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ToggleGeneral Cândido da Silva Rondon; obra de barro do escultor Bruno Souza. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – [email protected]
Quando se fala em 1º de abril, o Dia da Mentira, a memória do brasileiro costuma vagar pelos corredores da política — um cenário onde a realidade frequentemente supera a ficção. No entanto, a “arte” de omitir ou florear fatos não é exclusividade dos palanques contemporâneos; ela está impregnada nos livros escolares e em telas famosas que moldaram nossa identidade nacional.
O grito que não foi bem assim
Um dos maiores exemplos de “idealização heroica” é o quadro Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo em 1888. A obra, que está no Museu do Ipiranga, foi concebida 66 anos após o evento e está longe de ser um registro fiel.
Enquanto a tela mostra cavalos imponentes e uniformes de gala, a realidade de 7 de setembro de 1822 era bem menos glamourosa: Dom Pedro I viajava à paisana, montado em uma mula (animal mais adequado para longas subidas) e enfrentava uma severa indisposição intestinal (disenteria).
O riacho do Ipiranga e a tropa heroica foram ampliações artísticas para conferir ao vilarejo de São Paulo uma importância que ele só ganharia décadas depois.
Cartas falsas e a República
Já na fase republicana, o Brasil experimentou uma das primeiras grandes fake news eleitorais: as “Cartas Falsas de Artur Bernardes”. Em 1921, durante uma campanha presidencial acirrada, o jornal Correio da Manhã publicou correspondências supostamente escritas por Bernardes com ofensas pesadas ao Exército e ao marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente do país.
O escândalo quase custou a eleição ao candidato da elite cafeeira. Mais tarde, comprovou-se que as cartas eram falsificações grosseiras, forjadas por opositores para desestabilizar a candidatura de Bernardes — provando que o uso de desinformação como arma política é um vício antigo no país.
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Reconstruindo o “Marechal” Rondon
Trazendo a lupa para o cenário regional, o próprio patrono do estado de Rondônia não escapa das imprecisões históricas. O nome de batismo de Rondon era Cândido Mariano da Silva. O “Rondon” foi um nome de guerra adotado posteriormente em homenagem à genealogia de sua mãe, mas nunca constou oficialmente em seu sobrenome original.
Outra “meia verdade” consolidada é a sua patente. Rondon nunca foi marechal de fato, pelas regras das forças armadas. No Brasil, esse posto só é provido em tempos de guerra. Em 1955, quando recebeu a insígnia, o país vivia em paz e Rondon já era general na reserva desde 1930. A homenagem foi um título honorífico e simbólico entregue pela Câmara dos Deputados em seu aniversário de 90 anos, como gratidão pelos serviços prestados. General de Exército era, tecnicamente, o topo de sua carreira.
O ouro fantasma de Vilhena
Na década de 1970, Vilhena (Sul de Rondônia) foi cenário de uma das lendas mais curiosas da região: o suposto “Tesouro de Rondon”. Dizia-se que a Comissão Rondon havia enterrado toneladas de ouro nas proximidades do Posto Telegráfico Álvaro Vilhena (a Casa de Rondon).
“Eu era criança no final dos anos 70 e ia lá cavoucar. As histórias variavam de 6 quilos a 6 toneladas de ouro”, recorda o comerciante Luiz Basílio, ex-proprietário do Cine São Luiz. A lenda era alimentada por um indígena local que guiava caravanas de “caçadores de tesouros” para escavações que nunca rendiam um grama sequer do metal precioso.

O coronel Antônio Marialva, neto de Rondon e hoje residente em Manaus, lembra com bom humor das histórias bizarras que ouviu ao chegar em Vilhena em 1976. “Pessoas que não sabiam do meu parentesco diziam que meu avô mandava enterrar o ouro e depois matava as testemunhas, inclusive as cozinheiras. O detalhe é que a expedição nunca teve cozinheiras ou mulheres”, narra sorrindo.
Entre o mito e o afeto
Se na história e na política as mentiras servem para criar heróis ou esconder tesouros, no cotidiano elas assumem tons mais íntimos. Para a cabeleireira Janete Domingos, a maior mentira que já ouviu é clássica e universal: “A frase ‘eu te amarei para sempre’ é a que mais ouço até hoje”, diverte-se.
Seja por estratégia militar, ufanismo histórico ou promessas de amor, o 1º de abril nos lembra que a verdade, muitas vezes, é apenas uma questão de perspectiva.
Por que 1º de abril?
A tradição de pregar peças surgiu no século XVI, na França. Em 1564, o rei Carlos IX adotou o calendário gregoriano, movendo o Ano Novo de março para 1º de janeiro. Aqueles que, por distração ou resistência, continuaram celebrando na data antiga, passaram a ser zombados como os “Tolos de Abril”.
No Brasil: A prática ganhou força em 1828, ironicamente através da imprensa. O jornal mineiro A Mentira publicou, em sua primeira edição de 1º de abril, a falsa notícia da morte de Dom Pedro I. Desde então, a data se consolidou como um dia para descontrair com histórias fictícias e pegadinhas inofensivas.
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Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
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