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ToggleExiste algo em comum entre o oceano e as mulheres.
Absorvemos impactos que quase ninguém vê.
Sustentamos a vida no planeta
Carregamos uma sobrecarga que raramente é reconhecida.
No Brasil, as mulheres dedicam em média quase 10 horas a mais por semana do que os homens ao trabalho doméstico e ao cuidado de outras pessoas. Esse trabalho sustenta famílias, economias e sociedades inteiras, mas na maior parte do tempo permanece invisível, não remunerado e pouco valorizado.
A desigualdade também aparece de forma clara no mercado de trabalho e na ciência.
Na ciência oceânica, por exemplo, as mulheres representam cerca de 38% dos cientistas, mas apenas 28% ocupam posições de liderança ou pesquisa sênior. Ao longo da carreira acadêmica, muitas acabam deixando o caminho científico – um fenômeno conhecido como leaky pipeline, quando talentos femininos vão sendo perdidos ao longo da trajetória.

As barreiras são diversas: menor acesso a financiamento, desigualdade em publicações científicas, dificuldade de conciliar maternidade e carreira, e uma cultura institucional que ainda carrega desigualdades profundas.
Em muitas regiões costeiras do mundo, as mulheres estão profundamente envolvidas no cuidado com os ecossistemas, desempenhando papéis essenciais na pesca artesanal, na segurança alimentar e na conservação dos territórios. Elas coletam mariscos, processam pescado, organizam redes comunitárias e sustentam economias locais.
Ainda assim, grande parte desse trabalho permanece fora das estatísticas oficiais e das mesas de decisão.
Algo semelhante acontece com o oceano
O oceano é um dos principais sistemas que possibilita a nossa existência no planeta Terra. Ele é responsável por absorver cerca de 90% do excesso de calor gerado pelas mudanças climáticas e aproximadamente 25% de todo o dióxido de carbono emitido pela humanidade. Sem esse papel amortecedor, a temperatura global já seria muito mais alta e os impactos climáticos muito mais extremos.
Mas essa capacidade de absorver impactos também tem limites.
O oceano está aquecendo rapidamente, tornando-se mais ácido e acumulando quantidades crescentes de poluição. A acidificação já aumentou cerca de 26% desde o período pré-industrial, afetando recifes de coral, cadeias alimentares marinhas e a biodiversidade que sustenta milhões de pessoas ao redor do planeta.
Ao mesmo tempo, toneladas de plástico entram no mar todos os anos, pressionando ainda mais ecossistemas que já enfrentam mudanças climáticas, sobrepesca e degradação ambiental.
Nas zonas costeiras, onde oceano e sociedade se encontram, as pressões também se intensificam. A especulação imobiliária e turismo irresponsável e sem planejamento tem transformado rapidamente litorais inteiros, muitas vezes às custas da destruição das restingas, manguezais e dunas, ecossistemas fundamentais para a proteção da costa, da biodiversidade e dos povos do mar.
Decisões políticas recentes também têm colocado novos riscos sobre esses territórios. Propostas que flexibilizam regras ambientais ou aceleram processos de licenciamento para atividades com alto impacto sobre o oceano vêm sendo pautadas e aprovadas no Congresso brasileiro em ritmo acelerado, muitas vezes sem o debate público necessário e com pouca transparência, reduzindo o espaço de participação da sociedade civil.
Em outras palavras, o oceano tem sustentado silenciosamente uma grande parte do impacto do nosso modelo de desenvolvimento.

A resiliência não deveria ser infinita: cuidar de quem está cuidando
Tanto o oceano quanto as mulheres carregam uma expectativa silenciosa de que vão aguentar mais um pouco. Mais uma demanda. Mais uma responsabilidade. Mais um impacto. Mas nenhum sistema consegue ser resiliente para sempre.
A crise ecológica e o patriarcado não são fenômenos isolados. Elas fazem parte da mesma lógica que trata ambientes e pessoas como se fossem recursos inesgotáveis. Como lembra a pensadora feminista Silvia Federici, grande parte do trabalho que sustenta a vida: o cuidado, a reprodução social e o trabalho invisível, foram naturalizados como se fosse um recurso inesgotável disponível apenas nas mulheres.
Não somos recursos, somos lugares vivos, cheios de relações e presenças.
Se queremos um futuro mais justo e equitativo, com um oceano saudável e resiliente, precisamos mudar nossa relação com aquilo que sustenta a vida. E essa transformação não é uma tarefa apenas das mulheres.
Ela também depende de homens que estejam dispostos a dividir responsabilidades e questionar privilégios, ampliando a presença de mulheres nos espaços de decisão da ciência, da política e da conservação.
Cuidar de quem está cuidando é promover relações mais justas, dentro de casa, no trabalho e nas decisões sobre o futuro do planeta.

Quem cuida também precisa descansar
Uma das formas mais eficazes de regenerar o oceano são as áreas marinhas protegidas, que são verdadeiros santuários onde a biodiversidade pode se recuperar e transbordar vida para além de seus polígonos.
Talvez possamos aprender algo com isso.
Descansar não é desistir. Priorizar-se não é egoísmo. E desacelerar não diminui a potência de quem luta por mudança. Pelo contrário, cuidar de si também é uma forma de ativismo.
Mulheres também precisam de espaços para que a vida se restabeleça: tempo para descanso, redes de apoio e de cuidado. Onde seja possível pausar, respirar e existir sem carregar tudo sozinha. Mas descanso não é uma escolha individual. Ele depende de condições estruturais.
A escritora e pensadora Bell Hooks lembrava que o cuidado, o amor e a construção de comunidades de apoio são práticas profundamente políticas – e essenciais para sustentar qualquer transformação social.
Para nós o descanso só será possível quando tivermos autonomia sobre o próprio corpo, políticas públicas que enfrentam o feminicídio e igualdade salarial. Conseguiremos existir sem sobrecarga quando tivermos divisão justa do trabalho doméstico, acesso amplo a creches públicas de qualidade e licenças parentais que reconheçam que o cuidado com uma criança não é responsabilidade exclusiva das mulheres.
Finalizo citando a Mirna Anaquiri, uma pesquisadora indigena que conheci essa semana e que me tocou com uma frase muito potente:
“Para estar na guerra é preciso estar descansada. Uma guerreira descansada fortalece a luta”.
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