Cai o uso de máscaras na região Norte

Cai o uso de máscaras na região Norte
Por Amazonia Real

A medida é válida apenas para locais abertos e foi decidida por prefeitos de cinco das sete capitais do Norte; só Belém e Palmas mantêm a obrigatoriedade. Decisão preocupa especialistas e a população. Na imagem acima paradas de ônibus ao lado do Ver-o-Peso em Belém (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real).


Belém (PA) – Daqui a dois dias, os manauaras poderão andar sem máscaras nos espaços abertos da capital amazonense. Para a população de Macapá, a medida valerá a partir do dia 21. Boa Vista (RR) e Porto Velho (RO) disseram adeus às máscaras nos últimos dias. Rio Branco (AC) foi além e liberou até em espaços fechados. Apenas em Belém do Pará e Palmas, no Tocantins, o uso permanece obrigatório e sem previsão de liberação. A decisão dos governos das capitais amazônicas preocupa porque algumas ainda não alcançaram marcas seguras de cobertura vacinal contra a Covid-19.

A primeira capital a liberar o uso foi Porto Velho, em anúncio feito pelo prefeito Hildon Chaves (PSDB), no último dia 4, seguida de Boa Vista e Rio Branco no dia 8. Os municípios seguem tendência generalizada pelo resto do País. Nas últimas semanas, prefeitos e governadores fizeram uma corrida não-declarada de quem liberaria primeiro as máscaras. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (PSD) foi um dos mais ousados e decidiu desobrigar máscaras inclusive em espaços fechados.

A suspensão da medida preventiva preocupa pesquisadores, profissionais de saúde e a população. A região Norte foi palco de cenas que marcaram a pandemia no Brasil. Juntos, os sete Estados somam cerca de 49.545 óbitos por Covid-19 e acumulam mais de 2,5 milhões de casos positivos de infecção.

“É muito preocupante, pois vejo que as pessoas ainda estão sendo contaminadas, e não há uma garantia de que realmente estamos livres do vírus. Enfim, é brincar com a vida”, resume Neidinha Suruí, conhecida liderança indígena de Rondônia e presidente da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, sediada em Porto Velho.

No caso de Manaus, que viveu dias de horror durante os picos da pandemia no Amazonas, o anúncio da desobrigação do uso de máscaras em locais abertos, feita pelo prefeito Davi Almeida (Avante), no último dia 8, despertou críticas da comunidade científica. Para especialistas, a medida é precipitada. O Estado tem um histórico marcado por três graves ondas da pandemia, incluindo a de janeiro do ano passado quando o sistema de saúde colapsou com a crise de falta de oxigênio. 

Com o fim da obrigatoriedade, há riscos de um novo boom de contágios, sobretudo por haver grupos específicos com baixa imunização. “O uso de máscaras é uma das medidas não farmacológicas mais eficazes, que visa controlar a dispersão do novo coronavírus na população. Portanto, a suspensão do seu uso – ainda que seja somente em espaços públicos, abertos – impõe riscos naturais, não apenas na disseminação evitável do vírus, como também abre janelas de oportunidade para o surgimento de novas variantes de preocupação”, explica o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz/Amazônia Jesem Orellana.

Segundo informações da Secom do governo do Amazonas, o Estado retorna à fase amarela, isto é de baixo risco para transmissão do novo coronavírus. Os dados do último boletim epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) seguem a tendência de queda dos números da pandemia. Há menos de duas mortes diárias na média móvel – nos dias 5 e 8 de março, não foram registrados óbitos -, a redução da média de casos foi de 56% e em leitos hospitalares de 42% no período de 23 de fevereiro e 8 de março. 

Vale ressaltar que as medidas estão sendo adotadas pelas capitais, e em descompasso com decretos estaduais em vigor, que preveem o uso obrigatório do item de proteção. A única exceção até o momento é o governo do Acre, cujo decreto estadual estabelecia o uso até o dia 15 de janeiro, e que, no dia 8 deste mês, decidiu pela obrigatoriedade apenas em locais fechados. Na sexta-feira (11),  o governador Wilson Lima (PSC) anunciou a desobrigatoriedade do uso de máscaras em todo o Estado do Amazonas, após reunião do Comitê Interinstitucional de Enfrentamento da Covid-19. A medida valerá após a publicação do decreto governamental previsto para os próximos dias.

“É uma pena ver o restante dos estados da Região Norte fazerem esses relaxamentos precoces, principalmente porque nós sabemos que o Norte foi disparado uma das regiões mais castigadas pela Covid-19, independente da onda de contágio ou de transmissão comunitária do novo coronavírus”, acrescenta Jesem Orellana.

Cobertura vacinal incompleta

Mesmo tendo alcançado 83% de cobertura com o esquema vacinal completo (2 doses de imunizantes), a capital amazonense passou recentemente pela explosão de casos novos, o maior já registrado ao longo de todo o período pandêmico com a chegada da variante ômicron: 7,5 mil casos diários em 19 de janeiro. E existem grupos que não alcançaram uma cobertura satisfatória de imunização, como, por exemplo, a população indígena que vive na capital.

Especialistas afirmam que o uso da máscara ainda é um item de segurança e proteção no transporte coletivo, em comércios e shoppings centers lotados, bares e restaurantes. Nas escolas, por serem ambientes fechados, o ideal é a manutenção do uso da máscara. A regra geral é recolocar a máscara, mesmo nos espaços abertos, em situações de aglomeração.

Apesar da discrepância na cobertura vacinal, e antes mesmo da medida ser anunciada pelo prefeito Davi Almeida, os manauaras já negligenciavam o uso de máscaras em espaços públicos, como conta Rafael César da Costa, 34 anos, professor de história na rede pública estadual. Para ele, a decisão do prefeito chega apenas para ratificar o que já vinha acontecendo.

“No primeiro momento as pessoas eram negacionistas e não queriam tomar a vacina. Agora se vacinaram e acham que não precisam mais usar máscara. Mas tudo isso é confuso e gera desconfiança, ia chegar o momento de tirar as máscaras, mas faltou trabalhar melhor isso nas pessoas”, afirma o professor que perdeu a avó durante a crise de oxigênio em Manaus, em janeiro de 2021.

As vacinas são as mais poderosas armas contra a covid-19 conhecidas até agora pela ciência. Mas, assim como qualquer proteção, não são 100% eficazes. Pessoas, mesmo aquelas que estejam com o esquema vacinal completo, com duas ou mais doses, podem contrair a doença e desenvolverem casos graves. Especialistas recomendam que a máscara ainda seja usada por pessoas como comorbidades justamente para prevenir o risco de contrair a doença.

Rafael diz também que “eles [os governantes] trataram tudo de qualquer jeito o tempo todo, não dá para confiar, não sei se estão liberando com base em algum estudo científico”. A suspeita do professor se justifica pelas medidas adotadas ou que deixaram de ser adotadas durante a crise sanitária pelo governo amazonense e pela prefeitura de Manaus.

A reportagem buscou informações com as prefeituras de Manaus, Rio Branco, Amapá, Boa Vista e Porto Velho para saber quais estudos embasaram a decisão de seus gestores municipais, mas até o fechamento desta reportagem não houve respostas.

Dois anos de pandemia

Familiares de vítimas da Covid-19 em Manaus realizaram na sexta-feira (11/03) uma manifestação no calçadão da Ponta Negra em alusão ao Dia Nacional de Homenagem às Vítimas da Covid-19 (Foto: Divulgação)

Na sexta-feira (11), foi realizada um ato em Ponta Negra, Manaus, organizado pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico) para lembrar os dois anos da pandemia. Em 12 de março, foi registrado o primeiro óbito da doença no Brasil. Familiares de vítimas e sobreviventes espalharam cruzes e cartazes com o nome de vítimas fatais da doença. Fundada em 8 de abril de 2021, no Rio Grande do Sul, a Avico é uma entidade nacional que busca a reparação dos danos diante da ineficiência e da negligência dos governos estaduais e municipais no combate à pandemia.

Manaus e o Estado do Amazonas foram referências desastrosas na condução da pandemia que assolou o Brasil. Sendo governados por dois políticos alinhados ao presidente Jair Bolsonaro (PL), que propagou medidas ineficazes para o combate da doença, como o uso de hidroxicloroquina e ivermectina, a população amazonense teve ainda de enfrentar um frágil sistema de saúde do Amazonas. Além das subnotificações de casos positivos e de mortes, faltou oxigênio, os hospitais não suportaram a demanda, os cemitérios colapsaram e pessoas foram enterradas em valas comuns. Além disso, uma nova cepa do coronavírus foi identificada como tendo sido originada na cidade de Manaus, a gamma – ou variante P1 ou brasileira, como também foi chamada à época. 

Mesmo diante dos momentos mais graves, o governador Wilson Lima e o prefeito Davi Almeida nunca chegaram a decretar medidas restritivas mais severas para evitar a propagação do vírus da Covid-19, como o lockdown, alternativa adotada por vários Estados e municípios brasileiros sob a crítica severa de Bolsonaro e manifesta em seus discursos e aparições públicas – quase sempre sem máscara.

Já são mais de 650 mil vítimas fatais em todo o território nacional. No Amazonas, já foram registradas cerca de 14.137 mortes por Covid-19, segundo dados epidemiológicos da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM).

“Eu vejo com bastante preocupação a liberação das máscaras porque nem todas as pessoas ainda estão vacinadas. Tem gente que nem vacinou ainda com a primeira dose e outras que estão com o ciclo incompleto’, comenta Vanda Witoto, indígena e profissional de saúde, a primeira pessoa a ser vacinada no Amazonas.

O epidemiologista Jesem Orellana ressalta que a pandemia se encontra em franca desaceleração em várias regiões do país, mas que apesar do “padrão epidêmico” atual, as medidas de prevenção contra o vírus precisam ser mantidas para evitar uma nova explosão de casos. “Quebramos recordes atrás de recordes de infecções novas, muitas delas acontecerem em pessoas que já estavam vacinadas, mas sobretudo em pessoas não vacinadas. Foram aproximadamente 400 mortos confirmados por covid-19 somente em janeiro e fevereiro de 2022. Portanto, a situação não foi leve, nem nada que possa ser considerado como menor”, lembra.

Para Orellana, os governantes deveriam aguardar mais algumas semanas e observar os números infecções, “esperar esses níveis de incidência caírem a níveis criticamente baixos, e aí sim declarar a epidemia como controlada e flexibilizar o uso de máscaras, inclusive em ambientes fechados, se for o caso”.

Palmas e Belém mantêm máscaras

Na contramão das demais capitais, Belém do Pará e Palmas, no Tocantins, mantêm o uso obrigatório de máscaras em todos os ambientes e, segundo as prefeituras, sem nenhuma previsão de que haja uma mudança da orientação ainda em março. A prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro (PSDB), e o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (Psol), se baseiam nos perigos ainda representados pela variante ômicron e pelo fato de que óbitos ainda seguem sendo registrados em ambas as cidades.

Em nota, a prefeitura de Belém (PMB) ressalta que também está levando em consideração a necessidade de avanço da vacinação infantil, um quadro que se repete em outras capitais amazônicas, mas não foi considerada na hora de liberar as máscaras. “Mesmo que a pandemia esteja em estabilidade, graças ao alto índice de vacinação (mais de 80% da população vacinada com pelo menos duas doses), as pessoas ainda estão sendo contaminadas pelo vírus e agravando. Soma-se a isso o fato da vacinação infantil ainda estar em andamento”, informou.

A prefeitura de Palmas afirmou que, mesmo com o avanço da vacinação na capital, entende que é preciso manter os cuidados, como o distanciamento social, o uso de máscaras e álcool em gel. “A recorrente presença de novas variantes nos coloca ainda mais vigilantes. Neste sentido, a gestão considera que é melhor continuar com os cuidados e, por isso, não abre mão do uso de máscaras”, disse em nota.

No entanto, Tocantins e Pará já possuem municípios que decidiram liberar a população do uso de máscaras em ambientes abertos. A prefeitura de Tocantina de Araguaína decidiu pela flexibilização no último dia 7. No Pará, a primeira cidade a adotar essa decisão foi Óbidos, na região do Tapajós, no último dia 10. E agora Marabá, no sudeste paraense, deve suspender o uso de máscaras no próximo dia 16, segundo anúncio feito pela prefeitura municipal.

Para Antônio Orlando Aragão, vendedor de sandálias de couro no mercado do Ver-O-Peso há 42, em Belém, a não suspensão do uso de máscaras na capital é uma medida acertada. Ele, que perdeu amigos e parentes para a Covid-19, afirma que só tira o item de proteção durante suas jornadas de trabalho para tomar água. 

“Só os médicos e a ciência sabem quando a gente tem que parar de usar máscara. Eu, mesmo que suspendam aqui em Belém, vou continuar usando porque só eu sei o que eu passei com essa doença”, declara o feirante.

Esta reportagem é apoiada pela Open Society Foundations dentro do projeto “Marcas da Covid-19 na Amazônia”

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