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Nico Ambrosio lança o fotolivro “Verão Violento”, em Manaus

Nico Ambrosio lança o fotolivro “Verão Violento”, em Manaus

A obra reúne imagens captadas entre os anos de 2020 a 2025, durante o período mais tenso da pandemia e no pós-confinamento, quando a violência urbana se aprofundou e os espaços públicos da cidade tornaram-se ainda mais inseguros para corpos racializados, trans e periféricos. (Foto cedida por Nico Ambrosio)


Rio Branco (AC) – O som do motor do ônibus abafava o clique da câmera. Da janela, Nicoly Ambrosio (Nico) registrava a rua. Com o corpo parcialmente escondido, buscava enquadrar um cotidiano que poucos querem enxergar. “Eu estava dentro do ônibus, fotografando da janela com uma câmera, e eu não sabia se aquele filme ia funcionar”, relembra. O improviso, a urgência e a tensão das ruas de Manaus são a alma de seu primeiro fotolivro, Verão Violento, que será lançado nesta próxima sexta-feira (25 de julho),  às 18h, na Galeria do Largo, na rua Costa Azevedo, no. 290, centro de Manaus. 

Realizado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab), por meio do Edital Macro de Chamamento Público nº 002/2024 do Conselho Municipal de Cultura de Manaus, o lançamento do fotolivro Verão Violento terá uma roda de conversa com Gabi Loys, artista visual e curadora de arte, e os fotógrafos Alberto César Araújo, editor de fotografia da agência Amazônia Real, e Juliana Pesqueira. Com a publicação, ela busca que as imagens falem por si só e gerem reflexões sobre os processos urbanos da capital.

“Quero que o livro inspire a luta por uma cidade melhor, arborizada, cultural e diversa, não só uma memória do passado colonial.” E conclui, “quero que as pessoas tenham um olhar novo de que Manaus pode ser uma uma nova cidade, cheia de possibilidades”, diz Nico Ambrosio, que é jornalista e repórter da Agência Amazônia Real.

A obra Verão Violento reúne imagens captadas entre 2020 e 2025, durante o período mais tenso da pandemia e no pós-confinamento, quando a violência urbana se aprofundou e os espaços públicos tornaram-se ainda mais inseguros para corpos racializados, trans e periféricos. A pandemia da Covid-19 começou em março de 2020, nesse período Nico já observa as nuances de seu território. Ao longo de mais de cem páginas, a artista escancara uma Manaus marginalizada que resiste em pichações e grafites, nas frestas de calçadas mal cuidadas, nos olhares desviados de quem sobrevive à cidade.

Nico, que cresceu e vive em Manaus, é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e atua com comunicação comunitária, jornalismo investigativo e projetos de arte. Ela iniciou sua trajetória como fotógrafa independente ainda na adolescência, aos 15 anos, sempre voltando seu trabalho às dinâmicas urbanas da cidade. Seu olhar não é o do estrangeiro que chega para explorar a alteridade amazônica, mas o de quem conhece os becos, as distâncias e os limites que uma cidade metropolitana na Amazônia impõe. É nessa vivência cotidiana que ela se inspira.

“Eu acho que ser uma pessoa que vive aqui, que trabalha aqui, que é daqui, me influenciou muito na forma de olhar e registrar a cidade, porque é uma visão muito única, sabe? Quando uma pessoa vem de fora e registra Manaus, ela não sabe como é a dinâmica dessa cidade. Como que ela funciona, como anda naquela rua, onde você pode andar, com quem você pode andar. Esse olhar que é daqui e garante uma autenticidade, uma visão e uma perspectiva local, regional, do que é viver aqui na cidade. É também um registro da minha própria vida, do meu próprio fluxo na cidade” explica a autora.

Para a artista amazônida, fazer fotografia urbana na Amazônia rompe com a imagética da Amazônia que é reduzida apenas à floresta ao mostrar que ela é muito maior do que se fala e exemplifica a diversidade de Amazônia que existem pelo país e suas peculiaridades.

“A Amazônia não é uma coisa só, são várias Amazônias. A Amazônia de Manaus é diferente da de Belém, Rio Branco, Macapá. No campo da imagem, precisamos pensar essas várias faces da Amazônia”.

O trabalho jornalístico de Nico é focado em direitos humanos, racismo ambiental e crise climática. Esses temas complexos e contemporâneos perpassam sua fotografia, tornando-a um instrumento de denúncia.

“Antes eu achava que fotografia e jornalismo não tinham muito a ver, mas percebi que esse trabalho ativista atravessa minha fotografia, como forma de denunciar as opressões na cidade: contra indígenas, pessoas negras, LGBTQIA+, manifestações artísticas de rua”.

O design do livro é também um ato político e simbólico que dialoga com tudo que as fotografias se propõem a debater visualmente. Com uma estética inspirada nos fanzines e nas publicações independentes de baixo custo, a obra busca valorizar narrativas visuais que sejam plurais e periféricas. 

A diagramação, por exemplo, foi assinada por Jaú Ribeiro, pessoa não binária do povo Tupinambá, do Pará, e designer formade pela Universidade Federal de Brasília (UNB). A tipografia, desenvolvida de forma original pelo grafiteiro e artista visual amazonense Vitor Maia, traz a estética do graffiti para o impresso.

“Essas colaborações dão visibilidade a identidades marginalizadas indígenas, trans e periféricas e mostram como essas pessoas vivem e trabalham na cidade. A tipografia grafitada traz para o livro a marginalidade da rua, que normalmente é apagada e ignorada das artes visuais”, explica a artista.

O verão que violenta a cidade

A imagem acima apresenta o livro Verão Violento, de autoria da jornalista e fotógrafa Nicoly Ambrosio (foto cedida por Nico Ambrosio)

O título, Verão Violento, remete ao filme italiano de 1959 Estate Violenta, de Valerio Zurlini, que aborda a guerra, mas também traduz o calor físico e simbólico de Manaus. Em 2024, a capital atingiu 39ºC, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma marca histórica para a região.

Além disso, carrega as ambiguidades de um lugar onde o calor da estação confunde-se com o da opressão. “A violência é algo que está presente o tempo inteiro, então você acaba naturalizando. E a fotografia surge como um jeito de me proteger também, como forma de entender o que está acontecendo”, diz a fotógrafa.

“Manaus vive muitos verões violentos. Quando chega setembro, vira um forno, um pólo de calor com temperaturas altíssimas. Esse calor está nas fotos. Apesar de serem em preto e branco, são imagens quentes, feitas sob o sol, que refletem luz e intensidade”.

A fotógrafa conta que as fotos que mais a emocionam são as de trabalhadores e trabalhadoras de rua, captadas em cenas rápidas e improvisadas.

“São várias fotos desses trabalhadores. Muitas foram feitas em momentos difíceis, como dentro do ônibus, fotografando da janela. Essas imagens me marcam porque mostram o movimento da cidade do jeito que ela é, com sua urgência e luta”, explica Nico.

Uma cidade de costas para a floresta

A foto acima faz parte do livro Verão Violento, de autoria da jornalista e fotógrafa Nicoly Ambrosio (foto cedida por Nico Ambrosio).

A urbanidade amazônica é muitas vezes apagada em nome de uma ideia homogênea de “Amazônia verde”, indígena e “natural”. Verão Violento quebra esse mito. Ao focar na cidade e não na floresta, a fotógrafa escancara uma Manaus que resiste em concreto “Manaus é uma cidade de costas para a floresta, que não aceita bem a diversidade”, observa Nico.

A capital amazonense é a sétima cidade menos arborizada do Brasil, de acordo com dados do Apenas 44,8% da área urbana de Manaus possui cobertura arbórea, revelou o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O colapso das árvores em Manaus foi registrado em texto pela jornalista e agora em livro fotográfico como artista. Segundo a autora, a degradação ambiental, igarapés poluídos e ausência de políticas públicas eficazes movem seus dedos para os clicks logo, sua fotografia são como olhos trazendo urgência para isso.

“É uma cidade de contradições, em que ao mesmo tempo é aqui que a gente vive a nossa vida, que a gente planeja os nossos sonhos, onde a gente come a comida que a gente ama, e que mesmo assim é uma cidade que é contraditória. Uma cidade onde a gente não pode mais tomar banho nos nossos igarapés, uma cidade onde é muito difícil de encontrar uma vegetação para se refrescar na sombra” contextualiza a artista.

O tempo da cidade e da memória

A foto acima faz parte do livro Verão Violento, de autoria da jornalista e fotógrafa Nicoly Ambrosio (foto cedida por Nico Ambrosio).

A curadoria das fotos, feita pela própria autora, durou sete meses, período em que a fotógrafa acompanhou as mutações da cidade. Entretanto, desde 2020 Nico vem classificando e selecionando imagens que tratam do caos urbano, prédios, trabalhadores de rua, manifestações artísticas como pichação e grafite, que são efêmeras e desaparecem com o tempo.  Para a artista foi um processo de entender o fluxo da mudança da cidade, o que desaparece e o que persiste.

O fotolivro traz uma escolha estética que reverbera na forma como a cidade é percebida: são imagens em preto e branco feitas em filme analógico 35mm, técnica que impõe ritmo lento, paciência e atenção.

Nico trabalha com fotografia analógica desde 2019 e é autodidata.  Sem cursos, aprendeu sozinha a calibrar a câmera e mirar o olhar. No processo de aprendizagem, optou pelo processo manual que artisticamente é uma forma de lidar com o tempo. Às vezes ela fotografa uma cena e só a revela dois ou até seis meses depois.

“É um exercício de paciência, observação e cuidado com a imagem e com o que ela guarda. Você sabe que só tem aquele único filme, aquele único momento para fazer a cena. Então, você observa com mais atenção e se conecta mais. Como minhas cenas acontecem na cidade, esse processo me faz olhar com mais cuidado para Manaus, para os corpos, para o movimento urbano”, conta a fotógrafa e jornalista Nico Ambrosio.

Durante os intervalos da programação de lançamento do fotolivro, o público poderá aproveitar a discotecagem do DJ Zulu MC Fino, ícone da cultura hip-hop do Amazonas, que comanda o som ao longo do evento com um set que mistura ritmos e sonoridades urbanas. A produção geral do evento é assinada por Beatriz Mascarenhas.

Sobre a autora

Nico Ambrosio (Foto: Mario Hirotoshi).

Nico Ambrosio é jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e fotógrafa independente. Iniciou sua trajetória na fotografia em 2015, de forma autodidata, com foco nas dinâmicas urbanas de Manaus. Trabalha com suportes digitais, analógicos e experimentais para registrar a Amazônia urbana e expressões de arte de rua, como o graffiti e a pixação. Desde 2018, participou de exposições coletivas em Manaus e mostrou seu trabalho no 10º Festival de Fotografia de Tiradentes (2020) e na Galeria do Largo – Espaço Mediações (2020). Como repórter, escreve sobre violações de direitos humanos, conflitos no campo, povos indígenas, populações quilombolas, racismo ambiental, crise climática, cultura, arte e direitos das mulheres, dos negros e da população LGBTQIAPN+ do Norte.  É vencedora do 1º Prêmio Neusa Maria de Jornalismo (2020), do Prêmio Sebrae de Jornalismo – AM (2024) e do Prêmio Megafone de Ativismo (2025) na categoria Reportagem de Mídia Independente. De 2020 a 2022, participou do projeto de Treinamento no Jornalismo Independente e Investigativo da Amazônia Real.

SERVIÇO

Lançamento do fotolivro “Verão Violento”, de Nico Ambrosio

Local: Galeria do Largo –  R. Costa Azevedo, 290 – Centro, Manaus – AM, 69010-230 (Largo de São Sebastião)

Data: 25 de julho (sexta-feira)

Horário: 18h

Roda de conversa com Gabi Loys, Alberto César Araújo e Juliana Pesqueira

Distribuição gratuita de exemplares (limitado)

A foto acima faz parte do livro Verão Violento, de autoria da jornalista e fotógrafa Nicoly Ambrosio (foto cedida por Nico Ambrosio).

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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