O misterioso avião abandonado na TI dos Wai Wai

O misterioso avião abandonado na TI dos Wai Wai
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Há um ano, um bimotor fez um pouso forçado em uma aldeia da Terra Indígena Trombetas Mapuera, em Roraima, sendo abandonado pela tripulação e até hoje ninguém foi reclamar sua retirada (Fotos: Reprodução redes sociais

Boa Vista (RR) – Há um ano, indígenas do povo Wai Wai convivem com a carcaça de um avião abandonado dentro da comunidade Jatapuzinho, no sul de Roraima. Até o momento, a Polícia Federal (PF) não iniciou uma investigação para averiguar a origem da aeronave, que vale entre 1 milhão e 3,5 milhões de reais. Por que e como alguém abandona um patrimônio dessa grandeza é algo que intriga os Wai Wai. Assim como causa estranheza entre eles a falta de empenho das autoridades em dar respostas para esse caso cercado de mistérios.

Era 19 de novembro de 2021, moradores da comunidade Jatapuzinho, na Terra Indígena (TI) Trombetas Mapuera, avistaram no céu o avião prefixo PT-DQU numa altitude baixa. A aeronave logo embicou em direção ao solo, fazendo um pouso forçado sobre a mata. Dois homens falando em espanhol estavam dentro da aeronave. Segundo os Wai Wai, eles se identificaram como trabalhadores de uma região de garimpo no Pará.

Dentro do avião bimotor, modelo PA-31, havia 700 litros de gasolina. Aeronaves são o principal meio de transporte do garimpo ilegal. São elas que levam o combustível e outros suprimentos para abastecer as dragas, uma embarcação rudimentar que os garimpeiros usam para extrair o ouro do leito dos rios. Com leves ferimentos, o piloto e co-piloto foram atendidos pelos agentes da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), que estavam de plantão na comunidade, e depois foram liberados sem qualquer tipo de contenção do poder público. Nem os Wai Wai, nem os servidores chegaram a solicitar o nome dos pilotos.

Miguel Wepaxi Wai Wai, coordenador dos tuxauas do povo Wai Wai, relatou que já enviou um ofício prontamente pedindo apoio da PF, do Ministério Público Federal (MPF) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), solicitando a retirada da aeronave. “A gente fez a denúncia no mesmo dia [19 de novembro] que pousou o avião, porque vários aviões já passavam por cima da nossa terra. Os aviões pousavam na aldeia sem autorização. No ano passado [2021] passaram cinco aviões na nossa terra, mas ninguém apareceu para impedir ou fiscalizar”, explicou à Amazônia Real.

O líder protocolou uma denúncia no MPF dias depois e no dia 14 de dezembro de 2021 foi convocado para uma reunião online para explicar o caso aos promotores federais. Além de Miguel Wai Wai, a reunião tinha a presença do procurador da República Alisson Marugal, do Coordenador Regional da Funai, Osmar Tavares de Melo; e do suposto proprietário do avião, João Marcos.

Negociações inusitadas

Terra indígena Wai Wai (Foto: EBC)

 

Em consulta ao Registro Aeronáutico Brasileiro, órgão ligado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a reportagem averiguou que o avião não pertence a João Marcos. O proprietário, conforme o órgão, é Fábio dos Santos Pereira e se encontra com autorização suspensa pela Anac desde 2018. Ou seja, os pilotos não podiam ter conseguido uma autorização para voar com a aeronave, segundo o órgão responsável.

O bimotor Piper Navajo PA-31 começou a ser fabricado em 1970, e logo se tornou uma das preferidas de fazendeiros e executivos por ser uma alternativa mais acessível e econômica na comparação com outros turboélices do mercado. Uma pesquisa realizada pela Amazônia Real indicou negociações atípicas da aeronave por seus antigos proprietários.

Desde 2020, o avião PT-DQU, que caiu nas terras dos Wai Wai, teve muitos donos. Em 2003, uma empresa de táxi aéreo vendeu o aparelho para Paulo Renato Coelho por 20 mil reais – muito abaixo do seu real valor. Sete anos depois, em março de 2020, ele revendeu o bem a Marco Antônio dos Reis por 200 mil reais. Passados quatro meses, a aeronave é comprada por José Ricardo Montes pelo dobro do valor. Curiosamente, em 27 de julho do ano passado, Montes volta a vender o bimotor para o mesmo Marco Antônio por 200 mil reais. No dia seguinte, esse aparelho é vendido a Fábio dos Santos Pereira pelo preço de 900 mil reais. Em 30 de julho de 2021, é averbado o seguro da aeronave pela Mapfre Seguros.

Pelos registros da Anac, a aeronave não pertence a João Marcos, que se disse suposto proprietário na reunião com o MPF, mas a Fábio dos Santos Pereira, morador de Campo Grande (MS). Até março de 2022, ele figurava como dono de uma loja de veículos na capital do Mato Grosso do Sul. Já Marco Antônio dos Reis, aquele que comprou o bimotor PT-DQU em duas ocasiões (2020 e 2021), antes de vender a Fábio dos Santos, é presidente da Associação Araguarina dos Pilotos e Proprietários de Aeronaves. Em junho de 2021, o Marco Antonio arrematou um avião sucateado da Funai.

Procurados pela reportagem, Fábio dos Santos Pereira e Marco Antônio dos Reis não atenderam às ligações. A Mapfre Seguros também não se posicionou sobre o pagamento do seguro.

Perguntas no ar

O procurador da República, Alisson Marugal (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

A agência Amazônia Real teve acesso ao documento da audiência no MPF, que mostrou a rota da aeronave na região amazônica. O avião saiu de Poconé (MT), fez paradas em Matupá (MT), Novo Progresso (PA) e Itaituba (PA) e seguiu viagem para a Guiana. Porém, no momento do pouso forçado, os pilotos afirmavam que seguiam para Marabá (PA).

Na reunião no MPF em Roraima, em 14 de dezembro do ano passado, o povo Wai Wai reivindicou multa de 150 mil reais pelo pouso ilegal. O suposto proprietário do avião, João Marcos, alegou ser impossível o repasse, oferecendo como contraproposta “rancho” [compra de cestas básicas]. As lideranças indígenas rejeitaram um acordo.

Perante ao procurador Alisson Marugal, João Marcos ofereceu 30 mil reais, parcelados em duas vezes. Mas a reunião terminou sem nenhuma decisão quanto ao pagamento de multa ou qualquer tipo de punição ao suposto proprietário que compareceu à audiência.

“No âmbito do procedimento, o MPF vem analisando as medidas possíveis tanto extrajudiciais quanto judiciais e se manifestará quando da conclusão dos trabalhos, momento em que serão divulgadas as ações que serão tomadas”, disse o órgão federal, segundo nota enviada à reportagem. A Funai não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

A reportagem procurou garimpeiros que atuam em Roraima. Pedindo o anonimato da fonte, eles disseram que o avião bimotor não circula nos garimpos do estado, já que não há pistas para uma aeronave desse porte. “Não é avião do garimpo”, garantiu um deles. O outro garimpeiro especula que o avião não devia estar tendo “uma boa utilização”. “É um avião que não é barato,  é caríssimo. Se está abandonado lá, bom uso ele não devia estar tendo. Geralmente quando abandonam um avião assim, é porque estava com mau uso”, disse.

Os Wai Wai voltaram a questionar o procurador do Alisson Marugal sobre o caso do avião em uma conversa que tiveram no Ministério Público no último mês de outubro, porém, “as lideranças saíram sem resposta”, disse Miguel Wepaxi. “Agora nós estamos pensando em vender o motor e tentar a gente mesmo resolver a situação. Estamos procurando maneiras legais de fazer isso.”

Pressão no Trombetas Mapuera

A TI Trombetas Mapuera faz fronteira com a TI Wai Wai e é habitada por indígenas Hixkaryana e por povos isolados Karapawyana, Katuenayana e Wai Wai, do Médio Jatapu, dos rios Cachorro/Cachorrinho. A região onde caiu o avião convive com a extração de madeira ilegal dentro dos limites da TI. Ela está encravada entre três estados brasileiros: Roraima (nos municípios de São João da Baliza e Caroebe), Pará (Faro e Oriximiná) e Amazonas (Nhamundá e Urucará).

A partir de imagens do satélite Sensor Planet, pode se ver uma área de garimpo nas proximidades da TI Jacamim, já no lado da Guiana, o que reforça a tese de que a aeronave podia estar a caminho dessa localidade. O retângulo 1, na imagem abaixo, indica um foco de garimpo que está a apenas 140 quilômetros do local onde caiu o avião na TI Wai Wai e somente a 13 quilômetros da TI Jacamim. O ponto 2 representa um segundo foco de garimpo que também se encontra a pouca distância da fronteira brasileira. Outro ponto de destaque é que esses focos estão em expansão, como mostram as imagens de satélite.

O povo Wai Wai segue tendo que conviver com sobrevoos suspeitos sob seu território.  Um mês antes da queda do avião, um helicóptero pousou no território para abastecer e dois homens armados não deixaram ser interrogados pelos indígenas. “Eu acho que os garimpeiros acharam uma estratégia de entrar, quando eu ia pescar, via que eles passavam por cima da comunidade, para onde não tinha ninguém. Não sei se o garimpo, mas queremos saber,  por isso que a gente está colocando a denúncia”, finaliza o Tuxaua Miguel.

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