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Assassinatos no Brasil superam mortos na guerra do Iraque

De acordo com o Mapa da Violência, uma publicação conjunta da Unesco com o Ministério da Justiça, “nos últimos dez anos, o Brasil registrou 522 mil mortes, o que equivale a cinco guerras no Iraque”. Embora a polícia em si não seja a única força letal contra a juventude negra, ela é certamente uma das mais incisivas.
Por Pedro Kardec
militante da UJR e diretor da Ames-Teresina


Foto: Divulgação

Vivemos em um país em guerra constante nas suas periferias. As balas que se perdem sempre encontram jovens e crianças negras nos morros, favelas e periferias. Segundo dados obtidos pelo UOL, através da Lei de Acesso à Informação, nove em cada dez mortos pela Polícia do Rio de Janeiro são negros. Essa guerra não é nossa, mas morremos por conta dela. O que é viver nessa guerra diária? É ver seu pai ser assassinado indo ao trabalho. É presenciar uma irmã ser atingida por uma “bala perdida” enquanto assiste à televisão. É sofrer com a revolta de ter sua filha assassinada cruelmente pela Polícia Militar no caminho da escola. Assim, como aconteceu com a menina Ágatha Félix, de oito anos, atingida por um tiro de fuzil nas costas quando voltava para a casa com sua mãe, em setembro de 2019, no complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Antes de iniciar uma entrevista ao vivo para relatar o ocorrido, a jornalista fez um desabafo: “é muito duro, difícil e delicado, mas precisamos contar essa história”. A mãe e o pai de Ágatha Félix começaram a contar os detalhes do dia da morte da criança:

“Minha filha, minha pequena, minha perfeita. Naquele dia, juntas como sempre, indo para a casa com minha irmã. Ela no meu colo. Eu tenho que ter forças para falar por ela, porque a justiça divina está sendo feita e está mexendo com a justiça dos homens. Minha filha era perfeita, desenhava – “ela tinha tinta guache, pincéis. Tinha gibis, sentava na cama e lia. Só não consegui realizar um desejo dela, que era comprar uma revistinha da Mônica adolescente. Não consegui achar. Era estudiosa, obediente. Eu admirava a obediência. Ela vivia sorrindo, queria ajudar as pessoas. Ela era do bem. Eu tenho que falar por ela, estou aqui por ela”, disse a mãe de Ágatha.

Mães que tiveram filhos e filhas mortos pela Polícia temem que aconteça o mesmo aos que estão vivos. Como é o caso relatado à Folha de S. Paulo pela funcionária pública baiana Mira Nascimento, de 60 anos, que, em outubro de 2017, perdeu seu filho Rodrigo, de 20 anos, durante uma intervenção policial em um evento de carros de som em Salvador (BA). “Antes de saber que ele tinha morrido, eu estava angustiada. Parecia que ele não ia voltar. Eu olhava para a porta, esperava e nada de Diguinho. Tem quase três anos que aconteceu, mas até hoje dói”.

No mesmo ano em que seu filho morreu, policiais brasileiros mataram, em média, 14 pessoas por dia, segundo o Atlas da Violência de 2019 feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. De cada quatro pessoas mortas naquele ano, três eram negras, como Rodrigo.

De acordo com o Mapa da Violência, uma publicação conjunta da Unesco com o Ministério da Justiça, “nos últimos dez anos, o Brasil registrou 522 mil mortes, o que equivale a cinco guerras no Iraque”. Embora a Polícia em si não seja a única força letal contra a juventude negra, ela é certamente uma das mais incisivas. Apesar de ser visto como exagero pelos setores conservadores da sociedade, a política programada de eliminação de negros pelas forças policiais já é admitido por parte da imprensa nacional, a exemplo do jornal Correio Braziliense, que, após cruzar dados de mortalidade por força policial do Ministério da Saúde e das ocorrências registradas nas secretarias de Segurança Pública do Rio de Janeiro e São Paulo, revelou que uma pessoa é morta no Brasil pela Polícia a cada cinco horas e que 141 assassinatos são realizados por agentes do Estado a cada mês. Ainda segundo o estudo, Rio de Janeiro e São Paulo concentram 80% dos assassinatos cometidos por policiais no Brasil.

É assim que, todos os dias, a exploração e a discriminação racial são usadas pelos capitalistas para lucrar o máximo possível em cima das vidas de negras e negros. Neste sentido, é tarefa urgente da juventude, em conjunto com a classe trabalhadora, combater e derrubar o racismo, o machismo, a LGBTfobia e a xenofobia, indo até a raiz dessas opressões – o modo de produção capitalista.

Não queremos ser mais uma estatística, somos pessoas, com nomes e sonhos.

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Fonte blog A Verdade