Artigo | 20 de novembro: negue a brancura da consciência

Artigo | 20 de novembro: negue a brancura da consciência
Por Brasil de Fato

A nossa raça é muito forte. A nossa raça é muito resistente. E por força do nosso sangue, por força dos nossos orixás, que tem sustentado nossa fé, nossa energia e nosso braço que jamais descansou nessa luta sem tréguas por nossos direitos fundamentais (Abdias do Nascimento)

 

Decorrente de um sistema escravagista que desumanizou os negros por quase quatro séculos, a sociedade brasileira naturalizou um elenco de afirmações que valorizam as pessoas brancas, e depreciam as pessoas negras. É comum ouvirmos que os brancos são mais confiáveis, são os mais bonitos, os mais inteligentes, e outras questões que os colocam como superiores.

Nesse sentido, de acordo com o psiquiatra e filósofo político Frantz Fanon (2008), “o negro é o símbolo do Mal e do Feio”.

E não se encerra nisso, em paralelo circulam expressões do tipo: “negro de alma branca”, “pé na cozinha”, “da cor do pecado”, “serviço de preto”, “mercado negro”, “a coisa tá preta”. É o puro caldo do racismo no imaginário social, por isso que a linguagem o acompanha. Ela carrega traços violentos, inclusive nas situações que aparenta ser uma brincadeira, ou uma maneira carinhosa de dialogar com os negros.

É inquestionável, porém, o prejuízo que causa à saúde mental. Até os brancos são afetados, ainda que de forma distinta. Neles aflora um sentimento de superioridade racial e um estímulo a práticas discriminatórias: “Você tem inveja da minha cor”.

Lembro-me com muito desprezo do período escolar. Os ataques racistas das crianças brancas e a omissão dos professores me abalaram.

Houve uma situação em que estava desesperado com insultos acerca dos meus cabelos, daí tomei a decisão de aplicar um alisante capilar. Não aguentava mais ouvir “cabelo de bombril”, “cabelo ruim”, “cabelo pixaim”. Mas foi desastroso, lesionou o couro cabeludo, pois eu não soube utilizar o creme. A minha mãe descobriu e desesperou-se com as feridas, e no final tive que raspar o cabelo.

Depois do fatídico episódio, apareceu um aluno dizendo que se os negros se banhassem com cloro a pele ficaria mais clara, porém, antes de fazer outra loucura, perguntei a minha mãe. Ela ficou tão revoltada que foi denunciar o aluno à diretora.

Aliás, eu ficava apreensivo quando alguém da minha família tinha que comparecer à escola, pois não queria dar munição à molecada para ficarem com piadas racistas nas minhas costas.

O fato é que o acúmulo de violências contra os negros, ao longo de toda nossa existência, nunca são em vão. A ativista e intelectual bell hooks* explica: “Em uma sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade”. 

::Brasil de Fato lança tabloide especial sobre Consciência Negra e antirracismo::

Ao internalizar o racismo mutilamos os nossos sonhos, não vivemos em plenitude, submetemo-nos às humilhações dos brancos e reproduzimos o racismo contra outros negros. Eu acredito que a superação dessas situações começa com a construção do ser negro dentro de nós, portanto, urge a participação permanente nas discussões raciais, mas, que sejam portadoras de conteúdos históricos, políticos e culturais. 

A psiquiatra Neusa Santos Souza (1983) na obra “Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social” discutiu essas questões:

Ser negro é (…) tomar consciência do processo ideológico que, por meio de um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse dessa consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer nível de exploração. Assim, ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro. 

Porém, é fundamental termos a clareza de que a construção da identidade negra, que renuncie a idealização dos valores brancos, não depende somente do esforço mental do negro. O meio social precisa de mudanças concretas que proporcione, sobretudo, dignidade humana. Para tanto, exige-se o profundo engajamento nas lutas antirracistas e anticapitalistas.

Se considerarmos aquelas afirmações iniciais, notaremos a relação com a realidade concreta, mesmo que estejam equivocadas e incompletas. Como a maioria dos encarcerados são negros, os brancos acreditam que o instinto criminoso pertence a nossa natureza. Como somos os mais pobres e miseráveis, os brancos concluem que não nos esforçamos o suficiente. [Continua após o vídeo.]

Veja também:

Como a maioria dos brancos está em ocupações supervalorizadas (juízes, médicos, engenheiros), os brancos acreditam que os negros não têm substancial capacidade intelectual. Ou seja, as conclusões ignoram as questões raciais que obstaculizam as nossas vidas. De qualquer maneira há um diálogo com o que salta aos olhos. Mas, se a realidade concreta mudar, as afirmações não serão validadas. Quiçá, nem existirão.

No dia 20 de novembro, celebraremos a Consciência Negra e a memória de Zumbi dos Palmares. É um momento para potencializarmos os debates que abordem as lutas históricas, a cultura negra, os desafios contemporâneos, além de denunciarmos a dívida histórica da sociedade com o povo negro. Quem ainda não se tornou negro, encontra mais uma oportunidade de envolver-se e repensar o seu lugar no mundo.

O negro deve despir-se da idealização da brancura e do sentimento de inferioridade. Lembre-se das palavras do Abdias do Nascimento “A nossa raça é muito forte”. Orgulhe-se!

 

*Ricardo Correa é professor. Formado em Tecnologia Industrial e Pós-graduado em Formação de Professores (IFSP). Ex-lider comunitário na periferia da zona leste de São Paulo.

**bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escrito com letras minúsculas por reivindicação da própria intelectual.

***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Deixe uma resposta