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A reabilitação de Elsa - ((o))eco

A reabilitação de Elsa – ((o))eco

George Adamson era o chefe dos guardas de caça de uma vasta região no Quênia – do tamanho da Grã-Bretanha, que se tornou o Parque Nacional de Meru em 1961 – na qual “as tribos locais [viviam] quase como os seus antepassados, e o local [patenteava] exuberantemente a vida selvática sob todos os aspectos”. Dentre as funções de Adamson: fazer cumprir as leis da caça, coibir a ação de caçadores furtivos e “ocupar-se dos animais ferozes que atacavam os homens das tribos”. 

A história de Elsa – a leoa protagonista desta coluna – começa quando “um homem da tribo dos Boran foi morto por um leão devorador de homens. George foi informado que este animal, acompanhado de duas leoas, se encontrava nuns montes vizinhos e por isso, competia-lhe descobrir o rastro. […] Na manhã de 1 fev. 1956 […] George fez sinal a Ken para disparar: este acertou, e feriu-a. A leoa desapareceu […] um forte rastro de sangue […]. Houve um rugido: a leoa apareceu […] um auxiliar dos serviços, que se encontrava em melhor posição, disparou sua arma, obrigando o animal a desviar-se: desta maneira, tornou-se possível a George matá-la. Era uma grande leoa, na força da vida, as tetas a regurgitar de leite. Só quando a viu assim é que George compreendeu porque estava tão furiosa e os enfrentara tão corajosamente. E arrependeu-se por não ter reconhecido mais cedo que o seu comportamento indicava que ela estava defendendo os filhos. […] não podiam ter mais do que duas ou três semanas. Foram levadas para o carro, onde as duas maiores sopraram e rosnaram durante todo o caminho até o acampamento. A terceira, a menor, não ofereceu, porém, resistência e parecia completamente alheia a tudo. […] era a mais fraca de corpo, mas a mais atrevida. […] chamámos-lhe Elsa porque me fazia lembrar alguém meu conhecido com este nome”.

Joy Adamson, esposa de George, adotou as leoazinhas com naturalidade e uma certa imprudência. “Não há dúvida de que nossa devoção compartilhada por Elsa nos aproximou como nunca antes, como uma criança poderia ter feito – e Elsa ocupou o lugar de uma criança em nosso álbum de família”, escreveu George em My Pride and Joy (1986), uma referência aos abortos espontâneos sofridos por Joy, que não deu ao casal a oportunidade de ter um filho. “As três crias estavam agora no meu regaço, e como poderia resistir a fazes delas o meu divertimento? […] Durante doze semanas mantivemo-las numa dieta de leite sem açúcar, misturado com óleo de fígado de bacalhau, glicose, farinha de ossos e um pouco de sal. […] demos-lhe bolas de borracha e velhas câmaras de ar, para brincarem com elas. De resto, tudo o que fosse feito de borracha, ou mole e flexível, fascinava-as”, registrou Joy em Born Free: A Lioness of Two Worlds [Nascida livre: uma leoa entre dois mundos], livro publicado em 1960.

Joy Adamson com os filhotes Elsa, Lustica e Big One sete semanas após o resgate. Crédito: Internet Archive.

Diferente do que foi feito, por exemplo, com filhotes de lobo-guará, recentemente – que ficaram distantes dos humanos por mais tempo até retornarem à vida livre –, as leoazinhas foram criadas dentro de casa, como animais de estimação, e ficaram quase dóceis. A palavra “quase” é a única honestidade possível quando se fala de três leoas brincando dentro de casa e no quintal. “Surpreender era o mais importante objetivo em todas as suas brincadeiras. Assaltavam-se umas às outras – e a nós também – desde a idade mais tenra, e sabiam, por instinto, como fazê-lo. Atacavam sempre pela retaguarda: conservando-se ocultas, agachavam-se e rastejavam devagarinho em direção à descuidada vítima, até que davam uma última corrida em velocidade e saltavam com todo o seu peso sobre a sua presa, deitando-se depois. […] À medida que as leoas iam tendo noção da sua força cada vez maior, experimentavam-na em tudo quanto podiam encontrar. […] Numa dessas ocasiões, deram cabo da barraca na qual se abrigavam dois homens que nos tinham vindo visitar e ali estavam a dormir. Em cinco minutos, estava destroçada, e nós acordamos aos gritos dos nossos hóspedes, que em vão procuravam salvaguardar as suas roupas, enquanto as leoazinhas, selváticamente excitadas, irrompiam no meio dos destroços e regressavam com uma variedade de troféus – chinelos, pijamas, retalhos de rede dos mosquiteiros. Fomos obrigados, desta vez, a manter a disciplina com uma pequena chibata. […] Quando chegaram aos cinco meses, estavam em esplêndidas condições, tornando-se cada vez mais vigorosas. Andavam completamente em liberdade, exceto durante a noite, quando dormiam num cercado de rochas e areia, protegidas por alguns abrigos de madeira. Era uma precaução necessária contra leões selvagens, hienas, chacais e elefantes, que com frequência passavam perto da nossa casa; qualquer deles, se as encontrasse, matá-las-ia. […] Achávamos que, se Elsa ficasse só conosco, como amiga, seria mais fácil prepará-la não só para a vida em Isiolo, mas também para nos acompanhar nos nossos safaris. Escolhemos o Jardim Zoológico de Roterdã-Blydorp para o futuro lar de Lustica e de Big One […]. Quando as visitei, cerca de três anos depois, receberam-me como a uma pessoa amiga e deixaram-me afagá-las […]. Viviam em esplêndidas condições e, sob todos os aspectos, fiquei contente por saber que certamente já não se recordavam de terem gozado uma vida mais livre.”

Elsa permaneceu sob os cuidados do casal Adamson, que passou a treiná-la para caçar e se virar sozinha. Conseguiram reaver sua natureza selvagem, preservando intacta a confiança e a conexão de afeto que haviam construído com ela quando ainda era um “animal de estimação”. A primeira tentativa de “soltura” deu errado. A segunda também. Monitorada, às vezes, Elsa era vista muito magra, às vezes faminta. 

Na terceira tentativa, a leoa encontrou um companheiro, tornando-se uma das primeiras experiências de reabilitação bem-sucedida da história da conservação, registrada de forma íntima ao longo de um período extenso, documentada em todas as suas etapas por uma coleção extraordinária de milhares de fotografias. “Por fim, Elsa encontrou seu par e talvez nossas esperanças se realizem e, um dia, ela possa entrar no acampamento seguida por uma ninhada de filhotes robustos” – assim Joy Adamson encerra Born free (1960). Os Adamson continuaram a monitorar Elsa, que deu à luz a uma ninhada. Quando chegavam à região onde ela vivia, disparavam alguns tiros para o alto e aguardavam que ela surgisse, correndo, da mata. Ela sempre se apresentava visivelmente feliz em revê-los, mesmo acompanhada dos filhotes.

Elsa e Joy no acampamento montado na área da segunda tentativa de soltura. Crédito: Internet Archive.

Em janeiro de 1961 – cinco anos após ter ficado órfã – Elsa morreu de babesiose – doença infecciosa causada por protozoários do gênero Babesia, transmitidos pela picada de carrapatos, provocando sintomas como febre, anemia, fadiga e, nos casos graves, falência de órgãos. Joy Adamson registrou a saga de Elsa e seus filhotes – Jespah, Gopa e Little Elsa – nas obras Living Free (1961) e Forever Free (1962). 

“Como eram esplêndidos aqueles leões – altivos, mas afáveis, dignos e senhores de si. Ao observá-los, era fácil entender por que o leão sempre fascinou o ser humano e se tornou símbolo daquilo que ele admira. O rei dos animais, como o chamam, é um monarca tolerante; é verdade que é um predador, mas os predadores são essenciais para manter o equilíbrio da vida selvagem, e o leão não tem desejo de ferir: não ataca o homem a menos que seja perseguido por sua pele ou esteja fraco demais para capturar presas mais ágeis. Nunca mata senão para saciar a fome – como prova a tranquilidade com que as manadas pastam ao redor de um bando quando sabem que os ventres dos leões estão cheios. Como eu amava observar aquela cena diante de mim. Pensei nos filhos de Elsa. Onde estariam eles naquele momento? Meu coração estava com eles, onde quer que estivessem. Mas também estava com aqueles dois leões ali à nossa frente; e, enquanto contemplava aquele belo par, percebi como todas as características de nossos filhotes estavam presentes neles. Na verdade, em cada leão que eu via durante nossas buscas, reconhecia a natureza intrínseca de Elsa, Jespah, Gopa e Little Elsa – o espírito de todos os magníficos leões da África. Que Deus os proteja de toda flecha e abençoe a todos eles e ao seu Reino” – encerra Joy em Forever free.

À esquerda, foto icônica de Elsa deitada sobre o Land Rover. Crédito: Internet Archive. À direita, Elsa e seus filhotes Jespah, Gopa e Little Elsa. Crédito: Internet Archive.

George Alexander Graham Adamson (1906–1989) nasceu na Índia, filho de pai irlandês e mãe inglesa. No início da década de 1920, ele e o irmão se juntaram aos pais, que haviam adquirido uma fazenda no Quênia, África. Foram muitas tentativas frustradas de ganhar a vida antes de George ingressar no Departamento de Caça do Quênia, em 1938, no qual trabalhou até a sua aposentadoria, em 1963. A partir daí, passou a morar em um acampamento no Parque Nacional de Meru, dedicando-se à reabilitação de leões – os três primeiros participaram das filmagens do longa-metragem Born Free (1966). 

Os esforços de George geraram muita controvérsia, sobretudo quando os leões reabilitados eventualmente atacavam ou matavam humanos. Vivendo em cabanas no meio do mato, ele contava com uma pequena pensão, juros de um fundo fiduciário criado por sua esposa, doações de apoiadores de sua causa conservacionista e os direitos autorais de sua autobiografia – Bwana Game (1968) e My Pride and Joy: An Autobiography (1986).

“Sinto que já não posso continuar respondendo a perguntas sobre Kora. Mas tenho algumas a fazer. Quem cuidará agora dos animais da reserva, se eles não podem cuidar de si mesmos? Há jovens homens e mulheres no Quênia dispostos a assumir essa responsabilidade? Enquanto isso, em quanto tempo os guardas tantas vezes prometidos serão enviados para patrulhar as estradas de Terence e manter-se firmes às margens do Tana quando a reserva for devastada pela seca? Quem levantará a voz, quando a minha for levada pelo vento, para defender a causa de Kora?”. Aos 83 anos, Adamson foi morto durante um confronto com um shifta – grupo de caçadores ilegais formado por membros de populações pastoris somalis, tradicionalmente nômades.

“Elsa vai caçar com George”. Crédito: Internet Archive.

Friederike Victoria Gessner (1910-1980) nasceu em Troppau, no Império Austro-Húngaro. Estudou piano, pois era desejo da família que se tornasse pianista. Contudo, interessava-se por pintura, desenho, costura, arqueologia e medicina – mas não conseguiu ingressar na universidade para a qual se candidatou. O primeiro casamento, em 1935 – marcado por um aborto espontâneo –, logo se desfez. Em 1937, durante uma viagem de barco para Mombasa, conheceu o suíço Peter René Oscar Bally (1895-1980) – botânico, ilustrador científico e taxonomista –, que lhe deu o apelido de Joy [Alegria]. Casaram-se em 1938 e, mais uma vez, Joy engravidou no primeiro ano de casamento, enfrentando outro aborto espontâneo.  O talento de Joy para a pintura lhe rendeu um contrato com o governo do Quênia – por oito anos – para retratar membros de diferentes tribos trajando suas vestimentas tradicionais. As pinturas integram o acervo do Museu Nacional do Quênia. Durante uma festa de Natal, em 1942, ela conheceu o guarda-florestal George Adamson, com quem se casou em 1944 após se divorciar amigavelmente de Peter. Nos anos de 1960, durante as gravações do longa-metragem Born Free no Monte Quênia, Joy – que sentia muita falta de Elsa – passou a cuidar de um guepardo de estimação, Pippa, de cujas memórias, observações de campo e defesa da conservação registrou, em escrita intimista, nos livros The Spotted Sphinx (1969), Pippa: The Cheetah and her Cubs (1970) e Pippa’s Challenge (1972).

Joy Adamson pintando o retrato de uma Masai, em 1960. Crédito: Encyclopaedia Britannica.

Em 1961, Joy fundou a Elsa Wild Animal Appeal – renomeada para Elsa Conservation Trust, em 1965, organização sem fins lucrativos voltada à proteção da vida selvagem. No mesmo ano, Joy comprou uma casa no Lago Naivasha, que chamou de Elsamere. Em 1976, obteve autorização para reabilitar um filhote de leopardo, fêmea. Quando a leopardo Penny estava com 18 meses de idade, Joy a levou para a Reserva Nacional de Shaba, onde cada etapa da reabilitação foi fotografada e, posteriormente, registrada no livro Queen of Shaba: The Story of an African Leopard (1980). Em janeiro de 1980, aos 69 anos, Joy Adamson foi assassinada em Shaba, por um jovem trabalhador que havia sido dispensado, em decorrência de uma disputa salarial. Joy foi cremada e parte das suas cinzas enterradas nos sepulcros de Elsa e de Pippa. Elsamere foi confiada ao Elsa Conservation Trust e transformada em um centro de educação para a conservação da vida selvagem. A região ao seu redor, conhecida como Hell’s Gate, adquirida alguns anos depois, tornou-se área protegida. Cartas escritas por Joy estão disponíveis para leitura. O casal Adamson foi protagonista importante na popularização da conservação da vida selvagem.

Sepulcro de Elsa no Parque Nacional de Meru, às margens do rio Ura. Lápide colocada por George Adamson. Foto do livro Elsa’s Pride: An Abridged Edition for Young Readers (1972). Crédito: Internet Archive.
A atriz Virginia McKenna em visita ao sepulcro de Elsa, em 2005. Crédito: Icon Films. Em entrevista concedida à revista Wildlife Times, a atriz disse: “O túmulo de Elsa, em Meru – onde parte das cinzas de Joy também está enterrada — fica a quilômetros de qualquer lugar, no coração da savana […]. No acampamento onde ela se tornou aquela famosa leoa de dois mundos [e aqui] há uma sensação de paz.”

Em set. 2012, a atriz britânica Virginia McKenna – que interpretou Joy Adamson no filme Born Free – compartilhou, em entrevista, algumas lembranças das filmagens:

“Caminhadas ao amanhecer com leões nas planícies africanas. Nadar com uma leoa no oceano. Recordar o início da nossa amizade com George Adamson, que durou até seu assassinato, em 1989. Foi por meio dele que aprendemos sobre leões – por que e como reagem a diferentes circunstâncias; como conquistar sua confiança; como ver as coisas do ponto de vista deles. Morar em uma antiga casa de colonos no meio do mato, a poucos metros dos rugidos dos leões. A gentileza do povo queniano que conhecemos e com quem trabalhamos. E, claro, os vastos céus do Quênia, com suas extraordinárias formações de nuvens que, milagrosamente, nunca pareciam obscurecer o sol. Talvez uma das minhas lembranças mais preciosas seja de quando eu caminhava com a Girl (uma das leoas que ‘interpretava’ Elsa) e seu irmão, Boy, e vimos um pequeno grupo de gazelas-de-Thomson a certa distância. De repente, Girl disparou, perseguiu-as, abateu uma, matou-a e então, como uma verdadeira leoa, arrastou-a até nós e a colocou aos meus pés. Ela nos deixou pegá-la e colocá-la na traseira do Land Rover para levá-la de volta ao acampamento. Isso realmente nos fez acreditar que fazíamos parte do seu bando”. Nascida em 1931, a atriz e seu esposo, o ator Bill Travers (1922–1994), tornaram-se ativistas da vida selvagem e criaram a Born Free Foundation, organização que busca garantir que todos os animais selvagens, em cativeiro ou na natureza, sejam tratados com compaixão e respeito e possam viver de acordo com suas necessidades naturais.

Quarta capa, lombada e capa da primeira edição de Born free: a lioness of two worlds, publicada em 1960 nos Estados Unidos da América pela editora estadunidense Pantheon Books. O livro tornou-se um best-seller, permanecendo por 13 semanas no topo da lista dos mais vendidos do jornal The New York Times.
Os livros da trilogia sobre Elsa e seus filhotes – Born free, Living free e Forever free – publicados em 1960, 1961 e 1962, respectivamente, foram traduzidos para mais de 30 idiomas.
Cartazes dos filmes Born Free (1966), Living Free (1972) – este estrelado por Susan Hampshire e Nigel Davenport (1928-2013) –, e da série estadunidense homônima, com 13 episódios, produzida pela Columbia Pictures Television. Foi ao ar na rede de televisão NBC de 9 set. a 30 dez. 1974.
À esquerda, Virginia McKenna, George Adamson, Bill Travers e Joy Adamson na locação de Born Free, Quênia, em 1965. Crédito: Columbia Pictures Corporation. À direita, Gary Collins (1938-2012), Hal Frederick (1934-2025) e Diana Muldaur, protagonistas da série televisiva. Crédito: Columbia Pictures Television.

O termo reabilitação e o seu significado no campo da conservação foi sendo consolidado a partir da década de 1970, no contexto de projetos de conservação de primatas, que combinavam cuidados em cativeiro com treinamento dos animais antes de retornarem ao seu habitat. Um dos primeiros usos do termo aparece em artigos do britânico Edward Brewer (1919-2003) – diretor do Departamento de Vida Selvagem de Gâmbia – e de sua, filha Stella Brewer (1951–2008), que lideraram o Chimpanzee Rehabilitation Project – programa pioneiro de soltura de chimpanzés órfãos, resgatados do tráfico na África Ocidental, em áreas protegidas. O trabalho dos Brewer está registrado no livro The Chimps of Mt. Asserick (1978).

Stella Brewer (na foto) dedicou a sua vida à reabilitação de chimpanzés, ensinando-lhes habilidades de sobrevivência na natureza. Crédito: The Women in Science Archive.

Em 1989, Devra Kleiman publicou o artigo clássico Reintroduction of captive mammals for conservation: guidelines for reintroducing endangered species into the wild [Reintrodução de mamíferos mantidos em cativeiro para a conservação: diretrizes para a reintrodução de espécies ameaçadas na natureza], no qual a reintrodução – com todos os seus componentes – é apresentada como uma ferramenta para a manutenção de populações de espécies ameaçadas tanto em cativeiro quanto na natureza, permitindo o intercâmbio genético entre esses dois mundos. A autora alerta para os altos custos, a complexidade logística e a escassez de habitat como fatores que tornam a reintrodução frequentemente inviável, devendo ser empregada apenas em condições muito específicas. 

O artigo também apresenta os conceitos de ‘introdução’, ‘reintrodução’, ‘translocação’, ‘reforço populacional’ e ‘preparação’, que viriam a influenciar diretamente as diretrizes da União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN e da biologia da conservação. “Preparação refere-se ao treinamento de animais antes da soltura, voltado a comportamentos que provavelmente contribuem para a sobrevivência. A preparação também inclui a aclimatação aos alimentos e às condições climáticas do local de soltura, a fim de aumentar as chances de sobrevivência dos animais liberados na vida selvagem. Na literatura que descreve a soltura de grandes primatas, o termo reabilitação é geralmente utilizado para se referir ao treinamento pós-soltura”, destacou Kleiman.

À esquerda, um dos cadernos de campo de Devra Kleiman, com notas sobre a soltura de micos-leões-dourados na Reserva Biológica Poço das Antas, reuniões e discussões com representantes do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF e descrição da população de micos-leões-dourados da Reserva Biológica Una. À direita, imagens do artigo publicado em 1989.
Micos-leões-dourados monitorados por radiocolar na Reserva Biológica Poço das Antas, em 1997. Crédito: Devra Kleiman.

Devra Gail Kleiman (1940–2010) nasceu no Bronx, em Nova Iorque. Bacharel em biopsicologia, obteve o doutorado em zoologia pela Universidade de Londres, em 1969. Pioneira na biologia da conservação, construiu sua carreira no Smithsonian Institution, onde atuou como pesquisadora sênior e diretora assistente de pesquisa do National Zoological Park, em Washington, D.C. Seus interesses científicos abrangeram o comportamento social e reprodutivo de mamíferos, a genética de populações, o manejo de espécies em cativeiro e a conservação aplicada. Foi uma das vozes mais influentes da conservação no século XX, reconhecida internacionalmente por estabelecer as bases científicas e práticas da reintrodução de espécies ameaçadas de extinção, especialmente mamíferos. Ganhou notoriedade por seus esforços para reproduzir o primeiro casal de pandas-gigantes no National Zoo – “ao refletir sobre o que não sabíamos em 1972, percebo que era praticamente tudo; estávamos voando às cegas”, disse Kleiman ao The Washington Post, em 2001 – e por sua participação fundamental no Programa de Conservação do Mico-Leão-Dourado, no Brasil, do qual foi uma das idealizadoras. O projeto tornou-se um modelo mundial ao integrar pesquisa científica, manejo em cativeiro, reintrodução, proteção de habitat e educação ambiental – uma abordagem então inédita. 

Além de cientista, Kleiman foi uma defensora ativa da cooperação entre zoológicos, pesquisadores de campo, governos e comunidades locais. Sua obra contribuiu para afastar a reintrodução de um ideal romântico, consolidando-a como uma ferramenta técnica, ética e baseada em evidências.

Recordação: Melissa Rodden – do Smithsonian’s National Zoological Park, Conservation & Research Center, coordenadora do Maned Wolf SSP –, o autor desta coluna e Devra Kleiman – sempre sorrindo – durante oficina sobre a conservação do lobo-guará, realizada no Parque Nacional da Serra da Canastra em 2005. Crédito: Otávio Maia.

Alison Hannah, pesquisadora associada ao campo da reabilitação e do manejo de chimpanzés, e William McGrew, referência mundial em etologia de chimpanzés, formalizaram o uso do termo reabilitação no sentido técnico de treinar e preparar indivíduos para uma vida independente em seu habitat natural, diferenciando-o da ‘soltura simples’. No artigo Rehabilitation of captive chimpanzes, eles sintetizaram: “Tal como é empregado atualmente, o termo ‘reabilitação’ abrange uma variedade de procedimentos. ‘Soltura’ significa libertar animais mantidos em cativeiro, muitas vezes com pouco ou nenhum acompanhamento posterior de seu destino. Em alguns casos, isso é suficiente. ‘Repatriação’ refere-se a situações em que os animais são devolvidos ao país de origem, geralmente de climas temperados inadequados para ambientes tropicais mais favoráveis. Isso pode representar uma melhoria no padrão de vida, mesmo que a liberdade plena não seja alcançada. Por exemplo, espécimes criados como animais de estimação provenientes da Europa. O termo ‘translocação’ geralmente envolve a transferência de uma localidade para outra, com um período mínimo de permanência intermediária em cativeiro. Por definição, trata-se de indivíduos nascidos na natureza, pouco propensos a adquirir anomalias comportamentais em decorrência de contato humano de curta duração. O termo ‘reintrodução’ pode parecer um equívoco, no sentido de sugerir ‘introduzir novamente’, mas é, de fato, frequentemente utilizado no contexto geral de ‘restauração’ [alguns zoólogos utilizam o termo ‘refaunação’]. Por fim, há a ‘reabilitação’ em sentido estrito, que consiste no treinamento de indivíduos com comportamento inadequado em habilidades que lhes permitam sobreviver com independência. No mínimo, isso pode significar ressocializá-los para a vida em grupo na natureza. No máximo, envolve orientar os indivíduos a encontrarem e processarem alimento e água, detectar e evitar predadores e outros riscos, buscar e construir abrigos, praticar hábitos pessoais saudáveis e produzir e criar descendentes; em suma, levar vidas normais e independentes”. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama, reabilitação é definida como “ação de recuperar as condições sanitárias, físicas e comportamentais de um animal silvestre, de modo que o permita se desenvolver em seu ambiente natural de forma independente e de acordo com as características biológicas de sua espécie”. 

L’envoi: “Alcançamos nosso objetivo, ao custo de muitos meses de amarga ansiedade. Elsa está livre; ela não só viveu a vida de uma leoa selvagem por dois anos, como também criou uma família; e ainda conserva todo o seu carinho por nós, que a nutrimos por tanto tempo. Quem pode dizer até onde poderemos acompanhar sua trajetória futura? Certamente tentaremos. Seja qual for o seu destino final, seremos sempre gratos por ela ter nos proporcionado uma experiência única e a lembrança eterna de uma personagem tão adorável. Se, com tristeza, confesso que ‘com grande esforço consegui esta liberdade’ para ela, gosto de pensar que, quando ela esfrega o rosto no meu, está tentando me consolar dizendo, à sua maneira: mas eu nasci livre” (Joy Adamson, Born Free, 1960).

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

As informações apresentadas neste post foram reproduzidas do Site O Eco e são de total responsabilidade do autor.
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