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Espécie de morcego é reencontrada após mais de um século

Espécie de morcego é reencontrada após mais de um século

Em 1916, o naturalista britânico Oldfield Thomas descreveu uma nova espécie de morcego no . Um dos grandes taxonomistas do mundo, Thomas descreveu brevemente o morcego, a partir do exemplar que havia sido coletado no norte de Santa Catarina. Com cerca de 12 centímetros – menor que a mão de um adulto – e orelhas singulares, o pequeno morcego permanecia ainda um grande mistério. E por mais de um século, este foi o primeiro e único registro conhecido da espécie, batizada de Histiotus alienus, depositado no Museu de Natural de Londres. Exatos 102 anos depois, o morcego foi finalmente reencontrado e a ciência ganhou uma nova chance de jogar luz sobre este animal tão raro.

A redescoberta da espécie se deu ao acaso, durante uma pesquisa de campo no Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas, em novembro de 2018. A área protegida, localizada no sul do Paraná, próximo à divisa com Santa Catarina, abriga campos nativos e pequenos fragmentos de florestas de araucária, cercados por plantações e usinas eólicas – que representam uma ameaça aos morcegos.

Durante a pesquisa, um macho adulto foi capturado em uma das redes de neblina usadas para a amostragem das espécies de morcego no refúgio. O animal buscava alimentos justamente na área de transição entre os campos nativos e a borda da floresta de araucária. O exemplar coletado foi encaminhado e depositado no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“No momento da captura percebemos que alguns dos caracteres morfológicos [características físicas] eram diferentes do esperado para as espécies que poderiam ocorrer no local, podendo talvez se tratar de uma nova espécie ou alguma espécie não registrada no Brasil”, lembra o pesquisador da Fiocruz Mata Atlântica, Vinícius Cardoso Cláudio, um dos responsáveis pela redescoberta do H. alienus

Seguiu-se então um longo processo de estudo e comparações – que incluíram a análise de mais de 180 exemplares do gênero Histiotus, que possui 11 espécies conhecidas de morcegos neotropicais. Entre elas o esqueleto do exemplar descrito por Thomas em 1916, armazenado no Museu de História Natural de Londres, na Inglaterra. 

A principal característica que distingue o H. alienus são as orelhas. Menores do que as dos seus congêneres e em formato triangular, conectadas por uma membranas. Essa peculiaridade, aliás, está por trás do próprio nome da espécie, “alienus”, que significa estranho em latim. Além disso, seu dorso possui pelos compridos e avermelhados, enquanto as costas apresentam pelos escuros. Justamente por ser tão desconhecida, a espécie não possui (ainda) um nome popular.

Mapa mostra as duas únicas localidades conhecidas para o H. alienus. No norte de Santa Catarina, em Joinville, o primeiro registro, de 1916. No sul do Paraná, o registro feito em 2018 no Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas. As áreas em verde mostram os fragmentos remanescentes de Mata Atlântica. Fonte: “Rediscovery of Histiotus alienus Thomas, 1916 a century after its description (Chiroptera, Vespertilionidae): distribution extension and redescription” (2023) / Reprodução

A confirmação de que se trata do H. alienus, o morcego de um século atrás, amplia em aproximadamente 300 quilômetros a área de distribuição da espécie. A expansão equivale a distância entre Joinville (SC), onde o primeiro exemplar foi coletado, e o município de Palmas (PR), onde está o refúgio. As duas localidades, do lado paranaense e catarinense, são as únicas conhecidas para a espécie até o momento, que é exclusiva da Mata Atlântica. 

Além disso, o achado mostra que o pequeno morcego vive desde florestas tropicais densas até araucárias, matas ciliares e campos, em altitudes que vão desde o nível do mar até mais de 1.200 metros de altitude.

As informações sobre a redescoberta foram detalhadas em artigo no periódico ZooKeys, com acesso aberto.

O projeto reúne cientistas do Laboratório de Análise e Monitoramento da Mata Atlântica (Lamma) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio do ICMBio e do CNPq – que financia o projeto “Mamíferos do Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas e do Parque Nacional dos Campos Gerais”, através do qual foi feita a captura do morcego.

A coordenadora do projeto, Liliani Marilia Tiepolo, da UFPR, explica que ainda não é claro porque levou tanto tempo para a espécie ser reencontrada. “Pode ser uma espécie naturalmente rara. Pode ser uma espécie que sofreu muito o impacto da devastação da Mata Atlântica, tanto no passado quanto no presente. Ou pode se tratar de uma espécie que é difícil de ser coletada com técnicas tradicionais”, conta, em entrevista à Ciência UFPR.

Os pesquisadores acreditam que a revisão de exemplares de morcegos armazenados em coleções científicas e oriundos, principalmente, do sul do Brasil, pode revelar novos registros de H. alienus

“É um achado muito significativo, pois traz luz a uma série de novas informações científicas sobre a espécie, sua evolução, relações de parentesco e morfologia a partir de uma nova descrição mais elaborada e detalhada, que poderá ser útil para novas identificações. A descrição original de 1916 era limitada a poucas informações, como era típico na época”, afirma a coordenadora da UFPR.

Mesmo com pouca informação disponível – inclusive sobre a tendência populacional – o ICMBio classifica a espécie como “Pouco Preocupante” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas nacional, feita em 2018. Na lista internacional, organizada pela IUCN, a espécie é classificada como “Dados Deficientes”, ou seja, não há informações suficientes para a avaliação.

Apesar disso, justamente por sua aparente raridade e as pressões que rondam o pouco que sobrou da Mata Atlântica na região, os pesquisadores alertam que a espécie pode estar em grave risco de extinção. 

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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