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ToggleSanta Marta é muitas coisas antes de ser sede da Primeira Conferência Internacional pelo Fim dos Combustíveis Fósseis: é a cidade mais antiga da Colômbia, construída por braços e força de pessoas escravizadas que desembarcaram no Porto de Cartagena, que foi o principal entreposto de africanos escravizados na América espanhola durante o período colonial (e o segundo maior da América, perdendo só para o Rio de Janeiro). Neste território está Sierra Nevada, um conjunto de montanhas e vales sagrados para os povos indígenas, que a consideram ‘Él corazón del mundo’. Foi aqui também que morreu o libertador Simón Bolívar, figura fundamental para a história do país.
Foi essa cidade cheia de história a escolhida para receber a conferência inédita e ousada dirigida por duas mulheres: a ministra de Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, e a ministra do Clima e Desenvolvimento Verde dos Países Baixos, Stientje van Veldhoven.
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E nesse texto vou te contar os encaminhamentos mais importantes em 5 passos:
1 – Um outro jeito de fazer:
Em um mundo cansado de promessas vazias das Conferências Climáticas anuais (COPs do Clima) que parecem não estar alinhadas à realidade dura dos eventos extremos, Santa Marta buscou algo diferente: incorporar oficialmente as vozes dos povos e liderar pela prática, construindo pontes para que o medo e os argumentos contrários à transição fiquem no passado.
Diferente da burocracia rígida das Nações Unidas, onde só falam representações de estados e o “consenso” muitas vezes serve como freio para as resoluções que nos levariam à solução da crise climática, a conferência de Santa Marta apostou em uma inovação metodológica.
A Cúpula dos Povos fez parte da programação oficial, ganhando estrutura para realizar os debates e voz nas plenárias de alto nível. Essas, inclusive, foram um exercício de alteridade: a palavra circulou horizontalmente e não ficou restrita às delegações dos países. Cientistas dividiram o microfone com representantes de bancos de desenvolvimento, de sindicatos, de crianças e jovens, movimentos sociais, ONGs, de países poluidores, países afetados, mulheres, pessoas racializadas e representantes de todos os continentes.

A mensagem foi clara: a ciência e a realidade não aceitam mais novos projetos de petróleo. O século XXI será lembrado ou como o século das catástrofes climáticas, ou como o século da resolução, como bem pontuou Ana Toni, CEO da COP30. Não estamos mais na fase de convencer sobre a necessidade da transição, estamos na fase de desenhar como ela será aplicada para garantir a paz e a sobrevivência.
Se o exemplo é o que arrasta, a Colômbia e a França deram os primeiros passos concretos. No ano passado, o governo colombiano anunciou que sua Amazônia está livre da exploração de petróleo, e durante a Conferência estendeu essa restrição à Serra Nevada, uma decisão corajosa que prioriza a vida sobre a receita imediata. No mesmo passo, a França apresentou o seu calendário de descarbonização: adeus ao carvão em 2040, ao petróleo em 2045 e ao gás natural em 2050.
Esses movimentos provam que o medo da transição pode ser enfrentado se houver vontade política de encarar as contradições econômicas sem usá-las como desculpa para a inércia.

2 – A Perspectiva Indígena e a Transição Ecossocial
Os povos indígenas, em sua declaração oficial, estabeleceram os padrões mínimos para o que chamam de Transição Justa. Não se trata apenas de trocar a fonte de energia, mas de redefinir prioridades. O conceito de Transição Ecossocial ganhou força: colocar a vida acima do lucro, garantindo autonomia e soberania energética para evitar as chamadas “falsas soluções” (como grandes projetos que ignoram o território, por exemplo o mercado de carbono).
Um ponto crucial discutido foi o combate ao neocolonialismo energético. Explico: a transição não pode significar a manutenção de uma lógica onde o Sul Global continua sendo apenas um fornecedor de minerais (como lítio) e energia limpa para sustentar o padrão de consumo do Norte Global. O documento final aponta que a reforma da arquitetura financeira é urgente: é preciso trocar dívidas externas por ação climática (debt-for-climate swaps) e eliminar os subsídios aos fósseis que alimentam a destruição.
3 – Do Horizonte de 2027 à Ciência como Bússola
Santa Marta não foi um evento isolado, mas o primeiro passo de um processo. O compromisso com o futuro já tem coordenadas geográficas e temporais: uma segunda conferência está confirmada para 2027 e acontecerá em Tuvalu, um pequeno país insular na Polinésia, Pacífico Sul, composto por nove ilhas e atóis com cerca de 11.000 habitantes, sendo a nação mais ameaçada pelas mudanças climáticas. A próxima conferência ainda contará com a co-presidência da Irlanda.

Ainda, foram estabelecidas três frentes de trabalho estruturantes. Esses Grupos de Trabalho (GTs) focarão na: (1) criação de roadmaps alinhados às metas nacionais (NDCs); (2) na revisão da arquitetura financeira global, para que a transição não signifique mais dívidas para o Sul Global e no (3) alinhamento estratégico entre produtores e consumidores para descarbonizar o comércio mundial.
Tudo isso ancorado pelo rigor técnico: o lançamento do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET) surge para garantir que as decisões políticas não ignorem a realidade termodinâmica do planeta. Em Santa Marta, a ciência deixou de ser um anexo para se tornar a bússola que aponta para o único caminho seguro: a eliminação gradual e definitiva dos fósseis.
Considero o lançamento do Painel focado na transição é fundamental, mas não é como se a ciência nunca tivesse sentado à mesa: o IPCC produz relatórios periódicos há décadas.

4 – O caso Brasil e o desafio de liderar com a própria casa em chamas
Ao olharmos para o Brasil a partir de Santa Marta, o reflexo é inquietante. Apesar de toda a retórica diplomática que o país costuma ostentar em fóruns globais, a participação brasileira esteve muito aquém do esperado, com uma ausência notável: a do embaixador e presidente da COP30 André Correa do Lago.
Esse vazio fala mais do que qualquer discurso; ele sugere uma hesitação em assumir o protagonismo do “exemplo que arrasta” quando o custo é enfrentar interesses domésticos poderosos.
O desafio brasileiro se divide em duas frentes de conflito que testam a honestidade da nossa política climática:
1 – O Fetiche do Petróleo: Enquanto o mundo discute o fim dos combustíveis fósseis, o Ministério de Minas e Energia pressiona pela exploração da Foz do Amazonas. O discurso de que nossas emissões não vêm majoritariamente do petróleo é uma meia-verdade perigosa, utilizada para justificar um “desenvolvimento” fóssil tardio que nos prende ao passado e ignora a urgência de um mapa do caminho prometido na COP30, mas que já está atrasado.
2 – O Setor de Alimentos: O Brasil parece ignorar o elefante na sala, ou melhor, o gado no pasto. Não há uma política robusta para enfrentar nossa maior fonte de emissões: o modo de produção agroindustrial. Sem reformar a forma como produzimos alimentos, qualquer promessa de enfrentar a crise climática será insuficiente.
Santa Marta nos ensinou que as palavras convencem, mas apenas o exemplo pode arrastar. Para o Brasil, o tempo de convencer com palavras acabou. O desafio agora é enfrentar as contradições internas, deixar o petróleo no subsolo e reinventar nosso modelo produtivo para não sermos lembrados como líderes de palavras vazias.
5 – Dá pra ter esperança?
Saio de Santa Marta com o coração cheio da alegria e hospitalidade do povo colombiano, que carrega em sua história e território as marcas da violenta colonização, mas que não deixa de sorrir e acolher quem chega.
Saio também com a sensação de que o primeiro passo foi dado: A Lei da Inércia, ou Primeira Lei de Newton, afirma que um corpo tende a manter seu estado a menos que uma força externa atue sobre ele. Sinto que Santa Marta deu um empurrão, mas para que o cenário continue se movendo rumo a um mundo sem fósseis ainda é preciso muitos empurrões.
Que os exemplos apresentados e anunciados em terras colombianas tomem o mundo e mostrem que não é só urgente deixar os fósseis no chão como possível.
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
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