Como o Presidente Bolsonaro tornou o Brasil um epicentro global de Covid: 3 – O papel militar

Como o Presidente Bolsonaro tornou o Brasil um epicentro global de Covid: 3 – O papel militar
Por Amazonia Real


Por Lucas Ferrante, Luiz Henrique Duczmal, Wilhelm Alexander Steinmetz, Alexandre Celestino Leite Almeida, Jeremias Leão, Ruth Camargo Vassão, Unaí Tupinambás, Philip Martin Fearnside

A oposição do presidente Bolsonaro às medidas de distanciamento social e sua promoção de teorias não científicas sobre os tratamentos estão na raiz de uma crise que ele provocou nas instituições brasileiras. Em 29 de março de 2021, Bolsonaro removeu seu ministro da defesa, que dois dias antes havia recusado o pedido do presidente para punir um oficial que havia falado publicamente sobre as políticas do Exército com relação ao distanciamento social (que contrastam com a negação da administração presidencial). O apoio à oposição do governo ao distanciamento social foi o fator-chave na mudança, embora a lista de outras diferenças seja extensa [1]. Incluem a recusa de um pedido de Bolsonaro para usar influência militar no Congresso Nacional para garantir a aprovação de um “estado de mobilização nacional” dando-lhe poderes de emergência com base na suposta necessidade desses poderes para combater a pandemia [2]. A ironia é clara nesta justificativa, visto que o papel de Bolsonaro tem sido consistentemente no sentido de bloquear as ações necessárias.

O caos criado pela pandemia ajuda em seu esforço para enfraquecer as instituições democráticas (como o Congresso Nacional, o Judiciário, os governos estaduais e os ministérios da educação e do meio ambiente), como o caos que Bolsonaro provocou de várias maneiras ao longo de sua presidência cria uma sensação constante de um “estado de exceção” e serve como uma “escada” para aumentar seu poder em detrimento do progresso social conquistado a duras penas [3]. Há temor, no entanto, que os poderes de emergência nas mãos de Bolsonaro possam evoluir para uma ditadura [4], e os elogios frequentes de Bolsonaro à ditadura militar de 1964-1985 no Brasil [5] são relevantes.

O ministro da defesa foi substituído por um general do Exército que ocupava o posto mais alto na administração Bolsonaro – chefe da “Casa Civil” do gabinete presidencial [6]. No dia seguinte, o novo ministro transmitiu uma ordem do Presidente Bolsonaro aos chefes do Exército, Marinha e Força Aérea, solicitando-lhes que apoiassem as posições do Presidente contra lockdowns ou outras restrições relacionadas à pandemia [1]. Os três renunciaram simultaneamente em protesto, o que foi interpretado como o envio de uma mensagem de que o alto comando não apoiaria um golpe militar [7]. As interpretações desses eventos variam amplamente, desde o alarme de um golpe iminente [8] até a garantia de que Bolsonaro não teria sucesso em obter apoio para tal movimento [2].

Bolsonaro refere-se repetidamente a “meu Exército” para enfatizar seu poder como comandante-em-chefe, especificamente no que diz respeito à sua autoridade para proibir os militares de desempenhar um papel na implementação de restrições para evitar a disseminação de COVID-19 [7], e ele reforçou esta afirmação após a “crise” iniciada pela mudança no comando militar [9]. Os movimentos de Bolsonaro para usar a força para evitar que governos estaduais e locais implementem medidas de controle do COVID-19 não se restringem aos militares: ele cultivou a lealdade de várias forças policiais e milícias estaduais do Brasil, também com o aparente objetivo de dar-lhe a capacidade de interferir diretamente nas ações em nível estadual e municipal [2, 10].

Bolsonaro também instituiu uma série de relaxamentos nas restrições ao controle de armas no Brasil [11]. Em 29 de março de 2021, a substituição de Bolsonaro do Ministro da Justiça por uma pessoa ligada ao que é conhecido como a “bancada da bala” no Congresso Nacional [12] provavelmente levará a uma flexibilização adicional dessas restrições. Bolsonaro deixou claro que relaxar o controle de armas é uma prioridade para que “o povo” [ou seja, seus apoiadores] possa se armar para resistir às medidas “tirânicas” dos governadores estaduais que restringem as atividades econômicas nos esforços de combate ao Covid-19, como afirmou. em seu discurso durante a infame reunião ministerial de 22 de abril de 2020, cuja gravação em vídeo foi divulgada ao público por ordem do Supremo Tribunal Federal [13]. O incentivo de Bolsonaro a seus apoiadores a tomarem ações diretas e até violentas tem consequências graves, como ataques a cientistas. Se Bolsonaro aumentasse seus poderes presidenciais, isso provavelmente significaria pouco ou nenhum isolamento social. Isso favoreceria o ressurgimento da pandemia em locais onde o número de casos vem caindo [14]. [15]


A imagem que abre este artigo mostra o presidente Bolsonaro Brasília durante visita às instalações do Comando do Exército em Brasília. (Foto: Marcos Corrêa/PR/11/05/2021)


Notas

[1] Vinicius IG, Uribe SG. 2021. Atrito com Bolsonaro derruba comandantes das Forças Armadas, na maior crise militar desde 1977. Folha de S. Paulo, 30 de março de 2021.

[2] Kotscho R. 2021. Militares desembarcaram, mas Bolsonaro não desiste dos delírios golpistas. 30 de março de 2021.

[3] Lichterbeck, P. 2021. Bolsonaro e a escada do caos. Deutsche Welle, 31 de março de 2021.

[4] Romano RT. 2020. O perigo de um estado de sítio durante a pandemia. Jusbrasil.com.

[5] Deutsche Welle. 2021. Novo ministro da Defesa defende celebração do golpe de 1964. Deutsche Welle, 31 de março de 2021.

[6] Betim F. Braga Netto se espreme entre o golpismo de Bolsonaro e a insatisfação do alto comando do Exército. El País, 01 de abril de 2021.

[7] Gielow I. 2021. Bolsonaro demitiu ministro da defesa porque também quer mais apoio militar. Folha de S. Paulo, 29 de março de 2021.

[8] Jornal da Cultura. 2021. TV Cultura, 29 de março de 2021.

[9] Marcello MC. 2021. Bolsonaro nega politização das Forças Armadas e diz que troca de comando foi por regra da antiguidade. Reuters, 02 de abril de 2021.

[10] Pauluze T. 2021 Com ministro ligado à segurança pública, Bolsonaro tenta articular base policial. Folha de S. Paulo, 12 de abril de 2021.

[11] Della Coletta R. 2020. Em nova medida pró-armas, Bolsonaro amplia limite para compra de munições. Folha de S. Paulo, 23 de abril de 2020.

[12] Folhapress. 2021. Delegado Anderson Gustavo Torres, novo ministro da Justiça, é próximo à PF. Folhapress, 30 de março de 2021.

[13] Youtube. 2020. Vídeo completo: A reunião de Bolsonaro com ministros em 22 de abril. Youtube, 22 de maio de 2020.

[14] López L, Rodó X. 2020. The end of social confinement and COVID-19 re-emergence risk. Nature Human Behaviour 4: 746–755.

[15] O trabalho em inglês do qual este texto foi traduzido está disponível para livre acesso em: Ferrante, L., L. Duczmal, W.A. Steinmetz, A.C.L. Almeida, J. Leão, R.C. Vassão, U. Tupinambás & P.M. Fearnside. 2021. How Brazil’s President turned the country into a global epicenter of COVID-19. Journal of Public Health Policy 42: 439–451.


Os autores

Lucas Ferrante é Biólogo formado pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), Mestre em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e doutorando em Biologia (Ecologia) no INPA. Foi primeiro autor de notas em Science e Nature Medicine sobre o impacto de COVID-19 na Amazônia, inclusive em povos indígenas, e coordenou o grupo formado a pedido do Ministério Público-AM sobre o COVID-19 em Manaus.

Luiz Henrique Duczmal é Professor Titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É doutor em Matemática (PUC/RJ 1997), com pós-doutorado na Connecticut University (2002), Harvard University (2004), Pennsylvania State University (2006) e Universidade de Faro, Portugal (2008). Fez graduação em Matemática (UFMG 1986) e mestrado em Ciências da Computação (UFMG 1991). Bolsista do Programa Pesquisador Mineiro (Fapemig). Tem experiência na área de Estatística, com ênfase em Estatística Espacial (monitoramento ambiental, clusters espaciais irregulares, vigilância sindrômica e epidemiológica, modelos SEIR de coronavirus (COVID-19), workflow, fontes múltiplas de dados, visualização geográfica) e Estatística Computacional (algoritmos evolutivos, otimização multiobjetivo, autômatos finitos, finanças, estatística industrial, redes de comunicação, etc.).

Wilhelm Alexander Steinmetz é Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em Manaus. Possui Graduação e Mestrado em Matemática – University of Oxford, Reino Unido (2004), Mestrado e Doutorado em Matemática (Especialização: Álgebra / Geometria Algébrica) – Université Paris-Sud 11, França (2009) e Especialização em Antropologia – Unyleya (2019).

Alexandre Celestino Leite Almeida é Professor da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) no campus Alto Paraopeba na cidade de Ouro Branco e membro do corpo docente do mestrado profissionalizante PROFMAT (Campus Alto Paraopeba). Possui graduação em Matemática Computacional (2002), mestrado em Matemática (2005) e Doutorado em Engenharia Elétrica (2011) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente Tem experiência na área de Matemática, com ênfase em Matemática Aplicada. Atualmente está interessado em Detecção de Clusters, redes complexas, Otimização, modelagem de vigas, Epidemiologia e Redes de Sensores sem fio.

Jeremias da Silva Leão é Professor Adjunto II do Departamento de Estatística e Pesquisador do Grupo de Bioestatística da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Também é pesquisador dos Grupos de Análise de Sobrevivência e Confiabilidade da UFSCar e Modelagem Estatística e Probabilidade da UFCG, e membro permanente do Programa de Doutorado em Matemática (PDM) em Associação Ampla UFPA/UFAM e do Programa de Pós-Graduação em Matemática (PPGM) da UFAM. Possui graduação em Estatística pela Universidade Federal do Ceará (2007), mestrado em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco (2010) e doutorado em Estatística pela Universidade Federal de São Carlos/Universidade de São Paulo (2017). Tem experiência na área de Probabilidade e Estatística, com ênfase em Econometria/Análise de Regressão, Séries Temporais e Análise de Sobrevivência, atuando principalmente nos temas: Modelos de probabilidades; Modelos Autoregressivos de Duração Condicional; Modelagem de Eventos Extremos; Modelos de Longa Duração e Modelos de Fragilidade.

Unaí Tupinambás é Professor Associado III do Departamento de Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Assessor técnico do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das de IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIHV). Orientador do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986), mestrado em Infectologia e Medicina Tropical pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999) e doutorado Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical – pela Faculdade de Medicina UFMG (2004). É membro do comitê de enfrentamento da COVID-19 na UFMG e Prefeitura de Belo Horizonte. Coordenador de projetos de Extensão e Pesquisa na Faculdade de Medicina para enfrentamento da pandemia COVID-19.

Ruth Camargo Vassão é aposentada do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan – São Paulo, SP. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Imunologia pela Universidade de São Paulo (1987) e doutorado em Imunologia pela Universidade de São Paulo (1993), além de pós-doutorado no Instituto Max-Planck de Imunobiologia de Freiburg e Universidade Albert Ludwigs de Freiburg (Alemanha) (1995-1996). Tem experiência na área de Imunologia, com ênfase em Imunologia de Tumores, atuando principalmente nos seguintes temas: estudo de células e citocinas envolvidas na resposta imune contra tumores. Utilização de fitoterápicos, imunomoduladores e toxinas ofídicas in vivo e in vitro, no modelo de melanoma murino, visando aumento no tempo médio de sobrevida e diminuição no número de metástases.

Philip Martin Fearnside É doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 600 publicações científicas e mais de 500 textos de divulgação de sua autoria que podem ser acessados aqui. https://philip.inpa.gov.br

O post Como o Presidente Bolsonaro tornou o Brasil um epicentro global de Covid: 3 – O papel militar apareceu primeiro em Amazônia Real.

Deixe seu comentário