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ToggleA crise climática é também uma crise cultural. O que caracteriza a crise do clima são as mudanças por consequência da exploração da natureza, desrespeitando o tempo natural das coisas e as diferentes formas de conviver com os ecossistemas. Com o aumento de práticas nada sustentáveis em prol do “desenvolvimento econômico” por empresas e governos, a escuta dos territórios e de quem os protege é negligenciada, sendo a cultura desses lugares profundamente impactada e aumentando migrações.
Outro impacto crescente é a desinformação, que provoca afastamento entre pessoas e natureza, modificando modos de vida e fazendo tradições, saberes e identidade se perderem ou nunca serem repassados. Entre os jovens brasileiros, segundo o levantamento da pesquisa Juventudes, Meio ambiente e Mudança Climática (JUMA), de 2022, 36% dos participantes não sabiam identificar o bioma em que vivem, especialmente os que residem na Mata Atlântica.
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Uma das tarefas do mandato de Presidency Youth Climate Champion na Presidência da COP30 era colaborar para mudar esse cenário, e após a iniciativa “Plenárias de Biomas”, realizada no contexto pré e pós COP30, lançamos o material Vozes dos Biomas, com mulheres e jovens apontando a urgência de uma virada no regime do clima onde seja valorizado práticas de proteção do convivívio harmônico entre as pessoas e os biomas brasileiros para as estratégias de adaptação das cidades. Em outras palavras, esses 700 participantes do processo de plenárias concordam que respeitar e disseminar a cultura de cuidado com biomas é uma forma de avançar na ação climática.
Voando para Bonn, na Alemanha, onde aconteceu a 64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCC) no último mês de junho. A SB64, como a conferência é conhecidade, foi um momento importante de incidência em relação a inclusão da palavra cultura nas negociações formais de clima, com estratégias em torno da revisão do Programa de Trabalho de Glasgow sobre o Action for Climate Empowerment (ACE), área onde cultura, educação e mobilização são abordadas.
Esse reconhecimento internacional do papel da cultura no enfrentamento das mudanças climáticas é importante porque, a partir dele, as decisões das COPs podem passar a orientar políticas e estratégias nacionais que cheguem a quem mais precisa dentro do setor cultural. A prioridade deve ser direcionar mais recursos para atividades de organizações e expressões culturais periféricas, mestres e mestras da cultura popular e comunidades originárias e tradicionais que estão na linha de frente das ações climáticas em todo o planeta.
O caminho até aqui
Na COP28, em Dubai, o Brasil deu um passo importante para a integração entre as pautas culturais e os debates sobre mudança do clima. A Ministra da Cultura Margareth Menezes, junto ao Sheikh Salem bin Khalid Al Qassimi, Ministro da Cultura dos Emirados Árabes Unidos, lançou o Grupo de Amigos pela Ação Climática Baseada na Cultura, uma coalizão copresidida pelo Brasil e pelos Emirados Árabes Unidos, com representantes de mais de 50 países comprometidos.
Um dos maiores desafios na cultura é a descarbonização do financiamento. A indústria cultural é uma plataforma exponencial de greenwashing, dependendo fundamentalmente de empresas exploratórias. As grandes empresas fazem uma “lavagem verde” de sua imagem, investindo em cultura de forma prioritária para limpar sua má reputação por desrespeitar a natureza e os povos.
Na COP30, apesar de investidas da campanha We Make Tomorrow — uma mobilização global do setor cultural e patrimonial, reunindo artistas, museus, festivais e coletivos de mais de 100 países para pedir que a cultura fosse formalmente incorporada aos textos da UNFCCC — e do respaldo da Carta de Barcelona, no contexto do MONDIACULT 2025, com assinatura de mais de 30 países, a cultura seguiu de fora dos textos formais por falta de consenso entre as partes.
Na SB64, o problema persistiu, sendo a União Europeia o único grupo a pressionar pela inclusão do tema nas negociações do ACE. A transversalidade do termo, que abre espaço para pautas polêmicas no multilateralismo como diversidade e direitos humanos, segue impedindo avanços e tratando a cultura como secundária ou alternativa, desconectada do desenvolvimento econômico e da Agenda 2030.
Esse cenário vai na contramão da própria UNESCO, que defende a inclusão da cultura como um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável em sua publicação “Informe mundial de la UNESCO sobre políticas culturales, La cultura: el ODS ausente (UNESCO, 2025). Para o ACE, a partir do Plano de Ação preliminar, cabe seguir com incidência política com os países e Organizações da Sociedade Civil paticiparem com submissões no portal da UNFCCC.
Próximos passos
Em fevereiro de 2025, participei da mobilização da Peoples Palace Projects e da Amazônia de Pé para construir o material Clima é Cultura, através do Encontro Vozes da Cultura pelo Clima, em Alter do Chão – PA. A atividade reuniu mais de 30 artistas, gestores culturais, ativistas climáticos e lideranças indígenas e quilombolas, discutindo o papel da cultura no enfrentamento à crise climática e como a cultura pode contribuir para reforçar as vozes dos mais impactados pela crise climática no debate global.
Somado a esse exemplo, cada vez mais organizações, movimentos sociais e a própria UNFCCC têm falado sobre clima através de uma abordagem histórica e cultural e convocado o setor a se engajar. A partir de seminários do Ministério da Cultura do Brasil de Salvador à Semana do Clima de Londres, mobilizações como o Global Artivism, a Virada Cultural Amazônia de Pé e pesquisas como o “Cultura e Clima” (C de Cultura e Outra Onda Conteúdo) e “Climate Change and Culture: reimagining an inclusive, sustainable and creative future” (Mariana Mazzucato), a pauta segue avançando em mobilização e educação ambiental.
Para as negociações, é importante que a estratégia esteja conectada com a incidência dentro dos processos formais. Uma luz de esperança se acende com a revisão do Global Stocktake, que é o mecanismo do Acordo de Paris que avalia, a cada cinco anos, o progresso coletivo dos países rumo às metas climáticas globais.
O primeiro ciclo (GST1) foi concluído na COP28, em Dubai, e foi a base para o texto que menciona pela primeira vez a transição para longe dos combustíveis fósseis. O segundo ciclo, o GST2, começa formalmente na COP31, em Antália, e se conclui na COP33, em 2028, quando as partes vão revisar o que foi feito entre 2024 e 2028 e usar esse balanço para atualizar suas metas climáticas nacionais.
Mirando em construir caminhos para abordar a cultura no diálogo entre as partes rumo a esse processo, o Entertainment and Culture Pavillion ao lado de uma ampla coalizão de parceiros de todo o mundo iniciou, em fevereiro de 2026, em Marrakech, um processo de construção do Culture Global Stocktake for Climate Action (CGSC), uma consulta global conectada com os termos da UNFCCC para construir um documento político que possa ser considerado pelas partes nessa revisão e posicione a cultura como central para ação climática global. O processo está atualmente recebendo contribuições até 30 de setembro e será formalmente apresentado na COP31.

As sessões de construção também ocorrem de maneira descentralizada, a partir de grupos locais, como é o caso da idealizada pelo Formô Hub e parceiros, que vai apresentar resultados da consulta já realizada sobre o CGSC durante a Semana do Clima de Porto Alegre, entre 20 e 26 de julho.
Já na UNFCCC, o ECCA (Entretenimento e Cultura para a Ação Climática), setor que reúne atores das indústrias criativas e culturais em torno da ação climática, está passando por uma fase de ajustes e revisão de estratégia para o fortalecimento da pauta dentro da governança climática, com consultas sendo conduzidas globalmente e previsão de apresentação na Climate Week de Nova York.
Razões pra acreditar que a vez da cultura vai chegar
A urgência climática não escolhe qual pauta avança primeiro. Enquanto a cultura patina, a pressão por resultados concretos empurrou outro tema, adiado por anos, para o centro do debate em Bonn: o fim do uso de combustíveis fósseis. No último junho, vimos um dos elefantes brancos da sala do regime de clima ganhar força e ser mais do que assunto de corredor, pautando eventos paralelos, dinâmicas de workshops técnicos e muitas matérias nas redes em relação ao evento.
Não é pra menos, já que o afastamento dos combustíveis fósseis como petróleo, carvão e gás natural significam uma redução de 90% das emissões de gases que provocam a mudança do clima.
Em 2023, na COP28 em Dubai, os países concordaram que é preciso fazer uma “transição para longe dos combustíveis fósseis” e o texto final citou “transitioning away from fossil fuels”, sem detalhes sobre implementação e prazos. A COP 29, no Azerbaijão, não apresentou avanços sobre o tema e a tensão chegou até a COP30, no Brasil.
Em Belém do Pará, surpreendendo expectativas, acompanhamos pelo mandato de Presidency Youth Climate Champion da Presidência da COP30, um grupo de países anunciando em uma conferência de imprensa apoio ao ‘mapa do caminho’, um nome simpático para um roteiro político e estruturante que conduza esforços na cooperação internacional pelo fim do uso de combustíveis fósseis.

Em abril de 2026, em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência para Longe dos Combustíveis Fósseis deu tom e voz a provocações importantes sobre o tema. Os resultados podem ser vistos no relatório final e contribuem diretamente para o Mapa do Caminho para Longe dos Fósseis da UNFCCC, liderado pela Presidência da COP30, antes tido como improvável e agora um dos temas com as salas mais cheias durante a SB64.
Rumo à COP31, passando por uma Pré-Cop em Fiji, uma das ilhas do Pacífico, me parece que a mensagem para os atores da cultura e para o regime climático como um todo é que os impossíveis precisam ter vez na Turquia para que possamos dar conta de implementar o Acordo de Paris com a devida urgência, construindo resiliência e investindo em salvar vidas através da adaptação das cidades e da proteção dos ecossistemas.
A SB64 apresentou muitos desafios: a falta de consenso sobre os objetivos de adaptação, dúvidas sobre como implementar compromissos sem uma estrutura de financiamento clara, a tensão de sempre entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quando o assunto é dinheiro, e um mecanismo de transição justa que ainda engatinha nos debates sobre viabilidade.
Compreender a cultura como central para uma transição na forma como nos relacionamos com o meio ambiente e uma parceira estratégica para um verdadeiro mutirão, como convocou a Presidência da COP30, é essencial para impulsionar o que está estagnado nos textos e para garantirmos essa tão sonhada conquista da inclusão da palavra cultura nas negociações formais de clima.
A esperança segue sendo a última que morre, mas não sabemos ainda se é de calor ou submersa.
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