Dançarinos cobram volta do Festival Amazonas de Dança

Dançarinos cobram volta do Festival Amazonas de Dança
Por Amazonia Real

Grupo de artistas do Movimento Levante Mao protestou na sede da Secretaria de Cultura do Amazonas; secretário afirma que está aberto ao diálogo. Na imagem, dançarinos se jogam ao chão (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real).


Manaus (AM) – Com cartazes erguidos, fazendo movimento de danças e gritando palavras de ordem, artistas do Movimento Levante Mao, de Manaus, realizaram protesto na sede da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM), na manhã de quinta-feira (17). Eles protocolaram documento em que pedem mudanças no que seria o maior evento do setor nos últimos dois anos de pandemia.

O “1º Encontro de Profissionais da Dança do Amazonas” começou a ser divulgado em 11 de fevereiro, quando as inscrições foram abertas ao público. O encontro deveria ter ocorrido entre 17 e 19 de fevereiro, no Palácio da Justiça, no Centro de Manaus. Mas ele foi suspenso após pressões internas feitas pelos artistas à secretaria.

O artista e performer Francisco Rider, do Movimento Levante Mao, é um dos precursores do teatro e da dança amazonense, com histórico que iniciou em 1980, inspirado por outros dançarinos como Nonato Tavares e Roberto Evangelista. Ele esteve presente na manifestação. “Quanto está sendo investido para fazer esse encontro? Não sabemos. Queremos transparência sobre a criação dessa comissão, é uma falta de diálogo e transparência vindo da secretaria”, disse.

A programação do evento envolvia roda de conversa com os profissionais e duas palestras sobre as metodologias de instituição de representatividade. Na tentativa de fazer as cobranças, os artistas escreveram uma carta e questionaram os valores gastos, as oficinas que seriam ministradas e a participação dos alunos da graduação em dança.

“Nos preocupa saber como o dinheiro público está sendo gerido sem uma transparência e sem ações que, de fato, irão reverberar e contribuir para a economia dos profissionais da dança, especialmente os artistas autônomos que foram severamente afetados pela pandemia da Covid-19”, disseram.

Na última sexta-feira (11), Rider e a artista Francis Baiardi protocolaram pedido de suspensão, o que de fato ocorreu posteriormente, mas eles ainda não sabem o que deve ocorrer para o retorno das atividades. “É uma falta de respeito não termos respostas claras, o mínimo que um gestor deveria fazer era ligar para conversar, com clareza. Essa omissão, essa falta de atitude é revoltante, para qualquer corpo político”, disse Baiardi.

Há dois anos os artistas do setor da dança estão com atividades suspensas. O Festival Amazonas de Dança (FAD) que ocorre desde 2009 foi interrompido pela pandemia da Covid-19 e não esteve entre as prioridades nos últimos anos. Festivais de outros setores foram feitos no estado. Em junho de 2021, ocorreu o Festival  Amazonas de Ópera (FAO), de forma online, com webinars, aulas e apresentações.

Em outubro de 2021, a SEC também apoiou o Festival de Teatro da Amazônia, cuja programação incluiu atividades presenciais em Manaus e no município de Iranduba, além de apresentações e debates online. Em novembro de 2021, a secretaria também anunciou a continuidade do Festival Amazonas Jazz, previsto para ocorrer em julho de 2022, sendo a 10ª edição.

“Existe uma subalternização das linguagens artísticas, como se a música estivesse no topo. Na história da estética vemos que a música está acima. Vimos acontecer o festival de Teatro, de Ópera, de Circo. Queremos o retorno do FAD”, explica Francisco Rider.

Em entrevista à reportagem da Amazônia Real, o secretário Marcos Apolo afirmou que não é contra o FAD e que suspendeu o “1º Encontro de Profissionais da Dança do Amazonas” após perceber que existiam divergências entre os artistas a respeito da realização do evento. “Eles são todos artistas reconhecidos na cena da dança, então foi montada uma comissão (com artistas da dança)  para ficar a frente e entre eles foi sugerido esse encontro, até para fortalecer o diálogo entre o movimento. Quando a gente identificou as discordâncias, fizemos a suspensão do evento e da divulgação interna”, afirmou.

Apolo afirma que a comissão ficou responsável por definir como o evento ocorreria e que a secretaria estava dando apoio, mas sem grandes interferências. Ele afirma também que vai esperar os artistas entrarem num acordo para decidir como a SEC vai participar.

“Que eles tragam a proposta. Vamos conversar e avançar, da mesma forma que ocorreu com os artistas do circo, do teatro. Não é filosofia desta secretaria impor qualquer tipo de formato. Até porque um dos nossos pilares é a valorização dos artistas. Não há da nossa parte sentimentos para criar conflito, a hora que eles me ligam eu atendo, a secretaria tem um processo de diálogo com todos os movimentos cultruais”, disse.

Sobre a manifestação dos artistas, o secretário disse entender o posicionamento e o direito de protesto. “Eu não sou impositivo, a secretaria tem um processo de diálogo com todos os movimentos culturais e eu li o documento. A gente respeita os sentimentos deles e continua à disposição para lançar o festival a hora que eles sentarem e conversarem e decidirem”, disse.

Políticas públicas x eventos


A realização de eventos e fomento dos editais foram as estratégias usadas para estimular o setor cultural durante a pandemia. Um dos cartazes que foram levantados na manifestação dizia “Políticas para as artes e não para os eventos”. O artista Leo Scantbelruy, também participante do movimento Levante Mao, explica que a falta de políticas sólidas para o setor fragiliza a manutenção da arte no estado.

“A política pública é consistente e contínua, que prevalece, que é um fomento que acontece e vai se desenrolando. O evento é pontual, é pra mostrar ao povo, ele é politiqueiro, ele é marqueteiro, ele é só naquele momento. O artista vai receber aquele cachê, no mês que vem pode ser que não tenha outro evento e esse artista vai sobreviver como?”, explica.

De acordo com o site da SEC, existem nove editais abertos no momento. Os artistas conseguem propor projetos e financiar seus trabalhos, mas para continuá-los dependem da abertura de outros editais ou de contato com empresas que topem investir, o que também é difícil no Amazonas.

Em 2021, com o avanço da vacinação no estado, eventos musicais, apresentações artísticas, exposições de artes plásticas e literárias voltaram a ocorrer presencialmente. Mas os profissionais consideram que é necessário fomento em espaços culturais independentes, em que eles possam criar e se movimentar por si próprios, sem depender de edital para uso dos teatros ou a realização dos projetos.

“Não é dar esmola para o artista fazer o que quer, mas é pegar essa verba e fazer com que ele tenha uma continuidade, um espaço. Nós estamos sem espaço, por exemplo. Essa seria uma medida mais efetiva, você consegue desenvolver sua pesquisa e processos criativos”, diz Rider.

De acordo com o Portal da Transparência do Governo do Amazonas, a receita prevista para 2022 na Secretaria de Cultura é de 900 mil reais. Em 2021, a secretaria finalizou a receita com 698,6 mil reais.

Falta de representatividade

Protesto do coletivo de artistas levante MAO em frente à Secretaria de Cultura do Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Os artistas da dança no Amazonas não possuem entidade única organizada. Essa é outra demanda constante da classe. Em 2002, a Associação de Profissionais de Dança do Amazonas (Aprodam) foi criada para manter um cadastro de bailarinos e ajudar na inscrição de editais vigentes. As últimas notícias que se tem sobre a Aprodam são de 2017. Desde então, os artistas da dança se encontram em grupos fragmentados, com diversas visões.

A professora Marta Marti é uma das fundadoras da Companhia Ballet da Barra, criada em 1995. Sete anos mais tarde, ela foi secretária da Aprodam. “A associação tinha o CNPJ, recolhia os projetos, inscrevia e repassava os dinheiro para os artistas. O objetivo era que os artistas tivessem um respaldo para fazer as atividades e tivessem um pouco de comodidade para receber uma verba”, explicou.

De acordo com seu relato, muitas discussões ocorreram por críticas ao funcionamento. “A situação agora está pior, porque os artistas não se organizam, então não adianta, falta tolerância entre eles, um se acha melhor que o outro, então não vai acontecer uma convergência e ninguém chega a lugar algum”, afirmou.

Rider também faz uma relação entre os manifestos feitos na internet e a fragilidade das ações feitas pelos artistas em Manaus. Isso se mostrou evidente também na manifestação organizada pelo Movimento Levante Mao, que teve a participação de apenas quatro dançarinos.

Eles começaram o protesto dentro da sede e juntos caminharam fazendo movimentos corporais de dança, ora sozinhos, ora em grupo. Os cartazes levantados diziam “Indignação”, “Transparência”, “Coletive-se”, “Não à prática neoliberal”, “Fora Bolsonaro” e “Políticas para as artes, não para eventos”. Em vários momentos os cartazes foram lidos, às vezes de forma solene, às vezes em tons mais ríspidos.

Na porta da secretaria, o grupo se deitou ao chão, repetiu palavras de ordem e também bateu palmas, que depois se transformaram em tapas distribuídos nos próprios corpos e entre si. Ao final, concluíram a performance avisando que iriam protocolar a carta no departamento.

 “Quando o jovem está refém das redes sociais, como ele vai se politizar, se ele lida com uma lógica em que tudo é muito efêmero, fugaz? Isso é uma questão. Precisamos de mais jovens rebeldes, onde estão os jovens? Não me contento com dedinhos (curtidas)”, afirma.

Baiardi informou que já existem iniciativas do Fórum de Dança do Estado do Amazonas para formalizar uma entidade que possa representar a categoria. “Vamos buscar organizar a dança do estado, essa é uma tentativa que espero que dê certo, mas a dança é terra de ninguém. Existem pessoas que se mobilizam, reivindicam, que não estão atreladas a ninguém, que não tem partido e fazem suas atividades independentes”, explicou.

Falta de memória

Adair de Palma com Edcléia Jucá (Reprodução rede sociais)

Manaus teve sua primeira escola de dança de Balé Clássico em 1973, com a chegada de Adair de Palma. De acordo com o artigo “A historiografia da dança no Amazonas: fatos, sujeitos e coletividades”, da doutora em Sociedade e Cultura do Amazonas Jeanne de Abreu, o professor foi responsável por encenar trechos dos principais balés, como: Giselle, Coppélia, O Lago dos Cisnes, Noite de Valpurges e O Corsário.

A autora cita como momentos importantes da dança no Amazonas a criação do Corpo de Dança do Amazonas (1998); do Balé Álvaro Gonçalves (1998); da Escola de Dança Arnaldo Peduto (2000); do Curso de Dança da Universidade do Estado do Amazonas (2001) e do Balé Folclórico do Amazonas (2008). Entre os nomes de destaque, Jeanne faz questão de lembrar de: Mônica Loureiro, Jeanne Abreu, Roseman Monteverde, Lourcley Silvestre, Adriana Barbosa, Patrícia Marques, Getúlio Lima, André Duarte, Ulisses Aquino, Francis Baiardi, Yara Costa e Carmem Arce.

Biardi afirma que a falta de memória, do entendimento do contexto do que é a dança no Amazonas, provoca descredibilidade e falta de atenção. “Não existe uma memória, essa história não está nos livros, os artigos são poucos. O Francisco Rider, por exemplo, foi meu professor, ele está há anos fazendo cultura, quando eu vejo uma falta de cuidado, dos sistemas, dos órgãos, de respeito mesmo pelas pessoas que vieram antes, isso é revoltante. Deixa as pessoas no ostracismo”, diz.

Rider usa como exemplo dessa falta de memória a própria Prodam, que não possui registros históricos sobre as intervenções que promoveu na cidade e o posterior encerramento das atividades. “Um dos problemas dentro da cidade de Manaus é a questão da memória, as trajetórias vão se perdendo, porque não existe um empenho dos pesquisadores, do jornalismo local, para divulgar esse tipo de informação. E isso é sério. A Aprodam por vários momentos esteve presente em decisões relacionadas ao FAD e aos editais”, explica.

Protesto do coletivo de artistas levante MAO em frente à Secretaria de Cultura do Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)


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