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ToggleFoto: Rogério Dias e Lorena Jesus
Conhecidas pelos seus sons marcantes, as cigarras somam em torno de 3 mil espécies diferentes em todo o planeta, sendo 150 delas espalhadas pelo Brasil. Mas na região amazônica, uma espécie tem chamado atenção por um comportamento no mínimo curioso: a cigarra Guyalna chlorogena.
Típica da região, a cigarra constrói pequenas torres de barro no solo durante a transição da fase ninfa para inseto adulto. Com tamanhos que variam entre 8 a 17 centímetros de altura, as estruturas envolvem a proteção e a troca gasosa dessas cigarras durante o período da metamorfose, segundo pesquisadores.
A descoberta, no entanto, nasceu também de um experimento bem inusitado: um grupo de cientistas utilizou camisinhas – os preservativos masculinos – para tentar entender a finalidade das torres. E deu certo!
O Portal Amazônia conversou com Izadora Nardi, uma das cientistas do grupo responsável pelo experimento, cujo tema virou artigo científico publicado no último dia 23 de fevereiro.
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Guyalna chlorogena, a ‘cigarra construtora’
Izadora conta que os estudos das torres construídas pela cigarra Guyalna chlorogena começaram por meio dos seus orientadores.
“Os nossos orientadores mostraram as torres e ficamos muito animados porque não conhecíamos muito sobre elas. Pesquisamos artigos sobre as cigarras e vimos que não havia tanta coisa assim, e aí descobrimos que as ninfas da cigarra passam anos em túneis subterrâneos no solo e no último ano como ninfa constroem suas torres. As alturas das torres são bem variáveis, algumas bem pequenas e outras alcançam 40 centímetros, esse foi um dos motivos que nos fez questionar como o tamanho das torres está relacionado com o ajuste em resposta às variações no ambiente”, explica a pesquisadora.
Instigado pela curiosidade das torres, um grupo de pesquisadores do curso de Campo do Programa de Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira, do qual Izadora era integrante, partiu rumo à Amazônia para entender melhor sobre a função desenvolvida pelas cigarras. Durante a expedição, os cientistas observaram como elas construíam as torres de argila.
“A cigarra constrói a torre a partir da urina e da argila presente no solo. Vimos que elas aumentam o tamanho das torres em cerca de três centímetros durante o período noturno, mas que podem reconstruir até 7 centímetros em uma noite após danos estruturais. Durante a construção, as ninfas não saem das torres. O único momento em que a ninfa se encontra no lado exterior das torres é durante a metamorfose, que ocorre entre o crepúsculo [do anoitecer] às 2 horas, aproximadamente”, detalha Nardi.
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Experimento das camisinhas
Em meio às observações, Izadora explica que a ideia de usar camisinhas nas torres surgiu para descobrir se havia troca gasosa na estrutura.
“Descobrimos que, após chuvas na Amazônia, as cigarras abrem o topo das torres. Pensamos que, em situações de variações ambientais, as cigarras ajustam as torres em resposta às mudanças. A partir disso, surgiu a ideia de utilizar as camisinhas nas torres para vedar e impedir as trocas gasosas”, conta Izadora.
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Com as torres cobertas, o grupo aponta que elas servem tanto para proteção das espécies contra possíveis predadores, quanto para a troca gasosa – para que as cigarras pudessem respirar dentro das estruturas.
“Possivelmente, as torres protegem as ninfas contra a predação durante a metamorfose e auxiliam na regulação de trocas gasosas. O único momento em que as ninfas ficam expostas no lado exterior das torres é durante a metamorfose. Utilizamos iscas de formigas e observamos que praticamente não houve predação das iscas que estavam dispostas no topo das torres. Em relação à regulação de trocas gasosas, nós observamos que as ninfas de torres maiores construíram maiores tamanhos de torres após o tratamento de vedação com camisinhas. Isso sugere que as torres maiores possibilitam a atenuação dos efeitos da vedação gasosa”, salientou a cientista.

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Novos estudos
Para Izadora, a descoberta abre a possibilidade de novos estudos sobre o comportamento de outras espécies de cigarras no mundo.
A cientista destacou, ainda, a importância da pesquisa para melhor compreensão da biodiversidade na Amazônia.
“Uma vez que algo curioso é divulgado, outros cientistas se interessam em tentar descobrir algo novo sobre isso também. Nosso estudo foi um trabalho de campo que conseguiu estas novas informações com pouco tempo para estudo. Se diferentes pesquisadores se interessarem após lerem sobre nosso trabalho, eles poderão dedicar mais tempo e investigar outras questões sobre estas cigarras. Somos um dos países com maior diversidade de insetos do mundo, muitos ainda para serem descobertos. Então, com certeza, há muito a ser feito e muitos estudos que ainda virão a respeito deles”, frisou Izadora.
A publicação do artigo científico sobre o experimento foi realizada no final de fevereiro deste ano e pode ser conferida na íntegra AQUI.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Portal Amazônia e são de total responsabilidade do autor.
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