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ToggleManaus (AM) – Vanda Witoto, liderança indígena, pediu a palavra e disse um nome: Shirley Baré. Multiartista, educadora e referência entre as juventudes indígenas do rio Negro, a jovem ancestralizou em 1° de dezembro de 2025, aos 27 anos. A morte de Shirley reflete um ciclo de violências que se repetem contra as mulheres no Brasil: racismo, assédios, estupros, agressões físicas, verbais e patrimoniais. Crimes que o Estado trata como se fossem inevitáveis.
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o nome de Shirley ecoou pelas ruas do centro de Manaus junto de centenas de outros – grafados em bandeiras e faixas, colados em cartazes, gritados em coro. A IV Marcha das Mulheres Indígenas de Manaus e Entorno e o Ato Contra o Feminicídio e as Violências que o Estado Não Vê reuniram mulheres de ao menos 16 povos indígenas, além de feministas negras, quilombolas e ribeirinhas, numa caminhada organizada pelo Fórum Permanente de Mulheres do Amazonas (FPMA) e pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime).
O Amazonas é o Estado com os índices mais altos de violência letal contra mulheres de toda a Amazônia, que incluem feminicídio e homicídio doloso feminino. A taxa chega a 6,4 mortes a cada 100 mil mulheres – 69% acima da média nacional, que é de 3,8 por 100 mil, segundo o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado em 2024 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Mãe Crioula. No Brasil, 2025 terminou com 1.568 mulheres mortas por feminicídio – crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. A cada 4 horas, uma mulher é assassinada no País.

Já a taxa de feminicídios nos municípios da Amazônia Legal foi de 1,8 para cada 100 mil mulheres, 28,6% superior à média nacional, que foi de 1,4 por 100 mil. Diferente dos outros Estados, os casos de feminicídios são invisibilizados na região que compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins.
Dineva Maria Kayabi, coordenadora-tesoureira da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e indígena do povo Kayabi, do Mato Grosso, marchou ao lado de mulheres Mura, Tikuna, Kokama, Apurinã, Sateré-Mawé, Tukano, Warao, Munduruku, Desana, Kambeba, Juma, Makuxi, Baré, Miranha e Maraguá. Para ela, estar ali é um ato de sobrevivência política.
“Se a gente não dá a nossa voz, o Estado não vê, o Estado não ouve. Estamos com um alto índice de feminicídio no território e o Estado fica calado. O governo acha que [violência] é cultura e para nós, isso não é cultura. Para nós, isso é preocupante. Hoje está sendo de suma importância, porque nós mulheres lutamos para estar nesses espaços. Principalmente agora que vem as eleições, e aqui está a voz das mulheres que também vão competir nesses cargos tão importantes para não retroceder nossos direitos”, disse a liderança.
Urgência da vida

O novo boletim “Elas Vivem: a urgência da vida”, lançado em 6 de março pela Rede de Observatórios da Segurança, indica que, ao todo, foram registradas 4.558 vítimas de algum tipo de violência em 2025, como feminicídio, estupro, tortura, agressão verbal, agressão física e cárce privado. A taxa representa um aumento de 9% em relação a 2024. No Amazonas, foram registrados 1.023 casos de violência. As tentativas de feminicídio e agressões físicas registraram 383 casos, sendo que 92,3% dos feminicídios estão sem registro de raça e cor.
O estudo destacou de maneira preocupante o aumento dos casos de violência sexual ou estupro. Os registros saltaram de 602 para 961 casos, um crescimento de 56,6%. O perfil das vítimas revelou que 56,5% das vítimas eram crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. Em relação a violência sexual, os números no Amazonas são de 353 vítimas, 78,4% eram crianças e adolescentes, entre as quais cinco meninas indígenas.
Uma das organizadoras do ato, a feminista negra Regina de Benguela, vice-presidente da União de Negras e Negros pela Igualdade do Amazonas (Unegro Amazonas), destacou a luta das mulheres negras, indígenas, quilombolas e ribeirihas de Manaus por direitos e igualdade de gênero. Ela também pediu por leis mais severas no combate às violências.
“A gente precisa de direitos, de igualdade de gênero, de respeito. Não é possível uma mulher ser assassinada só porque é uma mulher. O homem te bate, o homem te estupra, o homem te violenta. O feminicídio é o fechamento do ciclo. Precisa de leis firmes. A Maria da Penha é uma lei robusta, moderna, inclusive, imitada por outros países, mas estruturalmente ela é muito mal aplicada no Brasil. O homem mata, é detido, chega na delegacia, dá o depoimento dele e sai pela porta da frente como se nada tivesse acontecido. E quem morreu? Quem perdeu a vida? Foi a mulher!”, disse Benguela.
Violência que não cessa

A impunidade tem endereço no Amazonas. Em setembro de 2025, o Conselho Permanente de Justiça Militar do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) absolveu o réu Elson Santos de Brito pelo assassinato da policial militar Deusiane da Silva Pinheiro. Ela foi morta aos 26 anos dentro da Companhia Fluvial do Batalhão Ambiental, no bairro Tarumã, zona oeste de Manaus, em 1º de abril de 2015. Foram dez anos para que a Justiça chegasse a um veredito. Outros quatro envolvidos, os militares Cosme Moura Sousa, Jairo Oliveira Gomes, Júlio Henrique da Silva Gama e Narcizio Guimarães Neto, que confirmaram a versão do sargento Elson, foram absolvidos por unanimidade do crime de falso testemunho.
Outro caso de repercussão foi o assassinato da artista venezuelana Julieta Hernández, em dezembro de 2023, em Presidente Figueiredo (AM). O casal acusado pelo crime foi condenado por latrocínio e ocultação de cadáver em 2025. A Justiça não reconheceu o crime de feminicídio.
A feminista Luzanira Varela, integrante do FPMA, trabalha há mais de 40 anos no enfratamento à violência contra as mulheres do Amazonas. Em sua avaliação, as políticas públicas existentes para combater a violência e o feminicídio não são suficientes. A ativista citou como exemplo a construção da Casa da Mulher Brasileira em Manaus, destinada a ser um espaço de acolhimento e atendimento humanizado às mulheres que vivem em situação de violência. Anunciada em 2020 pela então ministra Damares Alves, do extinto Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, as instalações da unidade na cidade ainda não ficaram prontas.

“Estamos exigindo que as políticas públicas sejam tiradas do papel, que sejam cumpridas as leis que nós conquistamos ao longo de mais de 40 anos de caminhada. A Casa da Mulher Brasileira foi uma ideia do Governo Federal, mas até agora não foi construída, se você for lá, só está com os pilares [de construção], [o terreno] cheio de mato. Eu sonho que no próximo 8 de março, nós estaremos comemorando as nossas conquistas”, disse.
Varela ressaltou ainda a necessidade de reforço da Lei Maria da Penha e da legislação que combate o feminicídio no país. O marco inicial dessa proteção é a Lei nº 13.104/2015, que qualificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo, alterando o artigo 121 do Código Penal. Em outubro de 2024, o Brasil avançou com a Lei nº 14.994, conhecida como “Pacote Antifeminicídio”, que transformou o feminicídio em um tipo penal autônomo e agravou a pena para a maior prevista no Código Penal, de até 40 anos, além incluir novas agravantes e endurecer dispositivos ligados à violência contra a mulher.
A brutalidade dos crimes cometidos na região amazônica preocupa. No Pará, duas mulheres quebradeiras de coco-babaçu sofreram feminicídio em Novo Repartimento, região sudeste paraense, dias antes da abertura da COP30. No dia 3 de novembro de 2025, Antônia Ferreira dos Santos, 53 anos, e Marly Viana Barroso, 71, foram brutalmente assassinadas, no que movimentos de mulheres qualificaram como feminicídio, com fortes indícios de violência de gênero, incluindo possíveis agressões sexuais e uso de arma branca. No dia 11 do mesmo mês, a Polícia Civil anunciou a prisão de Danilo Carneiro da Silva, que confessou o duplo feminicídio.
258%

Um levantamento inédito da Gênero e Número, divulgado em 2025, apontou que os casos de violência contra mulheres indígenas aumentaram 258% em nove anos, bem acima da média nacional, que foi de 207% para brasileiras de todas as raças no mesmo período. Os dados foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, e referem-se a três formas de violência: física, psicológica e sexual.
Danielle Munduruku, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e ativista do povo Munduruku, afirmou que o ato de protestar contra essas violências nas ruas é uma resposta ao silenciamento das mulheres indígenas. “Estar aqui é dizer que nós existimos, é uma forma de territorialização. A rua é um lugar de vida, de cultura. Estamos aqui com muitas cores, muitas bandeiras, com muitos grafismos, se unindo ao movimento social. A gente não vem sozinha, com a nossa voz vem a voz da nossa avó, da nossa mãe, da nossa bisavó. É um grito de resistência e é uma tentativa de dizer não a esse número de 258%, que aponta aponta a violência sexual. Continuam invadindo a nossa terra, o nosso corpo, a nossa mãe”, manifestou.
Os registros de violência sexual – que englobam casos de assédio, estupro, pornografia infantil e exploração sexual – saltaram para 297%. entre as mulheres indígenas. Metade das vítimas de violência sexual são meninas indígenas menores de 14 anos. Entre os agressores, os companheiros e ex-companheiros se destacam, um padrão que se repete em toda a população brasileira.
Em novembro de 2025, um caso violência sexual contra uma adolescente indígena do povo Kulina, de 12 anos, chocou as mulheres do movimento indígena do Amazonas. Ela foi vítima de estupro coletivo na comunidade Mapiranga no município de Juruá, interior do Amazonas. Segundo a Polícia Civil, ao menos oito adolescentes, todos do mesmo povo, já foram identificados como suspeitos de envolvimento no caso.
Juventude na luta
Durante o ato, a juventude de mulheres e meninas se viu representada por centenas de crianças e adolescentes ocupando a manifestação. Taíssa Kambeba, jovem indígena de 15 anos, do povo Kambeba, relatou em entrevista à Amazônia Real que desde muita nova acompanha a luta do movimento indígena e das mulheres indígenas por emancipação e conquista de direitos. Ela espera inspirar outras jovens com sua luta.

“Eu cresci nesse movimento. É um legado que a gente carrega, porque além de ser mulher, a gente é indígena. É muito importante ter essas jovens na luta, para que procurem os seus direitos, para que não passem por coisas ruins. Eu quero que elas saibam os seus direitos. A gente sabe o quanto é difícil ser violada, quando não escutam a gente, quando cometem assédio contra a gente dentro dos nossos próprios territórios. Espero que as jovens possam se aprofundar e se interessar em lutar contra isso”, disse.
A jovem Sarah Munduruku, de 17 anos, do povo Munduruku., também reforçou a participação da juventude no ato. Ela atua como comunicadora da Makira- E’ta – Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas. “Estamos aqui correndo atrás dos nossos direitos, procurando políticas públicas que possam nos beneficiar, todas as mulheres. Estamos aqui não só por nós, mas por aquelas que vieram antes para defender nossos territórios, para trazer direitos para nós mulheres indígenas, pelas crianças indígenas também.”
Atos pelo Brasil
Em São Paulo, milhares de mulheres marcharam pela Avenida Paulista sem medo da chuva forte. Elas exigiram medidas concretas contra a violência de gênero e o fim da escala de trabalho 6×1, criticada por ampliar a sobrecarga das mulheres trabalhadoras. O ato em recebeu o nome de ‘Em Defesa da Vida das Mulheres” e teve a participação de diversos movimentos sociais e sindicais entre eles, a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), Marcha Mundial das Mulheres, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
Mesmo pacífico,o protesto em São Paulo registrou o caso de um grupo de homens que provocaram participantes com ofensas às mulheres. Alguns deles carregavam imagens do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O episódio não atrapalhou o andamento da marcha, que seguiu pela região central da cidade.
No Rio de Janeiro, as manifestantes marcharam pela orla de Copacabana, onde cruzes foram fincadas na areia com o lema “Parem de nos matar”, em memória das vítimas de feminicídio. O protesto ocorreu no mesmo bairro onde, no fim de janeiro, uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo, em um caso que provocou indignação nacional.
As mulheres cariocas lembraram de casos recentes de feminicídio, como o da jovem Tainara Souza Santos, de 30 anos, arrastada por um carro na Marginal Tietê, na zona norte de São Paulo. Tainara morreu em dezembro de 2025. O assassino é Douglas Alves da Silva, de 26 anos.
Em Porto Alegre, uma performance teatral marcou a marcha. As manifestantes carregaram sapatos femininos manchados de vermelho, simbolizando mulheres assassinadas no estado, enquanto gritavam os nomes das vítimas. Outras cidades, como Campinas, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Belém, Alagoas, Florianópolis, Natal e Cuiabá também registraram marchas e atos públicos, reunindo coletivos feministas, sindicatos e organizações sociais que pediram o fim da violência e igualdade de direitos.
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