Hidrelétrica de Tucuruí: 38 anos sem comemoração

Hidrelétrica de Tucuruí: 38 anos sem comemoração
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Há 38 anos, em 22 de novembro de 1984, entrou em operação em Tucuruí, no centro-sul do Pará, a 350 quilômetros de Belém, umas das maiores hidrelétricas do mundo, exatamente 10 anos depois de iniciada a sua construção. Na época com capacidade de 4 mil megawatts (mais de 100 vezes a geração de energia na Amazônia de então), sua potência instalada é agora de 8.535 MW. É a maior hidrelétrica inteiramente brasileira, só inferior a Itaipu, que é binacional em partes iguais de Brasil e Paraguai, construída na mesma época.

A Eletronorte, subsidiária da Eletrobrás responsável pela obra e que a opera até hoje, comemorou a data com um curto registro no seu Facebook, apresentando-a como uma façanha da engenharia, que deu início ao ciclo de grandes barragens na Amazônia, sobretudo no Pará, quinto maior gerador de energia e o Estado que mais transfere energia bruta para outras regiões do país. No seu post, a Eletronorte destaca o vertedouro da barragem, com capacidade para 110 mil metros cúbicos por segundo, o segundo maior do mundo.

Para a concessionária essa é uma história “cheia de desafios na maior floresta tropical do planeta. Histórias de um desenvolvimento sustentável que já faz a diferença e mostra caminhos para uma Amazônia preservada. Uma história de gente chegando, gente com saudade, gente construindo um futuro, gente escrevendo a história do setor elétrico brasileiro”.

No entanto, é fora da região que é mais intenso o efeito multiplicador da expansão acelerada da produção de energia, com três grandes hidrelétricas depois de Tucuruí (Santo Antônio e Jirau no rio Madeira, em Rondônia, e Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, a quarta maior do mundo), conectadas com os principais centros consumidores, no sudeste do país, pelas mais extensas linhas de transmissão do planeta, acima de dois mil quilômetros de extensão, num total de 11 mil quilômetros, equivalente à distância entre Brasília e Moscou.

Como a prioridade sempre foi a maior geração possível de energia nos rios amazônicos, com pouca declividade natural, as barragens são muito altas. Em Tucuruí, surgiu um declive de 69 metros, entre o nível de 74 metros rio acima e 5 metros a jusante da barragem.

O Código de Águas, com quase 90 anos, impõe a execução do sistema de transposição da muralha de concreto, equivalente a um prédio de mais de 20 metros, para manter a navegabilidade do rio Tocantins. Com 2,5 mil quilômetros de extensão, ele é o 25º maior rio do mundo.

As obras da transposição só foram iniciadas em 1981, sete anos após o início da construção da represa. A partir de 1984 o ritmo do trabalho foi diminuindo até parar completamente, em 1989. Só foi retomado em 1998, mas com interrupções. Acelerou mesmo em 2007. Lula inaugurou o sistema em dezembro de 2010, no final do seu segundo mandato como presidente da república.

Era a maior conjunto de eclusas do Brasil e um dos maiores do mundo, cada uma das eclusas (uma espécie de elevador de barcos que entram numa câmara de concreto e aço) com 210 metros de comprimento, 33 de largura e 48,5 de altura. Interligando as duas eclusas, um canal de concreto de sete quilômetros. Custo da obra: 1,7 bilhão de reais.

A operação comercial da transposição começou quase um ano depois da inauguração, em novembro de 2011, mas o funcionamento durou pouco. Hoje as operações estão paralisadas, por um conjunto de fatores aos quais se agrega outro elemento: para que a hidrovia alcance sua extensão máxima, de 500 quilômetros, superando trechos não navegáveis durante parte do ano, com a diminuição do nível das águas do Tocantins, é necessário fazer derrocamento e dragagem ao longo de 43 quilômetros de um trecho encachoeirado conhecido como Pedral do Lourenço.

No final de março, o Ibama concedeu a licença prévia para as obras, cujo custo poderá chegar a um bilhão de reais. O licenciamento tem sido muito contestado pela comunidade acadêmica e pelos habitantes da região, sobretudo milhares de pescadores. Eles se queixam de não terem sido ouvidos e temem ficar sem os peixes, em virtude da alteração das correntes fluviais.

Os integrantes do agronegócio defendem a ampliação da hidrovia, que já movimentaria 14 milhões de toneladas por ano, mas poderia chegar a 30 milhões de toneladas, principalmente de combustíveis, minérios, soja e milho. O comboio proposto para operar com a remoção da areia e das pedras, teria nove barcaças, com capacidade para 19 mil toneladas. É volume equivalente à carga transportada em 191vagões ferroviários (como os da ferrovia de Carajás, operada pela mineradora Vale) e 708 carretas rodoviárias.

Mas técnicos e cientistas não consideram satisfatórios os estudos sobre o impacto ambiental da obra sobre a fauna aquática do Tocantins, sobretudo tartarugas, tracajás e botos. As informações não permitiriam garantir que eles não serão prejudicados e sua existência ameaçada. Quem construiu Tucuruí considerou esses fatores secundários ou meros “detalhes” de um plano concebido para transformar a Amazônia em província mineral e energética do Brasil e do mundo.


A imagem que abre este artigo é de autoria Bruno Huberman/ Repórter do Futuro e mostra a barragem da UHE de Tucuruí, no Pará.


Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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