Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
COPs da Biodiversidade e do Clima precisam lidar com o desafio de financiar comunidades locais

COPs da Biodiversidade e do Clima precisam lidar com o desafio de financiar comunidades locais

Entre 19 e 31 de outubro, Yerevan, capital da Armênia, sediou a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 17). A conferência tinha a tarefa de realizar o primeiro balanço global do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022, que estabelece 23 metas a serem alcançadas até 2030. 

Acompanhei as negociações como integrante da delegação do Fundo Casa Socioambiental. Às vésperas da COP 31 do Clima, que começa em 9 de novembro em Antalya, na Turquia, compartilho algumas reflexões sobre o que se decidiu em Yerevan, o que ficou pendente e por que as agendas de biodiversidade e clima, embora negociadas em processos distintos, dependem de que os recursos cheguem a quem, de fato, atua localmente na conservação dos ecossistemas.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!

Um diagnóstico grave e respostas ainda pouco expressivas

O relatório global que serviu de base às negociações mostrou que o mundo está fora do rumo em 22 das 23 metas do Marco Global. A decisão final, chamada pela presidência armênia de “Caminho de Yerevan”, reconhece que as metas de 2030 não serão alcançadas sem aceleração rápida e pede a reforma de pelo menos US$ 500 bilhões anuais em subsídios prejudiciais à natureza. 

No financiamento, o quadro é preocupante. O Marco Global prevê mobilizar US$ 200 bilhões por ano, de todas as fontes, até 2030. Desses US$ 30 bilhões anuais deveriam corresponder a financiamento público internacional. Em Yerevan, o Fundo do Marco Global de Biodiversidade (GBFF), que apoia países em desenvolvimento na implementação das metas globais, recebeu cerca de US$ 60 milhões em novas promessas. A presidência da COP 17 anunciou ainda a mobilização de US$ 1,8 bilhão. O valor impressiona, mas são promessas, não desembolsos, e ainda muito distantes da meta que os países desenvolvidos prometeram cumprir.

A lacuna financeira é grande e por isso parte das negociações girou em torno de ampliar a lista de países doadores. Mas o resultado é incipiente. A criação de um mecanismo financeiro permanente para o regime multilateral de biodiversidade pós-2030 foi aprovada, mas sua estrutura ficou para ser decidida depois, quiçá antes ou na COP 18, que acontecerá no Equador, em 2028.

Repartição de benefícios: o Fundo Cali ainda espera as empresas

Criado na COP 16, na Colômbia, o Fundo Cali deve receber contribuições de empresas que lucram com informações genéticas da biodiversidade, como as dos setores farmacêutico e de cosméticos. Ao menos metade dos recursos deveria atender às prioridades definidas por povos indígenas e comunidades locais.

Em Yerevan, foram reafirmadas as contribuições indicativas de 1% do lucro ou 0,1% da receita. Mas o fundo terminou a conferência com pouco mais de US$ 10 mil em compromissos, sem nenhuma grande empresa entre os contribuintes. A repartição justa dos benefícios, objetivo da Convenção desde a Rio-92, segue como promessa.

Houve avanços importantes. Foi aprovado o funcionamento do órgão permanente que trata dos conhecimentos tradicionais e da participação de povos indígenas e comunidades locais na Convenção (Artigo 8(j)), e, por proposta do Brasil, as populações afrodescendentes passaram a ser mencionadas na revisão global. Por iniciativa do Peru, também será feito um estudo para avaliar se créditos e compensações de biodiversidade geram, de fato, ganhos de conservação. É uma salvaguarda importante, porque mecanismos de mercado sem regras robustas podem afetar diretamente as comunidades e seus territórios.

Da COP 17 à COP 31: as pontes necessárias

Clima e biodiversidade são crises interligadas, com raízes comuns nos padrões de produção e consumo. Não por acaso, as convenções que tratam desses temas nasceram juntas, na Rio-92. É positiva, portanto, a declaração conjunta divulgada em Yerevan pelas presidências das três convenções do Rio, que propõe elevar a cooperação entre esses regimes na agenda política.

Declarações políticas são bem-vindas, mas não bastam: as sinergias entre as convenções precisam se refletir nas decisões negociadas, nas políticas nacionais e na alocação justa e efetiva de recursos financeiros. Vale lembrar o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, de julho de 2025, segundo o qual os Estados têm obrigações jurídicas de enfrentar a crise climática.

A COP 31 recebe da COP 30 de Belém uma herança importante. Lá, os países se comprometeram a triplicar o financiamento para adaptação até 2035 e reconheceram o Roteiro de Baku a Belém, que busca mobilizar ao menos US$ 1,3 trilhão por ano para países em desenvolvimento, a partir da meta de US$ 300 bilhões acordada na COP 29. São números expressivos. Porém, depois de tantas conferências, aprendi a desconfiar de cifras que não vêm acompanhadas de caminhos concretos. O que espero de Antalya é que esses valores se convertam em fluxos previsíveis e acessíveis, com prioridade para recursos públicos e não reembolsáveis destinados a quem mais sofre os impactos ou que esteja em situação de vulnerabilidade .

Em Yerevan, também acompanhei a apresentação, por diplomatas brasileiros, dos resultados da consulta internacional para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, um dos dois roteiros assumidos pela presidência brasileira da COP 30. Vejo nele uma oportunidade real de unir, de uma vez, a proteção da biodiversidade e a redução de emissões. No entanto, seu êxito dependerá de metas mensuráveis, de financiamento adequado e do reconhecimento efetivo de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujos territórios estão entre as áreas mais conservadas do país. Sem eles, nenhum mapa terá pleno êxito.

Recursos que cheguem aos territórios

As negociações tratam de bilhões e trilhões, mas pouco se discute o último trecho do caminho: como esses recursos chegam a uma associação extrativista, a uma comunidade ribeirinha ou a uma organização indígena. É nesse trecho que o financiamento muitas vezes se perde, entre exigências burocráticas, garantias e regras de acesso que ignoram a realidade das organizações de base. Implementar planos e ações para lidar com as crises do clima, da biodiversidade, da desertificação, da poluição requer também que as organizações da sociedade civil e as comunidades participem das decisões sobre políticas públicas incidentes sobre seus territórios e sobre os recursos destinados a protegê-los. 

Nos diversos territórios, as organizações e comunidades locais não podem esperar passivamente pelas decisões multilaterais das COPs. Neles já existem iniciativas concretas: agroflorestas que recuperam áreas degradadas, brigadas comunitárias contra incêndios, acordos de manejo de pesca, agroindústrias que agregam valor à produção da sociobiodiversidade, entre outras. Essas soluções não precisam ser inventadas em gabinetes. Precisam de financiamento direto, flexível e continuado. 

O Fundo Casa Socioambiental, do qual fui um dos fundadores e conselheiro por muitos anos, mostra que isso é importante e possível de ser alavancado. Ou seja, fortalecer a cooperação entre mecanismos e organizações que atuam em distintas escalas, global, nacional e territorial. No edital da Teia da Sociobiodiversidade, do Fundo Casa, em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA, cerca de R$ 40 milhões chegaram diretamente a 405 iniciativas em todo o país. Ainda assim, apenas uma em cada dez propostas pôde ser atendida. Não faltam iniciativas nos territórios; falta financiamento na escala necessária.

Fundos locais e fundos enraizados nos territórios podem ser a ponte entre os grandes volumes de recursos internacionais e organizações que os instrumentos convencionais dificilmente alcançariam. Não substituem a responsabilidade dos Estados e das instituições multilaterais, mas oferecem a eles caminhos já testados.

O que se espera da COP 31 em Antalya

Espera-se que a COP 31, em sua complexa agenda, seja mais uma oportunidade de avançar na definição de metas e indicadores de acesso direto ao financiamento climático por povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações locais, com transparência sobre quanto dos recursos, efetivamente, chega a eles. É muito provável, porém, que os debates sobre a origem, os instrumentos e os critérios do financiamento climático voltem a esbarrar na antiga e sensível pergunta: quem pagará a conta da mitigação das emissões, da adaptação aos impactos e das perdas e danos causados pelas mudanças do clima?

Países em desenvolvimento fundamentam-se no justo princípio das responsabilidades comuns mas diferenciadas, um marco importante das Convenções da RIO-92 (clima, biodiversidade e desertificação). Enfim, 34 anos após a conferência da ONU no Rio de Janeiro, quando as convenções de clima e biodiversidade foram assinadas, persistem inércias e restrições, não obstante a criação de mecanismos financeiros, como os do regime climático (Fundo de Adaptação, Fundo Verde para o Clima, Fundo de Perdas e Danos).

É necessário também estimular e a cooperação entre as convenções do clima, da biodiversidade e do combate à desertificação, notadamente nas potenciais contribuições sinérgicas  para o financiamento de ações, com salvaguardas socioambientais robustas e participação efetiva da sociedade civil nas instâncias de governança dos fundos, existentes ou a serem aprimorados ou estabelecidos pelas COPs.

Não partimos do zero. Milhares de iniciativas comunitárias já conciliam conservação e uso sustentável de bens e serviços ecossistêmicos, a exemplo de produção agroecológica de alimentos e promoção de geração de renda (com ecoturismo, agroflorestas etc.) em todos os biomas do país. Cabe às negociações internacionais e às políticas nacionais reconhecê-las, alavancá-las e garantir que os compromissos assumidos em Yerevan, em Belém e agora em Antalya cheguem, enfim, a quem cuida da vida nos territórios.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
Ver post do Autor

Postes Recentes