Povos indígenas de Manaus perderam suas vidas na pandemia

Povos indígenas de Manaus perderam suas vidas na pandemia

Comunidade Gavião, localizada na capital do estado do Amazonas, reflete como as autoridades de saúde pública municipal, estadual e federal não reconhecem os direitos dos povos indígenas em áreas urbanas e ribeirinhas por não serem moradores.
Depois de entrar e sair de várias secretarias de saúde de Manaus, presenciou a morte de pessoas nos corredores e foi encaminhada ao departamento indígena do Hospital Covid Combat Nilton Lins, mas as autoridades de saúde prometeram muitos erros e omissões.
Ela ficou hospitalizada por 14 dias, recusou-se a intubar, usou secretamente a medicina tradicional nativa e sonhou que foi ajudada por três bruxos durante a hospitalização.
Ela disse que no estágio final do tratamento, “desenvolveu um pequeno verme preto no nariz”, semelhante a uma pequena cobra.
Conforme descrito pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) do Ministério da Saúde, esse espaço foi lançado pelo governo amazônico no início da pandemia e desde o início foi um espaço exclusivo para “aldeões”.
Terezinha ficou internada na Ala Orang Asli apenas por pressão do marido Eliomar Martins, que também sofria de Covid-19, e de um grupo de familiares e amigos que se manifestou diante do hospital no dia 3 de junho do ano passado.
Marcivana Paiva, Coordenadora dos Povos Indígenas (Copime) em Manaus e Entorno, disse que o barulho funcionava, mas outros indígenas doentes que moram na capital amazônica nunca reaproveitaram a ala especial do hospital.
Segundo Marcivana, o governo amazônico não oferecia tratamento diferenciado no Hospital Nilton Lins de acordo com os valores tradicionais dos povos indígenas, nem sabia como adotar políticas de saúde adequadas.
relatório de monitoramento Covid-19 do governo da Amazônia indicou que 850 indígenas de diferentes raças foram hospitalizados no estado.
No entanto, como não existem hospitais equipados com leitos de UTI no interior da Amazônia, o documento não informa se os indígenas internados vieram do meio urbano ou foram transferidos de seu território.
Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde (SES-AM) enviou apenas o link para monitoramento e respondeu que a ala indígena do Hospital de Combate à Covid-19 Nilton Lins, que funcionou em 2020, tinha 53 leitos, sendo 33 leitos clínicos e 20 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
De acordo com a SES, o hospital foi reaberto em janeiro de 2021 por causa da “alta demanda de internação no momento mais crítico da pandemia Covid-19 no estado, com 103 leitos – 81 clínicas e 22 unidades de terapia intensiva, e atendia mais de 730 consultas médicas, incluindo tratamento de indígenas, e “desde agosto de 2021, devido à“ baixa e persistente taxa de ocupação de leitos hospitalares ”, a unidade não aceita mais pacientes.
Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa) e a Sesai tentaram fornecer informações sobre os temas abordados neste artigo, mas não responderam até a publicação deste artigo.
No início da pandemia, mesmo sem um acordo efetivo, a Sesai decidiu não tratar de forma diferenciada os indígenas do meio urbano.
Desde então, os líderes indígenas começaram a se mobilizar para incluir os povos indígenas da capital no plano do Campeonato Mundial.

Faltam dados sobre a pandemia

Vacinação da covid-19 feita pelo Dsei Manaus (Foto: Instagram @Dseimanaus)

Nos últimos dois anos da pandemia de Covid-19, as autoridades de saúde pública ainda não reconheceram o impacto da doença sobre os indígenas de Manaus.
Se a contagem não for diferenciada e o paciente não se opor, o sistema de dados classificará incorretamente os indígenas das áreas urbanas e ribeirinhas de Manaus e os nomeará pardos.
Nesta cidade, que por duas vezes se tornou o epicentro da pandemia, mais de 35 mil indígenas não apareceram no levantamento oficial.
Marcivana Paiva afirmou que os órgãos de saúde e governos da capital amazônica não dispõem de dados sobre casos, prevalências, óbitos ou qualquer outro tipo de informação sobre epidemias de povos indígenas em contextos urbanos.
Desde o início da pandemia, o Boletim Epidemiológico Dsei Manaus relatou 85 casos de Covid-19 em 16 comunidades localizadas em áreas rurais da capital amazônica.
coordenador do Dsei Manaus, Januário Carneiro, disse à Amazônia Real que a agência oferece seguro médico para 11 aldeias da região do rio Cuieiras e 5 aldeias da região do rio Tarumã-Açu (uma delas é Gavião).
O professor da comunidade Gavião, Arnaldo Michiles, por exemplo, disse que no primeiro exame feito no local, quando os sintomas da doença apareceram, apenas um resultado deu positivo.
Apesar da estimativa subestimada para Manaus, Marcivana Paiva afirma que 90% dos indígenas que vivem na capital amazonense (tanto na zona urbana quanto nas comunidades ribeirinhas) foram infectados pelo novo coronavírus.
Esta taxa não-oficial é baseada em uma contagem da Copime, por meio do contato direto com as numerosas famílias indígenas que moram na capital amazonense.
No auge da pandemia, a comunicação nos grupos de Whatsapp era intenso e aflitivo, lembra ela, com relatos diários e frequentes de novos casos nas famílias indígenas.
A Copime entrou com um pedido no Ministério Público Federal para que todos os indígenas fossem vacinados, mas quando a Justiça Federal do Amazonas deferiu, em junho deste ano, a campanha já havia chegado a praticamente toda a população da cidade.
“Foi uma grande vitória a decisão da juíza Jaiza Fraxe, mas naquele momento já estavam vacinando as faixa etárias a partir de 18 anos.

As comunidades indígenas

Comunidade indígena Gavião do povo Sateré-Mawé, localizada no Tarumã-Açú
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Na contagem atualizada, feita durante a pandemia, a Copime identificou 70 comunidades localizadas em Manaus, divididas entre aldeias, núcleos familiares e associações.
Na zona rural, as comunidades estão localizadas à margem de afluentes do rio Negro, como rio Tarumã-Açu e Cuieiras, e no próprio Baixo Rio Negro.
Nelas, vivem famílias de diferentes povos (Dessana, Tuyuka, Baré, Tikuna, Sateré-Mawé, Karapana, etc), que se deslocaram de seus territórios tradicionais no Amazonas e reconstruíram suas vidas em outras áreas.
Há anos os moradores lutam para que o local seja reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ou pela Funai (Fundação Nacional do Índio).
A comunidade não tem água potável e uma das maiores lutas é ter recurso para construir um poço.
Terezinha é filha de Zebina e neta de Tereza Ferreira de Souza, grande liderança indígena originária da Terra Indígena Andirá Marau (localizada no Baixo rio Amazonas).
a outra, foi a pajé, cacica e professora Baku (de nome em português Zelinda), fundadora da aldeia Sahu-Apé, localizada na Vila de Ariaú, em Iranduba.

“Passamos fome”

A experiência de Terezinha, sua família e as pessoas que vivem em Gavião é representativa das comunidades indígenas de Manaus.
Mas ao se isolarem, ficaram sem acesso aos seus principais meios de sustento (artesanato e turismo) e entraram na tristeza da doença, no impacto do trauma e na crise financeira.
E em muitas comunidades, a principal atividade econômica é o artesanato e as apresentações culturais nas feiras.
Só não morremos por conta das organizações indígenas e da rede de solidariedade que foi formada por comunidades indígenas, indigenistas e nossos aliados”, lembra ela.
Foi essa rede, diz Marcivana, que tomou a iniciativa de distribuir equipamentos de proteção, como máscaras e álcool em gel, e cestas básicas.
“Quando começou a doença no ano passado, muitos parentes passavam mensagem no privado (das redes sociais) dizendo: ‘estou com Covid, mas não divulga’.
Por outro lado, teve um fato interessante da pandemia que foi o uso da nossa medicina tradicional”, lembra.
“Os parentes pediam nas cestas básicas oferecidas pelos apoiadores que não colocassem apenas óleo e arroz.

Cloroquina e falta de máscara

O professor Arnaldo de Oliveira Michiles, durante aula onde mostra aos alunos como é realizado o ritual da Tucandeira, e o cacique Eliomar Martins ( Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Na comunidade Gavião, com exceção das crianças, todas as pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus ainda nos primeiros meses da pandemia.
A maioria não precisou ser internada, mas bastava ter sintomas para serem receitados com azitromicina, ivermectina e cloroquina por profissionais de saúde do Dsei que estavam no local.

Também tomei a cloroquina no hospital”, diz Arnaldo Michiles, do povo Sateré-Mawé, professor da comunidade.
Ainda assim, Arnaldo preferiu recorrer ao remédio natural extraído das plantas que ele cultiva.
Mas as condições da comunidade não conseguiram deter o contágio por muito tempo: os adultos precisavam ir à cidade, trabalhar, visitar parentes ou fazer compras, e os profissionais de saúde ainda não estavam preparados para atender com a devida proteção os indígenas.
Aos que voltavam de fora (Manaus), eu falava para tomarem banho na beira do rio e lavassem a roupa ali mesmo.
Os que estavam na comunidade também pegaram do pessoal do Dsei, que estavam todos doentes.
Com três dias de “uma tosse horrível”, dor no corpo e falta de ar, Terezinha foi levada pelo marido em uma pequena voadeira, no início da noite, para uma saga dramática em busca de internação.
O professor estava com três dias de febre, dor nas costas, com bolha no corpo.
“Teve uma vez que uma técnica em enfermagem perguntou discretamente: ‘A senhora não trouxe nenhum remédio caseiro?
Surpreso com a chegada da pandemia, o professor Arnaldo Michiles se preocupou com os pais, que tinham vindo da terra indígena, e passaram um período com ele.
Assis Michiles, pai de Arnaldo, de 86 anos, passou incólume à doença quando estava na comunidade Gavião, mas ao retornar para sua aldeia, na comunidade de Uairurapá, no município de Parintins, foi infectado e morreu.
cacique Eliomar Martins afirma que a comunidade passou por muitas dificuldades e precisou de ajuda para ter o que comer.
Como todos ficaram doentes, não tinham forças para ir para o roçado, carregar peso ou tirar madeira.
Como o auge da pandemia ocorreu no período chuvoso, o rio estava cheio, época ruim para pescaria.

Comunidade indígena Gavião do povo Sateré-Mawé, localizada no Tarumã-Açú
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Obs.: Resumo do post Como os indígenas de Manaus foram apagados na pandemia publicado no Portal Amazônia Real.

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