Por Ana Luisa Albernaz, Marcelo Cordeiro Thalês, Marcelo Gordo, Diogo Lagroteria, Tainara V. Sobroza, William E. Magnusson, Philip M. Fearnside, Leandro Jerusalinsky, Renata Bocorny de Azevedo, Rodrigo Baia Castro, Dayse Campista, Wilson Roberto Spironello e Maurício Noronha
Área urbana
A área urbana de Manaus abrange 48.612 ha, dos quais 17.550 ha (36%) ainda estão cobertos por vegetação e 14.327,5 ha (29,5%) estão sob algum tipo de proteção. No entanto, quase toda (95,7%) da área com status de proteção está em categorias menos restritivas, enquanto apenas 4,3% são de proteção integral. Como resultado, 48% da vegetação dentro das áreas protegidas já foi perdida, reduzindo a quantidade de habitat disponível para o sauim-de-coleira (Tabela 3).
A vegetação desprotegida totaliza 9.967 ha. Embora 55% das manchas vegetadas sejam fragmentos de até 5 ha em áreas altamente urbanizadas, há seis manchas com mais de 500 ha de vegetação contínua, especialmente nas porções leste e norte da zona urbana (Fig. 5). As prioridades resultantes dentro da área urbana, compostas por espaços verdes e áreas de preservação permanente, somam 20.365,9 ha, ou 41,8%.

Área rural
O shapefile das unidades de planejamento para a aplicação do planejamento sistemático tinha uma área total de 838.418 ha. A superfície de custos composta refletiu o peso relativo das principais ameaças, como estradas e desmatamento, bem como as áreas com alta probabilidade de invasão com ocorrência registrada de S. midas. Algumas das unidades de planejamento de menor custo estavam em áreas já protegidas (Figura 6).

Todas (100%) das metas foram atingidas pela melhor solução (menor pontuação). O conjunto de áreas selecionadas cobriu 55,4% da área total. Mais da metade das unidades de planejamento selecionadas (60,4%) já estavam sob algum grau de proteção ou pertenciam ao Exército Brasileiro. Por outro lado, algumas partes das áreas já protegidas ou terras do Exército não foram incluídas na melhor solução (Tabela 4 e Figura 7).


A melhor solução gerou 18 manchas variando em tamanho de 32 a 199.698 ha (média 25.787, DP 57.513 ha). Todas as manchas maiores continham áreas protegidas. A maioria delas pode ser conectada usando o Linkage Mapper (Fig. 7). Como estamos preocupados com a possível expansão da distribuição geográfica de S. midas, excluímos uma ligação que permitiria a conexão através da área de alto potencial e ocorrência confirmada dessa espécie. Incluindo os corredores finais de 400 m de largura, a área prioritária aumenta para 477.223,7 ha. Juntas, as áreas prioritárias urbanas e rurais cobrem 497.589,6 ha ou 56,1% da área de estudo.
Contribuição e envolvimento das partes interessadas
Setenta pessoas compareceram ao seminário público, incluindo representantes de todos os principais grupos de interesse. A principal sugestão foi incluir as áreas de preservação permanente no mapa de prioridades para a área urbana, conforme detalhado acima.
Outras considerações relevantes também foram levantadas. Os participantes reconheceram o seminário como uma oportunidade para entender melhor as necessidades de conservação e concordaram que ações urgentes são necessárias, dado o crescente impacto das mudanças ambientais na vida humana. No entanto, moradores do recém-criado “Refúgio de Vida Silvestre Sauim-de-Coleira” [1] expressaram preocupação com a criação desta área de proteção integral, que foi estabelecida sem uma comunicação clara das atividades econômicas permitidas e sem planejamento ou apoio para uma transição econômica. Eles apontaram que precisam de apoio para a transição de sua principal atividade econômica. Um morador disse que a produção de carvão vegetal era sua principal atividade antes do estabelecimento da área protegida, o que não é permitido em uma área de proteção integral.[2]
Notas
[1] Lagroteria, D., Azevedo, R. B. d., Gordo, M., Coelho, L. F. M., Röhe, F., Campista, D., Noronha, M., Lima, N. A. S., Spironello, W. R., Costa, E. R., Medeiros, A., Sobroza, T. V., Souza, L. L., Castro, P. H. G., & Jerusalinsky, L. (2025). Pied Tamarin Wildlife Refuge: first federal protected area for the Critically Endangered Saguinus bicolor. Oryx. https://doi.org/10.1017/S0030605324001133
[2] Esta série é uma tradução de Albernaz, A.L., M.C. Thalês, M. Gordo, D. Lagroteria, T.V. Sobroza, W.E. Magnusson, P.M. Fearnside, L. Jerusalinsky, R.B. de Azevedo, R.B. Castro, D. Campista, W.R. Spironello & M. Noronha. 2026. Conservation of an endangered Amazonian primate: Priority areas for the pied tamarin (Saguinus bicolor) in Manaus, Brazil. Journal for Nature Conservation, 89: art. 127069. Este estudo foi apoiado pelo RE:WILD (número de subvenção SMA-CCO-G0000000301), proposto e coordenado pelo Instituto Sauim-de-Coleira e com o apoio institucional do Museu Paraense Emílio Goeldi (computadores e softwares para reuniões virtuais e análise de dados). A maior parte dos autores é de instituições locais. Os autores declaram não haver conflito de interesses. Agradecemos os comentários dos três revisores, que contribuíram para o aprimoramento do manuscrito.
Sobre os autores
Ana Luisa Albernaz possui Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, e Mestrado e Doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Atualmente é professora e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Evolução (PPGBE) e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, onde foi Diretora de 2018 a 2022. Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: várzea, Amazônia, biodiversidade, e planejamento para a conservação.
Marcelo Cordeiro Thalês Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia, mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Pará. Atualmente é Tecnologista do Museu Paraense Emílio Goeldi. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Sensoriamento Remoto, atuando principalmente nos seguintes temas: sensoriamento remoto, Amazônia, uso da terra, classificação de imagens e dinâmica da paisagem.
Marcelo Gordo possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), mestrado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutorado em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Atualmente é professor Associado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Tem experiência na área de Ecologia e taxonomia, atuando principalmente nos seguintes temas: Amazônia, conservação, Saguinus bicolor, herpetofauna e mamíferos.
Diogo Lagroteria possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Paraná, Especialização em manejo de espécies ameaçadas pela University of Kent, Inglaterra, e Mestrado em Ecologia pelo Instituto de Pesquisas Amazônicas (INPA). Atualmente é analista ambiental do ICMBio/MMA, atuando no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (CEPAM), em Manaus, Amazonas. É coordenador executivo do Plano de Ação Nacional para conservação do Sauim-de-coleira e é membro do Grupo de Especialistas em Primatas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Atua principalmente em temas como conservação e manejo de fauna silvestre ameaçada de extinção, abordando tópicos relacionados, tais como medicina da conservação, elaboração de planos de ação para a proteção de espécies ameaçadas e iniciativas de educação ambiental.
Tainara V. Sobroza possui Graduação em Bióloga pela Universidade Federal de Santa Maria, e mestrado e doutorado em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Atualmente é bolsista de pós-doutorado no projeto BioTechQuilombo pela iniciativa Amazônia +10. Tem interesse em Mastozoologia, Primatologia e no uso do som como ferramenta para o estudo de espécies, interações e habitats. Atualmente é colaboradora do programa de conservação “Projeto Sauim-de-Coleira” vinculado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Também colabora com o Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CENBAM) realizando inventários e monitoramento de primatas e outros grupos de mamíferos. Tem experiência com curadoria de dados acústicos e bancos de dados de projetos de longa duração.
William E. Magnusson possui graduação e doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade de Sydney, Austrália. Atualmente é pesquisador titular III do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e bolsista de produtividade do CNPq nível 1B, tendo publicado >250 artigos sobre uma ampla variedade de grupos taxonômicos. Ele tem interesse especial em desenhos amostrais multidisciplinares.
Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 800 publicações científicas e mais de 800 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.
Leandro Jerusalinsk possui Bacharel em Ciências Biológicas, Mestrado em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutorado em Ciências Biológicas – Zoologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPB). Atualmente é Analista Ambiental no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ele é Coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (ICMBio/CPB), e é Presidente Adjunto do Grupo Especialista em Primatas (PSG) da Comissão para a Sobrevivência de Espécies (SSC) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Suas principais áreas de atuação são Conservação de Primatas, Primatologia, Planejamento Estratégico para a Conservação, Gestão Estratégica e Biologia da Conservação.
Renata Bocorny de Azevedo possui Graduação em Ciências Biológicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), especialização em Animais Silvestres com ênfase em Conservação na Amazônia, pela Universidade Federal Rural da Amazônia, e mestrado em Zoologia também pela PUC-RS. Atualmente é Analista Ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), lotada no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB). Tem experiência na área de Zoologia, com ênfase em Etologia, Ecologia e Conservação de Primatas e na área de gestão ambiental.
Rodrigo Baia Castro possui graduação em Licenciatura Plena em Ciências Naturais pela Universidade do Estado do Pará, graduação em Sistemas de Informação pela Universidade Federal do Pará, e bacharelado em Direito pela faculdade Estacio de Castanhal. Possui especialização em Educação Social para a Juventude pela Universidade do Estado do Pará, mestrado em Zoologia pela Universidade Federal do Pará, e doutorado em biodiversidade pelo Museu Emilio Goeldi. Possui experiência em sensoriamento remoto, modelos de distribuição de espécies, as ameaças à biodiversidade e a priorização espacial para a conservação.
Dayse Campista possua graduação em Bióloga pela Universidade Gama Filho(UGF), mestrado em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Possui habilidades em educação ambiental, gestão de parques zoológicos, manejo dos recursos naturais e gestão ambiental. Atualmente, Diretora Executiva do Instituto Sauim-de-coleira e coordenadora do Programa de Educação Ambiental “Sauim na Escola”.
Wilson Roberto Spironello possui graduação em Ecologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e doutorado em Biologia pela Universidade de Cambridge, Inglaterra. Desde 2023 é pesquisador no Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). De 2002-2023 foi pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia (2014-2015) e do Instituto Sauim-de-coleira (2022-2023). Possui experiência em ecologia de primatas e com a ecologia e monitoramento de mamíferos terrestres de médio e grande porte.
Maurício de Almeida Noronha possui graduação em Ciências Biológicas e especialização em Manejo de Animais Silvestres pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Mestrado em Ciências Ambientais e Florestais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). As suas pesquisas focam em mastofauna do bioma Amazônia, com ênfase em primatas.
e Mestrado e Doutorado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Atualmente é professora e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Evolução (PPGBE) e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, onde foi Diretora de 2018 a 2022. Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: várzea, Amazônia, biodiversidade, e planejamento para a conservação.
As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site Amazônia Real e são de total responsabilidade do autor.
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