Márcia Mura – a palavra como flecha

Márcia Mura – a palavra como flecha
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Márcia Mura – a palavra como flecha

A tela do Zoom trouxe o olhar atento e as marcas de expressão de um rosto que sorri, mesmo quando os desafios são permanentes. A habilidade de Márcia em me acolher como seu interlocutor, com o cumprimento Puranga Karuka (boa tarde) em nheengatu, deu o tom do nosso encontro. Sagaz no manejo dos fios da ancestralidade, capaz de traçar imagens, conexões, gestos, como num bordado que ponto a ponto foi revelando o seu tesouro: a força do legado Mura…

Por Marcelo Carnevale/Amazônia Real 

A conversa nos remeteu rapidamente para Nazaré, distrito que a escritora escolheu como residência para dar conta do seu “movimento de interiorização”. Trata-se de uma comunidade a 150 quilômetros do centro de Porto Velho, na região do Baixo Madeira, com população em torno de 550 habitantes, composta por 130 famílias.

Segundo Márcia, as pessoas desse vilarejo se identificam como ribeirinhas, mas na sua avaliação são muitas as camadas sobrepostas pela sociedade não indígena fazendo com que esse núcleo pendule entre o urbano, o consumismo da vida capitalista, e a percepção indígena, seu modo de ser e a interligação com o ambiente inteiro. Também existe “uma Nazaré mais interna, da floresta”.

É nesse pedaço que a vida em comunidade assume o tom restaurativo para quem já viveu em muitos lugares, inclusive no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), alojamento estudantil localizado na Cidade Universitária, em 2014, época do doutorado. “Eu fiquei o ano inteiro e levei meus filhos de forma ilegal, eles já tinham 17 e 20 anos, levei assim mesmo”, revela com um sorriso suave de quem assume convictamente as próprias escolhas como ato político.

Se a pequena Nazaré representa uma dessas escolhas, a agenda ativista coloca a educadora e escritora num nomadismo calculado. Sua movimentação obedece a um traçado que a princípio parece errante no mapa geopolítico brasileiro, mas coerente com a geografia “Mura de Pindorama”, como ela faz questão de ressaltar.

Dessa forma, sua narrativa se inscreve no território a partir da movimentação do seu próprio corpo. “Eu subi o rio há três semanas para visitar meu filho e a família dele com a minha nova netinha, na Resex Ouro Preto (Reserva Extrativista do rio Ouro Preto, área de 204.583 hectares em Rondônia). Participei de um puxirum (mutirão) com eles. Trabalhei no roçado, nos cuidados com a neném. Depois a gente foi para um ato em defesa dos rios, protestamos contra as hidrelétricas. É muita coisa que acontece ao mesmo tempo”.

Márcia Mura faz parte de um comitê em defesa da vida na bacia do rio Madeira, numa luta constante contra a imposição de duas hidrelétricas na região: a binacional que envolve uma parceria com o governo da Bolívia, no rio Madeira, entre os municípios de Nova Mamoré e Guajará-Mirim (RO) e a hidrelétrica Tabajara, no rio Machado, em Machadinho D’Oeste (RO), a cerca de 300 quilômetros de Porto Velho, mais próxima de Nazaré e que, na sua avaliação, afetará populações tradicionais e povos isolados. “A coisa está em curso e nós também estamos em resistência”, alerta.

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