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ToggleAs eleições de 2026 ocorrerão em um contexto que já não permite tratar a questão climática como mais um tema ambiental entre tantas outras agendas, ou relegá-la apenas a alegações cosméticas frequentes em programas políticos superficiais.
Ondas de calor, secas, incêndios, enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos demonstram que entramos em um período no qual a capacidade de antecipar riscos tornou-se uma das principais responsabilidades de quem governa. Isso modifica também a responsabilidade de quem os elege.
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Avaliar candidatos por suas propostas para economia, emprego, saúde, educação, segurança e infraestrutura é importante. Mas a emergência climática acrescentou a exigência essencial: é preciso saber se aqueles que pretendem governar compreendem e tomarão medidas sobre o mundo no qual terão de governar.
Esse é um dos grandes dilemas das eleições de 2026. Um governante sem compreensão da crise climática não representa apenas uma posição ideológica diferente. Representa incapacidade objetiva de reconhecer riscos que ameaçam a população, a economia e o próprio funcionamento da sociedade.
As eleições estão colocando a ecologia no cerne da política. Podemos divergir sobre impostos, modelos administrativos ou prioridades orçamentárias. Mas não haverá negociação política capaz de suspender os efeitos físicos da atmosfera mais aquecida sobre a sociedade, com chuvas intensas, secas, calor extremo e incêndios que não distinguem eleitores de esquerda, centro ou direita.
É justamente aí que surge uma nova dimensão da responsabilidade democrática. Governar tornou-se antecipar e administrar riscos.
O governante do século XXI terá de administrar adaptação climática e suas interfaces com desenvolvimento econômico, infraestrutura, recursos hídricos, segurança alimentar, energia, saúde pública, biodiversidade e ocupação territorial.
A onda de calor deste último verão europeu deixou gosto amargo. Demonstrou como o calor pode aumentar mortalidade, pressionar hospitais, elevar o consumo de energia, reduzir produtividade e aprofundar desigualdades.
É voz corrente entre as linhas de pensamento europeu mais progressista que, nos tempos atuais, a ecologia transformou-se na “mãe de todas as batalhas”. Uma seca prolongada pode comprometer abastecimento público, agricultura e geração elétrica. Chuvas extremas podem ceifar vidas atingindo especialmente populações vulneráveis que habitam áreas de risco, com sistemas de estabilidade e drenagem dimensionados para um clima que já não existe.
A moderna administração pública começa, por isso, a trabalhar com o conceito de governança antecipatória: observar tendências, identificar sinais de mudança, construir cenários e incorporar contingência e preparação às decisões do presente. É uma mudança profunda na própria ideia de governo. Por isso, a emergência climática está transformando a capacidade antecipatória em requisito de governo.
Governar depois da tragédia significa fracassar na função essencial de proteger. A pergunta que deveria ser dirigida a cada candidato é simples: quais riscos climáticos ameaçam a população que você pretende governar e o que pretende fazer antes que eles se transformem em desastre?
A qualidade da resposta dirá muito sobre sua capacidade para exercer o poder. Porque existe uma categoria particularmente perigosa neste momento histórico: o político cuja visão permanece presa ao curto prazo. É aquele que mede desenvolvimento apenas pela quantidade de obras executadas, quilômetros de estradas construídos ou investimentos anunciados, sem perguntar se essas decisões aumentam ou diminuem vulnerabilidades futuras.
Planejar uma cidade sem considerar temperaturas extremas, autorizar ocupações sem compreender a dinâmica das águas, reduzir áreas verdes, fragilizar sistemas de fiscalização, desprezar a ciência ou tratar o licenciamento ambiental como simples obstáculo burocrático são até capazes de produzir ganhos políticos imediatos, na medida em que transferem enormes e cumulativos riscos e custos sociais para o futuro.
Aqui surge uma contradição democrática fundamental: os mandatos são curtos, mas as consequências das decisões públicas podem atravessar gerações. A Organização do Comércio para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) chama atenção para a necessidade de construir instituições capazes de sustentar políticas climáticas de longo prazo através dos ciclos eleitorais.
A administração pública contemporânea precisa, portanto, conciliar a temporalidade curta da política com a temporalidade sinérgica e cumulativa dos riscos ambientais. Por isso, o problema não se limita ao negacionismo climático explícito. Existe uma forma institucionalmente mais perigosa de negacionismo: reconhecer discursivamente a mudança climática, mas continuar governando como se ela não existisse.
É possível mencionar sustentabilidade em discursos e manter planejamento territorial, infraestrutura, defesa civil e políticas ambientais estruturados segundo parâmetros insuficientes do século passado. Esse enganoso negacionismo de simulação, acobertado por greenwashing, coloca a sociedade em situação de fortes riscos.
A disputa pragmática pelo poder, conforme observou Maquiavel, pode levar o mundo da política a cultivar mais a aparência do que a realidade. Mas a emergência climática exige mais do que declarações. Exige capacidade institucional.
O Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC) vem apontando que governança, conhecimento, capacidade institucional e financiamento constituem condições essenciais para que adaptação e gestão de riscos efetivamente ocorram.
Isso modifica aquilo que devemos exigir dos candidatos. Precisamos perguntar como pretendem proteger a sociedade diante dos riscos que já conhecemos. Defendem sistemas de alerta precoce? Conhecem as áreas vulneráveis? Pretendem mapear populações expostas ao calor extremo? Como protegerão escolas, creches, hospitais e instituições de longa permanência? Qual será sua política de segurança hídrica? Como incorporarão projeções climáticas ao planejamento urbano? Pretendem fortalecer os órgãos ambientais, instituições científicas e sistemas de licenciamento? Como integrarão universidades, centros de pesquisa e participação social às decisões públicas?
Essas perguntas deveriam ocupar debates eleitorais, entrevistas, programas de governo e sabatinas públicas. Porque existe uma diferença profunda entre administrar superficialmente o presente e governar o futuro.
Governança não significa simplesmente governo. Em sentido contemporâneo, governança envolve as estruturas, processos, instituições, regras e relações por meio das quais a sociedade identifica problemas, estabelece prioridades, toma decisões, implementa políticas e avalia seus resultados.
O IPCC ressalta que uma governança climática efetiva depende de instituições articuladas entre diferentes escalas, setores e horizontes temporais, capazes de responder à natureza dinâmica e incerta dos riscos.

Foto: Isac Nóbrega/PR
Essa concepção é especialmente importante para a emergência climática porque nenhum ministério, secretaria ou prefeitura conseguirá enfrentar isoladamente um fenômeno sistêmico. Água, clima, biodiversidade, saúde, energia, habitação, infraestrutura e planejamento territorial precisam conversar institucionalmente. Problemas sistêmicos exigem governos capazes de pensar sistemicamente.
Ciência e democracia precisam caminhar juntas. Nenhum governante pode prescindir do conhecimento para enfrentar a complexidade da emergência climática. Por isso, outro critério essencial para avaliar candidatos é sua relação com a ciência e com a participação social.
Governos preparados precisam construir aquilo que podemos chamar de inteligência pública ambiental: capacidade permanente de reunir ciência, monitoramento ambiental, conhecimento territorial, planejamento, participação social e instrumentos jurídicos para interpretar mudanças, antecipar riscos e orientar decisões.
Essa concepção encontra respaldo na própria evolução da governança climática internacional. O IPCC reconhece que processos inclusivos de governança contribuem para resultados de adaptação mais efetivos e duradouros e destaca a importância da articulação entre governos, comunidades, sociedade civil, instituições científicas e educacionais.
A ciência permite compreender os fenômenos. A participação social permite compreender como esses fenômenos atingem concretamente territórios e pessoas. O planejamento transforma conhecimento em prevenção. E instituições públicas capazes transformam prevenção em proteção.
Desmontar qualquer uma dessas dimensões significa reduzir a capacidade coletiva de enfrentar aquilo que está por vir.
O voto é uma decisão sobre capacidade de governo. É essencial incorporar uma nova pergunta ao exercício da cidadania: aqueles que pretendem ser eleitos compreendem o tempo histórico em que vivemos?
Trata-se de exigir algo elementar de quem pretende exercer o poder: capacidade de reconhecer evidências, ouvir a ciência, compreender riscos, planejar preventivamente e construir instituições competentes.
A emergência climática está transformando, portanto, a própria noção de competência política. Não basta perguntar o que pretende construir, mas também quais riscos pretende evitar. Não basta perguntar quanto pretende investir, mas qual vulnerabilidade pretende reduzir. Não basta perguntar como reagirá à próxima tragédia, mas o que fará para que ela não aconteça.
Porque determinadas decisões tomadas nos próximos anos produzirão consequências durante décadas. Estradas, cidades, barragens, sistemas de abastecimento, padrões de ocupação territorial e políticas energéticas deixam heranças muito mais longas do que os mandatos daqueles que as decidem.
Mandatos duram quatro anos. Suas consequências ambientais podem atravessar gerações. Essa talvez seja uma das questões centrais das eleições de nosso tempo.
A democracia sozinha não pode garantir que o futuro seja fácil. Mas pode produzir escolhas que permitam enfrentá-lo com competência.
Referências essenciais
IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Working Group II Contribution to the Sixth Assessment Report. Cambridge University Press, 2022.
IPCC. Climate Change 2023: Synthesis Report. Sixth Assessment Report. Geneva, 2023.
OECD. Building Trust and Reinforcing Democracy: Preparing the Ground for Government Action. Paris: OECD Publishing, 2022. Seção “Governing Green”, especialmente o conceito de anticipatory governance.
OECD. Government at a Glance 2025. Paris: OECD Publishing, 2025. Capítulo “Governing for the Green Transition”.
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