Chico Buarque, Mônica Salmaso e milhares de pessoas apoiam Lula em show

Chico Buarque, Mônica Salmaso e milhares de pessoas apoiam Lula em show
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Show da turnê “Que tal um samba?”, em Fortaleza, lotou um dos blocos do Centro de Eventos do Ceará e contou, em vários momentos, com demonstrações de apoio a Lula 

Dalwton Moura

Jornalista, compositor, produtor cultural. De Fortaleza

Desde antes do show, enquanto aguardavam já no salão destinado ao espetáculo, milhares de espectadores puxaram o canto de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, com direito a muitas palmas e sem qualquer manifestação contrária. Foram dois momentos de canto coletivo, antes de o show de Chico Buarque e Mônica Salmaso começar, neste sábado (23), confirmando o que já se via no estacionamento do Centro de Eventos e no caminho até o salão do show: muita gente optou por vestir vermelho, reforçando a grande onda em prol da vitória de Lula e do campo democrático, progressista e popular, nas eleições de 30 de outubro. 

Muitos levaram adesivos para distribuir, sendo fortemente procurados pelos demais espectadores. E teve até um balão com um “L” cenográfico prateado, levado por um dos espectadores que esperavam para matar a saudade das canções de Chico e de um outro Brasil, de música, poesia, senso coletivo, preocupação com o próximo, capaz de aprender com as “páginas infelizes de nossa história” para reafirmar a certeza de que construir um novo amanhã é possível. Sim, apesar deles, “amanhã há de ser outro dia”.

Com direito aos incríveis músicos da banda que há muitos anos acompanha Chico – entre eles o contrabaixista cearense Jorge Hélder, que também tocou bandolim – , o consagrado arranjador e violonista Luiz Claudio Ramos, os pianistas Itamar Assiere e Bia Paes Leme, o percussionista Chico Batera e o baterista Jurim Moreira, Mônica Salmaso é quem recebe o público, com uma sequência inicial de canções clássicas, que se tornam ainda mais belas na interpretação da aclamada cantora.

“Todos juntos”, “Mar e lua”, “Passaredo” e “Bom tempo” chegam como um presságio: “Vem aí bom tempo”. “Será que é uma estrela?”, um dos versos do clássico “Beatriz”, de Chico e Edu Lobo, foi recebido com muitas palmas. Até que Chico sobe ao palco, após muita expectativa, recebendo um público já enternecido e levado por Mônica a um outro estado de espírito, “no tempo da delicadeza”, a antítese do que alguns têm feito com o Brasil nos últimos quatro anos. 

“O meu pai era paulista. Meu avô, pernambucano. O meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano. Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”, entoa Chico, sob o lindo arranjo, fazendo o público relembrar estar diante de um jovem compositor de seus 78 anos, cantando no show desde canções de meados dos anos 60 até composições recentes, com referências ao funk, à desigualdade social no Rio de Janeiro metáfora do Brasil (“Filha do medo, a raiva é a mãe da covardia”, diz “As caravanas”, faixa-título do trabalho anterior, denunciando a “essa zoeira dentro da prisão, crioulos empilhados no porão de caravelas no alto mar”). Tão Brasil! Tão 2022!

Chico no Ceará: Fortalecer!

Chico cumprimenta o público ressaltando que estar em Fortaleza é uma forma de se fortalecer. E, reverenciando Mônica e o público, assume o lugar ao centro do palco para, com foco e agilidade, começar um desfile de canções sem intervalos para fala. Muitas das músicas são apresentadas sem solos ou ritornelos, de forma a contemplar um maior número de obras, na missão eternamente impossível de escolher, para o show, um recorte entre tantos possíveis, dada toda a diversidade das criações do artista.

E que bom que o público pôde ouvir “O velho Francisco”, em belo e intenso arranjo, com mais tempo para a canção passar pelo palco, assim como a trilha de outro grande momento de emoção da noite, “Sinhá”, parceria de Chico e João Bosco em que o eu-lírico é um negro açoitado pelos senhores pela suspeita de ter visto e encantado a moça branca da Casa Grande. 

E como segurar a emoção em “Sem fantasia”, um dos clássicos dos clássicos de Chico, se somando ao sonho de duas horas de atenção e sensibilidade a um outro Brasil possível, no palco e na plateia. Mesmo com todo o privilégio de quem pode pagar ingressos, sem nem por isso esquecer o Brasil real, dentro e fora da “sala de espelhos” e em pleno furacão do segundo turno em que se duela pela conquista do básico: a persistência da mínima civilização, contra o projeto da barbárie.

A vida, a democracia, a dignidade (“como é difícil acordar calado”, cantaram Milton e Chico. “Pior que acordar calado é acordar sem o pão”, aumentou Gabriel). A luta pela sobrevivência (“vivo de biscate, queres que eu te sustente?”, a comida na mesa (“cana, caqui, inhame, abóbora, onde só vento se semeava outrora”), a liberdade de identidade, orientação sexual e religiosa (“Blues pra Bia”), o acesso à educação (“vida veio e me levou”), a sobrevivência do SUS, a busca de minimizar o imenso apartheid do País (“quando eu morrer cansado de guerra, morro de bem com a minha terra”). A teimosia da esperança. 

“Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou. Querendo acreditar que o dia vai raiar, só porque uma cantiga anunciou. Mas não me deixe assim tão sozinho a me torturar, que um dia ele vai embora, maminha, pra nunca mais voltar”. E a plateia uma vez mais a irromper em aplausos, gritos contidos pelos últimos quatro anos e pela perspectiva de que o pesadelo chegue ao fim.

Décadas de canções: diferentes safras

E que bom lutar para construir essa nova realidade mas não deixar de se enternecer com joias como “Imagina”, a primeira composição de um Tom Jobim ainda estudante de piano, música que só muitos anos mais tarde ganharia letra de Chico “a correr e socorrer o luar”. Com a parceria Chico e Edu novamente presente em “Choro bandido”: “Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso, são bonitas, não importa, são bonitas as canções. Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons”. 

“Desalento”, do disco “Construção” e o popular sucesso “Sob medida” (“se ajeite comigo e dê graças a Deus”) antecedem o citado “Blues pra Bia”, com sua melodia feita sob medida para um amor maior que qualquer fronteira, inclusive de gênero. E o público irrompe a uma só voz no “Samba do grande amor”. “Mentiiiiira!”…

Do Chico do fim dos anos 90 em diante, “Injuriado” também coloca parte do público para cantar, com nova presença de Mônica quando o samba volta “da capo”. E “Tipo um baião” embevece os ouvintes atentos à produção mais recente de Chico, com sua exuberância em letra, de carnaval, São João, nordestinidade.

“As minhas meninas” retoma a delicadeza das canções mais antigas, e “Morro Dois Irmãos” chega unida ao cenário e à iluminação para ambientar especialmente uma das mais belas, e é tão difícil fazer esse exercício, entre as inúmeras belas canções de Chico. Sorte do público, que contou ainda com “Futuros amantes”, aquela que dificilmente sai do repertório, independentemente de qual proposta Chico e grupo amadurecem para cada uma de suas turnês, mais bissextas do que as plateias gostariam.

“Assentamento”, também já citada aqui, chega para lembrar novamente os anos 90, as fotos de Sebastião Salgado, a luta do homem do campo, o MST que enfim parece estar sendo mais conhecido e compreendido, por uma maior parcela da população, no país da desigualdade, no grande exportador de alimentos, nação em que o povo passa fome. Antes tarde… Impossível também não recordar as privatizações dos tempos do dito “neoliberalismo”, o Brasil à venda na ironia mordaz, na precisão do sarcasmo de “Bancarrota blues”. Novamente – e infelizmente – tão atual.

“Esquerdopata”

Neste momento, Chico conversa com o público. Apresenta os músicos e fala da dificuldade de fazer frente a uma banda com instrumentistas tão virtuosos, tendo que tocar as harmonias ao violão e lembrar as letras “sem teleprompter”, para não ser criticado. “Já me chamam de tanta coisa na Internet. ‘Esquerdopata’, ‘mamífero das tetas do Estado’…”. 

Como que a demonstrar dois extremos temporais de uma mesma verve lírica e pungente de Chico, o show segue com “Tua cantiga”, o jongo hipnótico e forte no ritmo e na singeleza das palavras escolhidas para as intrincadas rimas sonoras, na parceria com Cristóvão Bastos, e no clássico “Sabiá”, de Chico e Tom, das vaias no Festival de 1968, em que a plateia, por preferir Vandré, em meio ao ano que seria o do golpe dentro do golpe, achou de destinar apupos à dupla de compositores que tanto fez pelo Brasil, de tantas formas. 

Incluindo o Brasil de outro clássico, “O meu guri”, da gentileza e do amor familiar nos morros, favelas, comunidades, ainda tão pouco compreendidas pelo dito presidente de hoje, em seus ataques aos moradores do Complexo do Alemão. Ou aos negros banhistas dos ônibus da Zona Norte à Zona Sul na citada “As caravanas”.

E para fechar o tempo normal e partir para a última semana de campanha no segundo turno, “Que tal um samba?”. “Depois de tanta mutreta, depois de tanta cascata, depois de tanta derrota, depois de tanta demência, e uma dor filha da puta, que tal puxar um samba?”.

Chico, Mônica e a toalha

Antes do bis, Chico pega a toalha com a foto de Lula que alguém da plateia arremessara para Mônica Salmaso. Ambos estendem o tecido enquanto a plateia novamente aplaude forte e longamente, ao som de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula…”. “Maninha”, “Noite dos mascarados” e “João e Maria” encerram o encontro do artista com o público, do coração com o Brasil que,  tantas vezes ofuscado pela comunicação de choque do terror plantado três vezes ao dia em estratégia para sequestrar a agenda e o ânimo, segue na verdade pulsando vivo, forte, intenso, capaz de tanta verdade, tanta sensibilidade e beleza. Chico e Fortaleza cantaram juntos, passando por seis décadas de música, mas definitivamente olhando para o futuro. Melhor e mais humano e belo. Ao nosso alcance, do tamanho que formos capazes de construir.

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