A 7ª edição do Atlas da Notícia aponta crescimento do jornalismo online na região Norte, mas a persistência de desertos de notícias oculta violências e violações contra minorias. (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real/ 2025).
A região Norte registra 1.264 iniciativas jornalísticas, segundo a 7ª edição do Atlas da Notícia. O número representa um crescimento de 14% em relação ao estudo anterior, propiciado pelo surgimento de veículos online e emissoras de rádio. Seria uma “boa notícia”, não fosse outro dado que escancara um problema grave: 42,9% do território amazônico não conta com uma cobertura de jornalismo local, um quadro que historicamente agrava a vulnerabilidade das minorias e oculta as violências que elas sofrem.
Em todo o Brasil, o Norte é quem detém a menor presença absoluta de jornalismo, apenas 9,2% do total nacional é feito na região. Dos 450 municípios nortistas, 193 são classificados como “desertos de notícias”, ou seja, não possuem nenhum veículo jornalístico. Outros 144 são “quase-desertos”, contando com apenas um ou dois veículos. O estudo (cujos dados estão abertos) não faz menção à qualidade do jornalismo praticado por essas iniciativas, quem os financia, os políticos envolvidos, o que pode tornar o cenário ainda mais assustador.
O Atlas da Notícia registrou ainda que 93 veículos ativos na região na 6ª edição do estudo não estão mais operando. O Amazonas liderou esse recuo (28 veículos inativos), seguido de Pará (18), Rondônia (16), Tocantins (12), Amapá (7), Acre (6) e Roraima (6). Apenas em 113 foram considerados não-desertos por terem mais de 3 veículos. O problema é que mesmo onde há veículos a distribuição é concentrada em grandes centros urbanos, deixando grandes clarões da Amazônia à mercê da desinformação.
“Chamo isso de ditadura do release, que é um fenômeno muito evidente em Manaus, porque os veículos publicam as mesmas notícias enviadas pelos prefeitos ou governadores, sem contextualizar ou ouvir outras pessoas. Isso para uma democracia não é saudável. Eles estão produzindo conteúdos com a mesma leitura para criar um padrão de pensamento na sociedade”, afirma Kátia Brasil, cofundadora da Amazônia Real.
Segundo o Atlas da Notícia destaca para a região Norte, Manaus (com 156 veículos jornalísticos), Porto Velho (94) e Belém (86) encabeçam o ranking nacional de presença de jornalismo local ou regional. Cidades de médio porte da região apontadas pelo estudo são: Macapá (AP), Boa Vista (RR), Ji-Paraná (RO), Araguaína (TO), Gurupi (TO), Cruzeiro do Sul (AC) e Jaru (RO).
O estudo indica que sete cidades da região Norte deixaram de figurar entre as que viviam em meio a um deserto de notícias. São elas: Assis Brasil (AC), Amajari (RR) e Pacajá (PA). Mas outros dez municípios entraram nesse status, Novo Aripuanã (AM), Limoeiro do Ajuru (PA) e Formoso do Araguaia (TO).
Um exemplo apontado de iniciativa de jornalismo recente é o Canal 1 Limoeiro, de Limoeiro do Ajuru, que possui uma página no Facebook com mais de 8 mil curtidas e 40 mil seguidores. Se não impediu a cidade de figurar na lista dos desertos de notícias, ao menos é uma referência informacional para a população local. A grande maioria das novas iniciativas mapeadas é do segmento online: 579 veículos, sendo o rádio (com 370 emissoras), o destaque, seguido de iniciativas locais, independentes e conectadas às redes sociais (45,8% dos novos veículos digitais).

O jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, dono do Jornal Pessoal, um combativo veículo de jornalismo independente de Belém, também é apresentado como referência de resistência. Colunista da Amazônia Real, o jornalista paraense continua atuante, resiliente e denunciando as sistemáticas violações que sofrem os povos amazônicos, apesar de já ter “anunciado o encerramento de suas atividades com tiragem reduzida e circulação majoritariamente digital nos últimos anos”.
Para Jéssica Botelho, jornalista e pesquisadora amazônida, coordenadora do relatório do Atlas da Notícia para a região Norte, é impossível imaginar uma situação em que os “desertos de notícias” deixem de existir diante dos mais de 5 mil municípios brasileiros. Embora seja natural haver uma concentração de veículos de cidades de grande e médio portes, para a Amazônia a situação se complica por outros fatores.
“Enfrentamos problemas infraestruturais com mais intensidade que afetam a criação, a sustentabilidade e a longevidade de veículos jornalísticos”, diz ela, acrescentando: “Questões como conexão à internet, custos para produção jornalística dada a geografia regional, incidência de assédios contra comunicadores, falta de incentivos (incluindo recursos financeiros), sem falar na formação que também é concentrada, e as mudanças climáticas que já vêm afetando de forma significativa a comunicação na região”.
Mas a ausência de veículos jornalísticos suficientes, que é um problema mundial, traz consequências diretas na vida das comunidades em regiões remontadas da Amazônia. O boletim da Rede de Observatórios da Segurança “Além da Floresta: conflitos socioambientais e deserto de informações” aponta que a queda nos dados oficiais de crimes ambientais no Amazonas não reflete uma melhora na realidade da violência contra as populações tradicionais. A invisibilidade gerada por esse “deserto de notícias” facilita que violências se proliferem sem o devido registro ou denúncia. O monitoramento de crimes ambientais é complexo, e muitas vezes, nem a polícia nem o jornalismo local conseguem acompanhar o ritmo da devastação ambiental.
Panorama nacional

A 7ª edição do Atlas da Notícia revela que houve uma redução de 7,7% no número de “desertos de notícias” em todo o País, com um acréscimo de 208 municípios passando a contar com ao menos um veículo de comunicação local. O segmento digital lidera essa expansão, com o número de iniciativas online crescendo de 5.245 para 5.712 nacionalmente, um aumento de 8,9%.
Apesar do crescimento, a vulnerabilidade do jornalismo digital é uma preocupação, segundo o Atlas da Notícia. Foi detectado o fechamento de 651 veículos online, sendo 334 desde o último estudo. Isso reflete a carência de estrutura comercial e de gestão, a dificuldade em explorar novas fontes de financiamento e a presença de redações enxutas, além da concorrência de sites de prefeituras e veículos eleitorais. Há também uma concentração de veículos nas grandes cidades e capitais, com São Paulo liderando nacionalmente em número de veículos. Em todo o Brasil, 2.504 municípios ainda não possuem jornalismo local ativo, afetando 20,7 milhões de pessoas. Isso representa que 9 em cada 20 municípios são desertos de notícias.
A base geral do Atlas da Notícia contabiliza 14.809 veículos jornalísticos em atividade, incluindo 5.712 online, 4.994 rádios, 2.852 impressos e 1.251 emissoras de televisão. A pesquisa, realizada de forma colaborativa entre outubro de 2024 e junho de 2025, contou com a participação de 232 voluntários. O Atlas da Notícia, uma iniciativa criada em 2017 pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) em parceria com a Volt Data Lab, é o panorama geográfico mais completo sobre a imprensa brasileira.

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