
No entanto, essa fase promissora não está isenta de desafios. Os ataques à descentralização das políticas públicas para o audiovisual representam uma ameaça real, concentrando recursos e oportunidades nas regiões já estabelecidas e dificultando o acesso de produtores amazônidas. A necessidade de profissionalização da cadeia produtiva é urgente. Embora a paixão e a criatividade sejam abundantes, a carência de infraestrutura, equipamentos e, em alguns casos, capacitação técnica ainda impede que muitos projetos atinjam seu pleno potencial. Sem contar no famigerado gargalo da distribuição e na possibilidade de ‘sentar para o cafezinho’ com os mais importantes players do mercado.
E, claro, há o inexorável “custo Amazônia”. Produzir na região implica em desafios logísticos e financeiros singulares: transporte caro, acesso limitado a equipamentos especializados e a complexidade de filmar em ambientes naturais muitas vezes com características peculiares do resto do país. Além, claro, das dimensões continentais da região. Esses fatores encarecem as produções e exigem um planejamento e uma resiliência extraordinários dos envolvidos.
Apesar das adversidades, a Amazônia, com sua biodiversidade ímpar e a riqueza cultural de seus povos, está, de fato, no centro das discussões mundiais. O audiovisual do Norte tem a capacidade e a responsabilidade de ser uma ferramenta poderosa para amplificar essas discussões, desmistificar clichês e apresentar a Amazônia em toda a sua pluralidade. Filmes como Pureza e Manas, por exemplo, mesmo não sendo produzidos por nortistas, mostram como as histórias locais podem ser estimulantes para novas produções que desejem superar um olhar viciado pelas mesmas paisagens e conflitos.
As telas se tornam um espelho para a floresta, para as cidades ribeirinhas, para as capitais urbanas, para as lutas indígenas e para a resiliência de um povo que, com suas câmeras em punho, (re) clama por um olhar mais atento e menos estereotipado. É tempo de reconhecer e investir na potência criativa que emana da Amazônia, garantindo que suas vozes e imagens continuem a ecoar, rompendo barreiras e enriquecendo o panorama audiovisual global.
O que está em jogo é a afirmação de um cinema amazônico que não seja apenas exceção, mas política de Estado e política cultural. Para isso, são urgentes:
– Editais regionalizados e de fluxo contínuo, com critérios adaptados às realidades locais;
– Formação técnica descentralizada.
– Linhas de fomento à distribuição e exibição voltadas para o Norte;
– Incentivo à presença amazônica nos streamings, com curadoria autônoma e proporcionalidade territorial.
O cinema amazônico contemporâneo nos lembra que a floresta pensa. Seus rios falam. Suas cidades vibram. Seus povos resistem. Longe de ser apenas um espaço geográfico, a Amazônia é hoje sujeito cinematográfico – e o Norte do Brasil pulsa como um dos corações mais vivos da produção audiovisual brasileira.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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