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ToggleExiste uma contradição na relação do brasileiro com o carro. De um lado, manter um automóvel pesa no orçamento: combustível, seguro, manutenção, impostos e estacionamento. De outro, para muita gente, abrir mão dele parece impossível.
A pesquisa recente Ipsos Mobility Report 2026 ajuda a dimensionar esse vínculo. Em média, nos 31 países pesquisados, incluindo o Brasil, 43% dos proprietários de carros dizem que não conseguiriam viver sem o próprio veículo. Outros 43% afirmam que até poderiam, mas preferem mantê-lo. Para a grande maioria desses condutores, portanto, o automóvel deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a fazer parte da própria ideia de como a vida urbana deve funcionar.
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O problema é que, cada vez que milhares de pessoas ligam seus carros para percorrer as mesmas avenidas congestionadas, até quem não tem veículo próprio paga essa conta. E não apenas em dinheiro: paga com tempo perdido no trânsito, com poluição do ar, com ruído, com acidentes, com estresse e com espaço urbano ocupado por veículos.
Além disso, o acesso à cidade fica congestionado, favorecendo mais uma vez quem tem recursos financeiros para arcar com os custos de ter um veículo próprio e limitando o lazer, educação e trabalho de quem vive distante das centralidades urbanas, onde o custo de morar é muito maior.
Segundo dados do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários (ano-base 2024), publicado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) em parceria com o Governo Federal, os carros de passeio são a categoria amplamente majoritária de veículos no país, representando 63% do total ou cerca de 44,7 milhões de unidades.
É por isso que o Dia Mundial sem Carro, em 22 de setembro, pode ser mais do que um convite para passar 24 horas sem pegar no volante. A data propõe uma pergunta maior: “Precisamos de tantos carros para uma cidade funcionar?”
E aqui cabe um alerta: não basta trocar carros a combustão por elétricos. A eletrificação é importante e pode reduzir ruídos e emissões de gases de efeito estufa e de poluentes locais, mas não elimina outras externalidades negativas do automóvel, como os congestionamentos. Se queremos cidades mais saudáveis e uma transição de baixo carbono de verdade, precisamos discutir o acesso à cidade por formas ativas, coletivas e menos emissoras.
O caminho é oferecer alternativas reais para deixar o carro em casa e repensar uma lógica comum nas cidades brasileiras: a de que primeiro construímos a infraestrutura para os carros e depois tentamos descobrir onde encaixar as pessoas.
Os números mostram o tamanho do desafio. O estudo “Brasil 2045: Proposta de 2ª NDC para o Brasil”, do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, indica que o crescimento da quilometragem percorrida por automóveis de passeio precisaria ser limitado a 15% entre 2015 e 2035. Isso para reduzir ao máximo o consumo de combustíveis fósseis e as emissões de gases de efeito estufa do setor.
A medida faz parte de uma estratégia mais ampla de mudança na mobilidade urbana que prevê reduzir a dependência do transporte individual e ampliar o uso de ônibus, metrô e bicicleta, além do andar a pé. No cenário citado, a quilometragem percorrida por ônibus urbanos mais do que dobraria no período.
Há mudanças simples que cabem na rotina como caminhar, pedalar, usar o transporte coletivo ou compartilhar caronas. Mas a responsabilidade não pode ser colocada apenas sobre o indivíduo.
A escolha individual depende das escolhas coletivas. Por isso, mudar a mobilidade brasileira exige investimento público e planejamento urbano. Dados do mesmo relatório citado acima, do SEEG, indicam a necessidade de cerca de 95 mil quilômetros adicionais de ciclovias, quatro mil quilômetros de corredores de BRT e mil quilômetros de metrô até 2035, tomando como referência a infraestrutura existente em 2015.
O Dia Mundial sem Carro deveria ser menos sobre ficar um dia sem dirigir e mais sobre imaginar uma cidade em que deixar o carro em casa não seja um sacrifício. Porque a verdadeira liberdade de escolha na mobilidade não é poder escolher entre um carro a gasolina e um carro elétrico. É poder escolher não pegar nas chaves do carro.
Referências:
Mitigação das emissões de metano. Brasil 2045: Construindo uma potência ambiental Adendo ao volume 3 (Bases para a 2a NDC do Brasil – 2030-2035), 2025
Ambient (outdoor) air pollution. World Health Organization, 2024
Public Transport, Mobikes and Walking Lead India’s Mobility Choices: Ipsos Mobility Report 2026
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