A cidade de Arinos, cujo nome homenageia o respeitado escritor mineiro Afonso Arinos, é um dos principais municípios do noroeste de Minas Gerais que ainda guarda a tradição antiga de criação de gado. Fica a 250 km de Brasília. É conhecida atualmente como a capital nacional do Baru, espécie de planta nativa do Cerrado que possui uma amêndoa super apreciada, que tem feito o maior sucesso no Brasil e no exterior, gerando renda para agricultores familiares e comunidades tradicionais que vivem no bioma.
Arinos faz parte da bacia do rio Urucuia, um dos principais afluentes do rio São Francisco, região de Cerrado bonito, tão bem descrita na obra de João Guimarães Rosa. Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo, protagonista do famoso romance, dentre outras passagens, refere-se assim ao rio:
“(…). Viemos pelo Urucuia. Rio meu, de amor é o Urucuia”.
“(…). O Urucuia é um rio, o rio das montanhas. Recebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbús, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias”.
Esta região faz parte do território do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, conjunto de áreas protegidas, dentre as quais os Parques Nacionais Grande Sertão Veredas e Cavernas do Peruaçu, os Parques Estaduais Sagarana, Serra das Araras e Veredas do Peruaçu, as maiores APAs de Minas Gerais, as Terras Indígenas Xacriabá, Territórios Quilombolas, dentre outras áreas protegidas.
Nas últimas décadas, o agronegócio vem ocupando o Cerrado com extensos plantios de soja, especialmente nas áreas de chapadas. Nos vales ainda predomina a criação de gado na forma convencional, cada vez menos atrativa do ponto de vista econômico em comparação com outros usos da terra.
Também, nessas regiões, encontram-se comunidades tradicionais e agricultores familiares, que têm uma vida mais harmônica com o Cerrado, respeitando-o e utilizando-o de forma mais sustentável, inclusive com aproveitamento racional de vários frutos e outros produtos do Cerrado. O baru é um destes, mas também, o pequi, o buriti, a fava-d’anta, o jatobá, o cajuzinho, a mangaba, a cagaita, dentre muitos outros. Para que a sua extração sustentável continue é crucial que o Cerrado se mantenha em pé.
Mais recentemente chegou ao município a nova onda de destruição e ocupação do Cerrado, os megaprojetos de energia solar, responsáveis pela implantação de verdadeiros “monocultivos” de placas solares, que se perdem no horizonte. A meta prevista é atingir uma área de 80 mil hectares com o “plantio” dessas placas de energia fotovoltaicas, sendo metade com o desmatamento de Cerrado e a outra metade em áreas predominantemente de pastagens. Em função das baixas rendas obtidas com o gado criado na forma convencional, está sendo mais vantajoso para os proprietários arrendar suas terras ou até vendê-las para as empresas que implementam estes projetos, a maioria estrangeira.
Apesar do grande impacto socioambiental, estes projetos, conforme prevê a legislação de Minas Gerais, não precisam de Estudos de Impactos Ambientais, nem consultas à sociedade, contrariando a lógica do que deveria ser. O órgão ambiental (IEF-MG) precisa emitir apenas uma LAS (Licença Ambiental Simplificada), que deveria ser para empreendimentos considerados de baixo impacto e reduzida extensão. Além dessa facilidade na obtenção da licença, estes empreendimentos estão recebendo incentivos fiscais, ou seja, não recolhem impostos.
Arinos está passando por um “boom”, atraindo mão-de-obra de outros municípios, além de profissionais de diferentes formações. Muitos moradores antigos estão assustados com o aumento dos preços nos mercados, restaurantes, aluguéis, especulação imobiliária, dentre outros aspectos. Aumentam, também, as demandas pelos serviços públicos de educação, saúde, segurança, coleta de lixo, destinação de esgoto, que a prefeitura não consegue atender, situação que poderia ser amenizada se não houvesse a isenção de impostos a esses empreendimentos. E quando passar este “boom”, o que acontecerá? Será bom para o município? Com certeza não!
O que mais chama a atenção é que se trata de uma solução energética que não polui a atmosfera, de fonte renovável e que leva à diminuição do uso das fontes poluentes, como os combustíveis fósseis. No entanto esta solução, tão comemorada, está acarretando a destruição da natureza, diminuindo a biodiversidade e causando sérios problemas socioambientais. A Biodiversidade do Cerrado está sendo sacrificada para se promover a tão sonhada “transição energética”, em benefício do Clima. É correto isso?
Será que a solução prevista tem que ser baseada em mega projetos, com modelos similares ao agronegócio, com poucas preocupações com os impactos socioambientais gerados, com drásticas mudanças nas paisagens, projetos concentradores de terra, de renda, com fortes incentivos fiscais? Será que isso interessa às populações locais e ao próprio município?
Não seria melhor soluções mais inteligentes, concentrando esforços de geração de energia solar nas residências e outros estabelecimentos das próprias cidades ou, no caso de se utilizar áreas rurais, projetos menores, mais sustentáveis, em locais realmente degradados, sem necessidade de destruir o Cerrado que ainda está de pé?
Ao invés transformar as pastagens em “plantios” de placas solares por ser uma atividade considerada mais rentável que o modelo convencional de criação de gado, não seria mais interessante incentivar e promover a criação de gado orgânico, em paisagens produtivas sustentáveis, beneficiando as áreas protegidas do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu, mantendo a maior parte do Cerrado em pé, formando corredores ecológicos e garantindo áreas de extrativismo vegetal pelas comunidades, com pagamento pelos serviços ambientais, com certificação capaz de elevar os preços do gado e torná-lo mais atraente, respeitando a tradição do lugar?
A população local precisa conhecer melhor esses projetos, os impactos socioambientais, as mudanças que virão com esta forma de “desenvolvimento” e deve exigir que sejam tomadas medidas capazes de impedir que Arinos passe de capital nacional do Baru, que respeita o Cerrado, para capital nacional das “placas solares”, com extensas paisagens sem vida e o Cerrado ficando só na memória das pessoas e nas obras de escritores como os imortais Guimarães Rosa e Afonso Arinos.
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